A Copa do Mundo ainda está no começo, e qualquer sentença definitiva nesta altura do torneio corre o risco de envelhecer mal. Mas o sinal é forte demais para ser ignorado. Dona de dez títulos mundiais, atrás apenas da Europa na soma histórica das conquistas, a América do Sul começou o Mundial de 2026 sem vencer nenhum de seus quatro primeiros jogos: dois empates e duas derrotas. Brasil 1 x 1 Marrocos. Estados Unidos 4 x 1 Paraguai. Costa do Marfim 1 x 0 Equador. Arábia Saudita 1 x 1 Uruguai. O dado chama atenção não apenas pelo presente, mas pelo passado que ele aciona.

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Um olhar em todos os confrontos que aconteceram em edições passadas, a partir da largada do torneio, a última vez em que as seleções da Conmebol fecharam os seus quatro primeiros jogos de Copa sem uma vitória foi em 1974. Naquele Mundial da Alemanha Ocidental, o começo sul-americano também foi indigesto: Brasil 0 x 0 Iugoslávia, Alemanha Ocidental 1 x 0 Chile, Polônia 3 x 2 Argentina e Holanda 2 x 0 Uruguai.

América do Sul Gustavo Gómez e Alderete bem que tentaram, mas não foram páreo para o ataque dos Estados Unidos
Os zagueiros Gustavo Gómez e Alderete tentaram, mas não foram páreo para o ataque dos Estados Unidos / Albijorra

América do Sul em débito

A comparação com 1974 é útil porque tira o debate do exagero imediato. Não se trata de dizer que a América do Sul deixou de ser potência, nem de decretar o fim de uma escola que produziu Brasil, Argentina, Uruguai, Pelé, Maradona, Messi, Ronaldo, Romário, Francescoli e tantas outras dinastias. Mas também não dá para tratar a largada como detalhe. Quando algo acontece uma vez em meio século, o mínimo que se exige é atenção.

O primeiro diagnóstico é que a camisa sul-americana já não assusta como antes. Marrocos não entrou em campo contra o Brasil pedindo licença. A Arábia Saudita não se comportou como coadjuvante diante do Uruguai e segurou o empate por 1 a 1 em um grupo que ficou embolado depois do 0 a 0 entre Espanha e Cabo Verde. A Costa do Marfim teve força para castigar o Equador no fim, com gol aos 45 minutos do segundo tempo. E os Estados Unidos, talvez o caso mais simbólico da rodada, não apenas venceram o Paraguai: fizeram 4 a 1 e transformaram a estreia em demonstração de força de uma seleção anfitriã. 

Há uma mudança clara no ecossistema da Copa. Seleções africanas, asiáticas e da Concacaf chegam mais estruturadas, mais informadas e menos impressionadas. Jogadores atuam nas mesmas ligas, enfrentam os mesmos adversários, são treinados por técnicos de repertório internacional e chegam ao Mundial com preparação física, análise de desempenho e ambição competitiva. O velho argumento da ‘casca’ sul-americana continua existindo, mas já não basta para ganhar jogo.

América do Sul
Autor do gol da seleção brasileira, Vinícius Júnior teve muito trabalho diante da marcação do marroquino Hakimi / Fifa

Peso da responsabilidade

O segundo ponto é interno: as seleções da América do Sul parecem ter começado mais pesadas do que seus adversários. Pesadas pela tradição, pela obrigação, pela memória e, em alguns casos, pela dificuldade de transformar talento em domínio.

Existe também uma diferença entre sobreviver às Eliminatórias e impor jogo em Copa do Mundo. A competição sul-americana é duríssima: altitude, viagens longas, gramados difíceis, rivalidade, catimba, pressão. Ela prepara seleções para resistir. Mas a Copa cobra algo além da resistência. Cobra capacidade de propor, acelerar, variar repertório e resolver partidas contra adversários que não compram mais a ideia de inferioridade histórica.

A referência de 1974 ajuda a lembrar que começos ruins não significam necessariamente colapso. Naquela Copa, o Brasil começou empatando sem gols com a Iugoslávia, avançou de fase e terminou em quarto lugar. A Argentina também se classificou, apesar da derrota inicial para a Polônia. Ou seja: uma largada ruim pode ser corrigida. Mas também é verdade que 1974 não terminou com festa sul-americana. A final foi europeia, entre Alemanha Ocidental e Holanda, e o título ficou com os alemães.

América do Sul Enner Valencia sofreu com a marcação de Agbadou e foi substituído no segundo tempo
O equatoriano Enner Valencia sofre com a marcação de Agbadou, da Costa do Marfim, e sai na etapa final / Latriecu

É aí que mora o alerta para 2026. A América do Sul tem história suficiente para reagir, mas não pode confundir história com salvo-conduto. O Mundial começou mostrando que Europa, África, Ásia e Concacaf já venceram. A Conmebol, ainda não. Para um continente que carrega dez estrelas no peito de seus campeões, isso incomoda. E deve incomodar mesmo.

Argentina e Colômbia são esperança

A conclusão, por enquanto, não é que a América do Sul ficou para trás. É que ela largou olhando para trás demais. A Copa de 2026 está dizendo, logo nos primeiros dias, que tradição segue valendo muito, mas só até a bola rolar. Depois disso, quem não transforma camisa em futebol vira estatística. E a estatística, neste início, remete a 1974 — um passado distante que voltou para cutucar o orgulho sul-americano.

América do Sul O goleiro uruguaio Muslera dá rebote e Al-Amri aproveita para marcar o gol da Arábia Saudita
O goleiro uruguaio Muslera dá rebote, e o zagueiro saudita Al-Amri aproveita e anota o gol da Arábia Saudita / Fifa

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A boa notícia para os sul-americanos é que ainda há tempo. A má notícia é que, na Copa de 48 seleções, o grupo pode até oferecer mais caminhos, mas a primeira rodada já cobra caro de quem demora a entender o torneio. A América do Sul não está eliminada da conversa. Mas, pela primeira vez em muito tempo, começou tendo que explicar por que sua história ainda não virou futebol nesta Copa.

A primeira leitura é tentadora: a América do Sul envelheceu como potência? A resposta, por enquanto, precisa ser mais cuidadosa. Além do mais, a poderosa Argentina, de Lionel Messi, atual campeã, que encara a Argélia, nesta terça-feira, às 22h (horário de Brasília) e Colômbia, que encara o Uzbequistão, nesta quarta-feira, às 23h (horário de Brasília), precisam evitar o recorde histórico. Afinal, Copa do Mundo não costuma premiar conclusões apressadas. Mas o sinal está dado.

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