Há uma linha tênue que separa a rivalidade saudável da irresponsabilidade institucional. Palmeiras e Flamengo decidiram atravessá-la neste sábado, com uma troca de insinuações. Dois dos maiores clubes do país protagonizaram uma ‘batalha’ de notas oficiais que deveria constranger quem realmente se preocupa com a credibilidade do futebol brasileiro. Em vez de concentrarem seus esforços em cobrar transparência, qualificação da arbitragem e aperfeiçoamento das instituições, ambos preferiram transformar seus canais oficiais em armas de uma guerra de narrativas, recheada de insinuações, suspeitas e acusações indiretas de favorecimento.
É uma postura pequena para clubes tão grandes. Tudo começou quando o Palmeiras resolveu contestar a decisão da Procuradoria do STJD de denunciar Mauricio pela cotovelada em Cacá, do Vitória. O clube tem todo o direito de discordar da denúncia. Faz parte do jogo democrático. O problema não está na contestação, mas na estratégia escolhida para sustentá-la. Ao invés de limitar-se aos argumentos jurídicos e técnicos do caso, a diretoria alviverde decidiu citar lances envolvendo Pulgar, do Flamengo, e Raniele, do Corinthians, sugerindo tratamento desigual. Ou seja, para defender seu atleta, preferiu colocar jogadores de clubes rivais no banco dos réus.

Tiroteio verbal
É uma construção retórica enviesada. Infantil até. Quando uma instituição do tamanho do Palmeiras utiliza rivais como peças de comparação para fortalecer sua narrativa, ela deixa de discutir um processo específico para alimentar justamente o ambiente de suspeição permanente que tanto diz combater.
A resposta do Flamengo veio na mesma moeda. Em vez de rebater os argumentos palmeirenses ou defender a atuação da Procuradoria, o clube divulgou uma longa nota sustentada por um levantamento estatístico segundo o qual o Palmeiras seria o clube mais beneficiado pelas intervenções do VAR desde sua implantação. O próprio texto admite que os números, isoladamente, não comprovam favorecimento.
E aí reside a maior contradição. Se não comprovam absolutamente nada, por que utilizá-los como principal fundamento de uma nota oficial? A resposta parece simples: porque a intenção não era esclarecer o debate, mas induzir o leitor a uma conclusão conveniente. Estatística sem metodologia científica capaz de estabelecer relação de causa e efeito serve muito mais para alimentar teorias conspiratórias do que para produzir conhecimento. O Flamengo critica insinuações recorrendo exatamente à ferramenta que mais favorece novas insinuações.
Morde e assopra
No fim das contas, ambos fizeram exatamente a mesma coisa. O Palmeiras procurou defender Maurício atacando Flamengo e Corinthians. O Flamengo respondeu tentando convencer a opinião pública de que o Palmeiras é historicamente beneficiado pela arbitragem. Cada um protegeu seu próprio interesse imediato. Nenhum protegeu o futebol.
O mais curioso é que a nota rubro-negra termina afirmando que o futebol brasileiro precisa voltar a discutir mais o jogo do que a arbitragem. Difícil imaginar desfecho mais contraditório. A própria nota dedica praticamente toda sua extensão a discutir arbitragem, levantar suspeitas, interpretar estatísticas e reforçar a narrativa de favorecimento que diz lamentar. É o equivalente a jogar gasolina na fogueira e, ao final, pedir que as chamas diminuam.

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A nota palmeirense incorre em erro semelhante. Ao transformar casos envolvendo outros clubes em instrumento de defesa, amplia a percepção de que cada decisão da arbitragem passa a ser medida não pela regra, mas pela camisa do beneficiado ou do prejudicado. Erros de arbitragem existem, precisam ser debatidos e cobrados. Transparência também é indispensável. Mas existe enorme diferença entre cobrar melhoria institucional e transformar canais oficiais de clubes em instrumentos para disseminar suspeitas que não podem ser comprovadas. Rivalidade é combustível do futebol. Insinuação institucionalizada, não.





