O empate por 1 a 1 com Marrocos, na estreia do Brasil na Copa do Mundo dos Estados Unidos, Canadá e México, deixou dúvidas sobre a condição real de o Brasil brigar pelo título. Muitas dúvidas. E algumas delas bastante incômodas e preocupantes. Nem tanto pelo resultado em si. O problema foi a forma como a seleção brasileira se comportou, especialmente durante um primeiro tempo assustadoramente ruim, no qual foi dominada por uma seleção marroquina organizada, intensa e consciente do que precisava fazer em campo.
Ao final dos 90 minutos, o sentimento predominante não era de alívio pelo empate conquistado graças a um lampejo individual de Vini Júnior, enfim protagonista como dele se espera. Era de frustração. E, acima de tudo, de preocupação. Porque o jogo acendeu um enorme farol de alerta sobre o futuro da equipe na disputa.

Depois de um ano de observações, análises e experiências, Carlo Ancelotti escolheu cuidadosamente os onze jogadores que considerava ideais para iniciar a caminhada rumo ao hexa. O que se viu em campo, porém, foi um time pouco confiável, vulnerável e incapaz de competir em igualdade com Marrocos durante boa parte da partida. As fragilidades apareceram por todos os lados.
Os erros do Brasil foram muitos
A marcação foi frouxa. O meio-campo, cuja baixa capacidade de pressão já era motivo de preocupação antes da Copa, confirmou os receios. A saída de bola foi lenta. Os erros de passe se acumularam. As transições defensivas foram inseguras. O jogo pelos lados simplesmente não existiu. E o controle da posse de bola, algo fundamental no modelo de jogo de Ancelotti, desapareceu por completo.
Foi uma coleção de problemas individuais que resultou num desempenho coletivo pobre. E isso leva a uma reflexão sobre as escolhas do treinador. A improvisação de Ibañez na lateral parece ter sido um erro sem solução aparente. Desde o corte de Wesley, Ancelotti preferiu não convocar outro lateral de origem e optou por levar mais um meio-campista. A decisão já gerava questionamentos antes da estreia. Depois do que aconteceu diante dos marroquinos, os questionamentos se tornaram ainda mais fortes.

Mas nenhuma escolha pesa tanto quanto a do comando de ataque. A insistência em Igor Thiago começa a se transformar num problema para o treinador. Enquanto isso, Endrick parece gritar por uma oportunidade. O jovem atacante vive excelente momento, havia deixado boas impressões nos amistosos preparatórios e, ainda assim, não entrou sequer em campo quando a seleção mais precisava de soluções ofensivas.
Torcedor cobra respostas imediatas
O fato já está pesando sobre os ombros de Ancelotti. A grande dúvida que surge agora é simples: até que ponto ele estará disposto a se render às evidências? Os grandes treinadores da história costumam ter convicções fortes. Mas os maiores de todos também sabem reconhecer quando a realidade exige mudanças. A Copa do Mundo não oferece tempo para insistências prolongadas. Ela cobra respostas imediatas.
Se Endrick pede passagem, será que Ancelotti terá coragem de promovê-lo? Ou correrá o risco de permanecer fiel a uma escolha que o campo não está validando? A mesma pergunta vale para outros nomes. O caso mais emblemático é o de Casemiro. Durante todo este primeiro ano de trabalho, o volante foi um dos pilares da confiança do treinador italiano. Contra Marrocos, porém, teve uma atuação abaixo da crítica. Pareceu lento, mal posicionado e quase sempre atrasado nas divididas. Pior: ofereceu espaços que os meio-campistas marroquinos aproveitaram com enorme facilidade.
O que fazer com Casemiro
Será que Ancelotti terá coragem de colocar seu principal homem de confiança no banco de reservas em plena Copa do Mundo? Porque fazê-lo significaria admitir que algumas de suas escolhas estavam erradas. Mas não fazê-lo pode custar muito mais caro. É verdade que ninguém imaginava milagres. O ciclo de preparação foi turbulento. Houve lesões, indefinições e pouco tempo para treinar. Também é verdade que esta geração ainda não conseguiu reproduzir na seleção o mesmo brilho que vários de seus jogadores apresentam em seus clubes. Tudo isso é real. Mas também é real que se esperava mais. Muito mais.
O Brasil não foi apenas inferior a Marrocos em determinados momentos. Foi dominado. E foi dominado sobretudo por defeitos próprios. Defeitos que não surgiram agora. Defeitos que já eram conhecidos e que, por isso mesmo, deveriam estar mais próximos de uma solução. Por isso o empate da estreia gera mais perguntas do que respostas. O ambiente ao redor da seleção mudou. As conversas de bar, os debates televisivos e as análises dos especialistas giram em torno das mesmas dúvidas. O incômodo é generalizado.
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Ancelotti tem diante de si talvez o primeiro grande teste de sua passagem pela seleção. Não basta reconhecer publicamente que a equipe jogou mal. Não basta demonstrar desconforto com as críticas ou com as perguntas sobre Endrick. É preciso agir. A Copa do Mundo exige coragem. Coragem para mudar e corrigir erros. Coragem para abandonar convicções quando elas deixam de ser sustentadas pelo campo.
O empate contra Marrocos ainda não comprometeu a classificação brasileira. Mas deixou claro que, se quiser sonhar com o hexa, Ancelotti precisará decidir rapidamente se seguirá as evidências que o futebol lhe apresenta ou se correrá o risco de morrer abraçado às próprias convicções.





