“Algo muito ruim está para acontecer nesse campo de futebol, em Miami.” O alerta foi feito semanas antes da partida por Vó Bahiana, vidente catarinense que ganhou fama nas redes sociais após prever uma suposta invasão alienígena durante a Copa do Mundo. Em um vídeo que viralizou Brasil afora, ela relatou ter sonhado com duas naves espaciais sobrevoando o Hard Rock Stadium, enquanto centenas de torcedores e até jogadores seriam abduzidos diante dos olhos do mundo.

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Na noite desta quarta-feira, por alguns instantes, pareceu até que a previsão poderia ganhar um capítulo extra de suspense. Nuvens carregadas cobriram o céu de Miami, uma forte chuva caiu sobre a cidade e o clima de tempestade tomou conta dos arredores do estádio. Até o Aeroporto de Miami entrou na brincadeira e publicou um alerta sobre “atividade aérea incomum” na região da partida.

Brasil Vini Júnior comemora o segundo gol
Decisivo mais uma vez, Vini Júnior comemora o primeiro dos seus dois gols na vitória do Brasil sobre a Escócia / Fifa

Brasil em rotação máxima

Mas os extraterrestres resolveram não aparecer. Talvez porque soubessem que, neste dia, o trabalho de abdução já tivesse dono. E ele era um terráqueo — ou quem sabe um galáctico, já que joga no Real Madrid. Vestindo a camisa 7 da seleção brasileira, Vinícius Júnior sequestrou o jogo, levou consigo a defesa escocesa e comandou a vitória por 3 a 0 que garantiu ao Brasil a liderança do Grupo C da Copa do Mundo. Enquanto as naves ficaram apenas na imaginação de Vó Bahiana, foi o atacante do Real Madrid quem transportou os escoceses para uma dimensão onde a marcação alta, a velocidade de raciocínio e a qualidade técnica brasileira pareciam impossíveis de acompanhar.

A classificação já estava encaminhada. O primeiro lugar do grupo, agora, é realidade. Com a vitória em Miami e a combinação de resultados envolvendo a vitória de Marrocos por 4 a 2 sobre o Haiti, a equipe de Carlo Ancelotti terminou na liderança pelos critérios de desempate e avança à segunda fase para enfrentar o segundo colocado da chave que reúne Holanda, Japão, Suécia e a eliminada Tunísia. Mais importante do que a classificação, porém, foi a forma como ela foi conquistada. O Brasil apresentou talvez seus melhores 90 minutos desde o início da competição.

Baila, Vini Júnior

A equipe teve paciência para circular a bola, precisão para trocar passes, inteligência para ocupar os espaços e intensidade para sufocar a saída adversária. Sem correr riscos desnecessários, controlou o ritmo da partida do início ao fim, impondo uma superioridade técnica e coletiva que raramente foi ameaçada. O primeiro gol nasceu justamente da marca registrada da noite. Aos sete minutos, a Escócia tentou sair jogando desde sua defesa. Rayan pressionou Robertson, roubou a bola dentro da área e ela sobrou para Vinícius Júnior. O camisa 7 driblou Gunn e empurrou para as redes com frieza espacial.

Era apenas o começo do show de abdução desse ser iluminado. Aos 21 minutos, Vinícius voltou a balançar a rede depois de outra recuperação de bola próxima à área escocesa. O lance, entretanto, foi anulado após revisão do VAR, que enxergou falta do atacante brasileiro na origem da jogadaO gol não valeu, mas serviu para reforçar uma mensagem: a pressão brasileira estava desmontando completamente a construção ofensiva dos escoceses.

O segundo gol, enfim, chegou nos acréscimos do primeiro tempo. Mais uma vez, a origem foi a agressividade sem bola. Matheus Cunha e Danilo venceram divididas na saída adversária, Bruno Guimarães levantou na medida e Vinícius Júnior apareceu livre na segunda trave para cabecear para o fundo das redes.

O intervalo chegou com sensação de controle absoluto. Só faltou o golaço de Rayan para transformar a primeira etapa em uma noite perfeita. Aos 50 minutos, o jovem atacante recebeu lançamento de Paquetá, deixou Robertson para trás com categoria e finalizou bem, mas parou em grande defesa de Gunn.

Mesmo apetite ofensivo 

O panorama não mudou após o descanso. O Brasil continuou dominando a posse de bola, valorizando cada passe e evitando transformar o confronto em uma troca de golpes que pudesse favorecer os escoceses. Era uma equipe madura, consciente e confortável dentro do plano de jogo desenhado por AncelottiO terceiro gol surgiu dessa maturidade. Casemiro encontrou Bruno Guimarães infiltrando pelo lado direito. Em vez de concluir, o volante mostrou lucidez e generosidade ao servir Matheus Cunha, que apenas completou para as redes e transformou a superioridade brasileira em goleada.

Com a missão cumprida, Ancelotti começou a pensar adiante. A partir dos 20 minutos da etapa final, preservou algumas peças importantes e abriu espaço para jogadores que podem ser úteis na sequência da competição. Fabinho entrou na vaga de Casemiro. Martinelli substituiu Paquetá.

Brasil Matheus Cunha comemora o terceiro gol
Matheus Cunha se diverte na simulação de manobra de surfista na comemoração do terceiro gol da seleção brasileira / Fifa

Neymar levanta galera

E então veio o momento mais aguardado da noite. Aos 30 minutos do segundo tempo, o Hard Rock Stadium levantou-se para aplaudir. Depois de 980 dias longe da Seleção Brasileira, Neymar voltou a vestir a camisa amarela em uma partida oficial. Recuperado da grave lesão que quase comprometeu sua presença no Mundial, o camisa 10 entrou no lugar de Matheus Cunha e deu início, enfim, à sua quarta Copa do Mundo. O resultado já estava definido. A classificação também. Mas a entrada de Neymar deu ao jogo um significado a maisE se a noite começou cercada por histórias de discos voadores, termina com um presságio bem mais interessante para os brasileiros.

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Ao marcar nos três primeiros jogos da Copa, Vinícius Júnior entrou em um grupo extremamente seleto da história da seleção brasileira. Antes dele, apenas Jairzinho em 1970, Romário em 1994, Ronaldo e Rivaldo em 2002 haviam conseguido balançar as redes nas três partidas iniciais de um Mundial. Há um detalhe que transforma a coincidência em esperança. Todos eles terminaram a competição levantando a taça. Talvez Vó Bahiana tenha errado sobre as naves. Mas, quem sabe, não tenha captado algum sinal vindo do futuro.

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