O Fortaleza decidiu transformar uma de suas principais vantagens esportivas em receita imediata. Depois de enfrentar o Palmeiras, no Nubank Parque, neste domingo, às 16h (horário de Brasília), a partida de volta das oitavas de final da Copa do Brasil, que, inicialmente estava prevista para o Castelão, será disputada na Arena Pantanal, em Cuiabá. O duelo acontece na próxima quarta-feira, às 21h30 (horário de Brasília). Pela transferência, o Leão receberá aproximadamente R$ 2,2 milhões. A operação pode ser explicada pelos números. Não necessariamente aceita sem contestação.
O Fortaleza convive com uma dívida estimada em R$ 300 milhões, perdeu receitas depois do rebaixamento no Campeonato Brasileiro, ainda não encontrou um patrocinador master e enfrenta dificuldades para transformar seus jogos como mandante em lucro. Mesmo com uma das maiores médias de público da Série B, o clube registrou prejuízo líquido na soma das primeiras partidas realizadas em casa pela competição.

Fortaleza ‘abandona’ sua torcida
Foi esse cenário que levou a direção a colocar a necessidade financeira acima da vantagem esportiva. Pedro Martins, CEO da SAF, reconheceu que a escolha provocaria resistência. “Sabíamos que haveria críticas, mas, entre levar críticas e manter o clube financeiramente organizado, eu prefiro tomar a decisão que seja melhor para o Fortaleza”, afirmou o dirigente.
A declaração apresenta uma justificativa objetiva. Os R$ 2,2 milhões equivalem a uma receita relevante para um clube que precisa pagar salários, fornecedores e compromissos acumulados. A mudança também reduz despesas logísticas, porque o Fortaleza enfrentará o Cuiabá, pela Série B, na mesma cidade, poucos dias depois. O problema está no que foi entregue em troca. O Fortaleza não abriu mão de uma partida qualquer. Cedeu o mando do confronto que define uma classificação nacional contra um adversário tecnicamente superior e acostumado a decidir eliminatórias. Ao sair do Castelão, o time perde o ambiente no qual normalmente apresenta seus melhores números e diminui a possibilidade de equilibrar o duelo pela pressão das arquibancadas.
Perigo no ar
Os resultados da temporada ajudam a dimensionar essa renúncia. No primeiro turno da Série B, o Fortaleza conquistou 25 pontos como mandante. Fora de casa, somou apenas nove em 30 possíveis. O desempenho mostra que jogar diante de seu público não é um detalhe simbólico, mas uma parte importante da competitividade da equipe.
A contradição fica ainda mais evidente quando se observa o discurso dos próprios jogadores. Depois da vitória sobre o Botafogo, no Castelão, na última terça-feira, pela 20ª rodada da Série B, o volante Ronald destacou o papel das arquibancadas na tentativa de reconstrução da temporada. “Essa conexão de time e torcida é essencial para a gente conseguir o nosso objetivo, que é subir”, declarou. O jogador não criticou a mudança nem lamentou publicamente a transferência do jogo. Ainda assim, sua fala resume o custo da operação. Enquanto o elenco reconhece a importância dessa ligação, a administração precisa convertê-la em dinheiro para manter o clube funcionando.
Também existe uma conta esportiva que não pode ser ignorada. A classificação para as quartas de final renderá cerca de R$ 4 milhões em premiação, valor superior ao obtido com a venda do mando. Evidentemente, permanecer no Castelão não garantiria a vaga. Da mesma forma, jogar em Cuiabá não determina a eliminação. Mas a direção aceitou uma receita certa e imediata em troca de uma vantagem que poderia aumentar as chances de buscar uma recompensa maior.

Sempre o dinheiro
O episódio está longe de ser inédito no futebol brasileiro. Clubes transferem jogos contra equipes de maior torcida há décadas, sobretudo quando a renda prometida parece mais segura do que a bilheteria habitual. A diferença é que o Fortaleza construiu nos últimos anos uma relação de identidade com o Castelão, disputou competições internacionais e apresentou um projeto de crescimento esportivo.
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Por isso, a mudança incomoda tanto. Ela funciona como um retrato do enfraquecimento provocado pelo rebaixamento e pelo endividamento. O clube que se acostumou a receber grandes adversários diante de arquibancadas cheias agora precisa negociar até o direito de jogar em casa. A escolha pode ajudar a pagar as contas do presente. A dúvida é quanto custará dentro do campo — e na relação com uma torcida que também financiou a ascensão do Fortaleza.





