Se esta é mesmo a Copa dos protagonistas, convém abrir alas quando um deles resolve entrar em cena. Harry Kane atende pelo apelido de Hurricane desde muito antes de se transformar no maior artilheiro da história da Inglaterra. Nesta quarta-feira, em Atlanta, o apelido deixou de ser apenas um trocadilho. Virou fenômeno da natureza. Depois de quase uma hora encarando uma muralha africana que parecia intransponível, um furacão atravessou a defesa da República Democrática do Congo, virou um jogo improvável em apenas dez minutos e colocou a Inglaterra nas oitavas de final com uma vitória dramática por 2 a 1.

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A classificação inglesa coloca pimenta no tempero desse mata-mata da Copa. Agora, a seleção comandada por Thomas Tuchel terá pela frente o invicto México. E quem sobreviver desse duelo poderá cruzar o caminho do Brasil nas quartas de final, desde que a seleção de Carlo Ancelotti confirme seu favoritismo diante da Noruega. Tensão à vista. Basta imaginar um eventual duelo entre Harry Kane e Vinícius Júnior para entender por que tantos brasileiros passaram a tarde torcendo pelo Congo. E, durante boa parte do jogo, parecia que o desejo da torcida brasileira iria se realizar.

Com dois gols, atacante Harry Kane virou o jogo e classificou a Inglaterra para as oitavas de final da Copa / Fifa

O desafiador Congo

Depois de escrever uma das histórias mais bonitas da fase de grupos, quando arrancou um empate diante de Portugal e conquistou pela primeira vez uma vaga no mata-mata de uma Copa do Mundo, a República Democrática do Congo voltou a desafiar todas as previsões.

Montada para se defender, a equipe africana mostrou personalidade para atacar logo na primeira oportunidade. Aos seis minutos, Mbemba avançou pela direita e encontrou Cipenga livre. O atacante dominou e bateu firme para vencer Pickford e colocar os congoleses na frente.

Com disciplina, República Democrática do Congo abriu o placar, mas acabou tomando a virada da forte Inglaterra / Fifa

O gol transformou o jogo exatamente naquilo que o Congo desejava. A partir dali, começou a erguer uma verdadeira fortaleza diante de sua área. A Inglaterra monopolizava a posse de bola, mas esbarrava numa defesa disciplinada e, principalmente, numa atuação gigantesca do goleiro Mpasi.

Mpasi fez o que pôde no gol

Quando a muralha parecia ameaçada, lá estava ele. Defendeu um cabeceio de Bellingham após cruzamento de Rice. Viu Bissaka salvar em cima da linha a conclusão de Rashford depois da jogada de Madueke. Assistiu Wissa acertar a trave quase ampliando a vantagem africana. Ainda ouviu Kane pedir um pênalti ignorado pela arbitragem e terminou a etapa inicial salvando novas finalizações de Bellingham e do próprio camisa 9 inglês.

Na volta do intervalo, o roteiro pouco mudou. Logo aos sete minutos, Bellingham bateu cruzado e Mpasi fez mais uma defesa extraordinária, salvando em dois tempos quando a bola parecia ganhar o caminho das redes.

Inglaterra monopolizou o campo de jogo e tentou de todas as formas furar o bloqueio do Congo / Fifa

Thomas Tuchel mexia no time, alterava peças, mudava o sistema ofensivo, buscava novas alternativas, mas a tradicional arma inglesa, os cruzamentos para a área, quase sempre encontrava a cabeça de um defensor congolês. Quase sempre…

O diferencial Harry Kane

Aos 29 minutos, Gordon conseguiu escapar pela esquerda e cruzou na medida. Pela primeira vez durante toda a tarde, a defesa africana perdeu Harry Kane de vista. O camisa 9 apareceu por trás dos zagueiros, subiu mais alto que todos e cabeceou firme. Mpasi ainda tocou na bola, mas essa entrou.

Apenas dez minutos mais tarde, Kane escreveu mais um capítulo de sua história nas Copas. Recebeu na entrada da área cercado por quatro marcadores. Parecia não haver espaço. Mas ele deu um jeito: dominou, deu um toque para a direita e armou um disparo violentíssimo no ângulo esquerdo de Mpasi. Um golaço!

Foi o 13º gol de Harry Kane em Copas do Mundo, marca alcançada em apenas 15 partidas, números que reforçam sua condição de maior artilheiro inglês da história dos Mundiais. Somados aos impressionantes 71 gols marcados na temporada com a camisa do Bayern de Munique, ajudam a explicar por que ele continua sendo um dos atacantes mais completos, letais e decisivos do futebol mundial.

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A Inglaterra escapou por pouco de uma das maiores zebras desta Copa. Nunca havia perdido para seleções africanas em Mundiais — embora já tivesse empatado com Gana nesta edição — e esteve muito perto de ver essa escrita cair diante de uma República Democrática do Congo que vendeu caríssimo a derrota e deixou o torneio de cabeça erguida, depois de protagonizar sua melhor campanha em Copas do Mundo. Mas, justamente quando Atlanta começava a acreditar no impossível, um furacão passou pelos Estados Unidos. Agora, ele sopra em direção ao México.

Possível adversário do Brasil

E, se continuar com essa força, poderá atingir o Brasil nas quartas de final. Só essa possibilidade já basta para deixar o torcedor brasileiro em estado de alerta. Porque, na Copa dos protagonistas, Harry Kane acaba de fazer a sua entrada triunfal. Ao final do jogo, ele reuniu os colegas num círculo dentro do gramado e pediu que todos celebrassem esse resultado – até o próximo desafio. Humilde, não quis parecer o dono da festa. “Foi um jogo louco, mas com um sentimento fantástico. Qualquer  jogador poderia ter um momento de herói e coube a mim viver isso aqui. Temos um time muito forte e agora é hora de celebrar”, disse o cara do jogo.

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