Há jogos que desafiam a lógica. Na maioria deles, o senso comum costuma dizer que nem os melhores roteiristas de Hollywood conseguiriam pensar numa história parecida. A tentação de cair nesse chavão é óbvia diante do que Portugal e Croácia entregaram na noite desta quinta-feira, no Canadá. Mas, a bem da verdade, a história desse jogo não cabe nem na ficção. Era preciso acontecer esse Portugal 2 x 1 Croácia para que a história registrasse um dos finais mais extraordinários que uma Copa do Mundo já produziu.
Portugal está nas oitavas de final e vai encarar a Espanha, na próxima segunda-feira, às 16h (horário de Brasília), em Arlington, nos Estados Unidos. Mas essa é apenas a informação burocrática, protocolar, de quem olha o resultado e não vê o que foi essa batalha épica. O que realmente ficará guardado foi a montanha-russa de emoções construída em um segundo tempo absolutamente inesquecível, daqueles que fazem qualquer torcedor perder a noção do tempo, da razão e até da própria respiração.

Duelo de lendas
Tudo isso temperado com um elemento a mais para dar nobreza ao espetáculo. O jogo ficará marcado também por um duelo particular entre duas lendas que ajudaram a escrever uma das gerações mais brilhantes do futebol europeu. Cristiano Ronaldo e Luka Modrić, que andaram juntos durante tantos anos no Real Madrid, encontravam-se agora em trincheiras opostas, ambos disputando talvez a última oportunidade de completar uma biografia que já parecia perfeita, mas que ainda carregava a ausência da Copa do Mundo. O destino resolveu colocá-los frente a frente num combate que nenhum dos dois esquecerá. Nem ninguém!
Esqueçam o primeiro tempo. Os primeiros 45 minutos foram desperdiçados por um sentimento coletivo de tensão e medo que impediu que o jogo fluísse. Portugal até teve mais posse de bola, mas encontrou uma defesa disciplinada e um inspirado Livaković. A melhor oportunidade surgiu num chute quase sem ângulo de Bruno Fernandes, brilhantemente defendido pelo goleiro croata. Do outro lado, a Croácia praticamente não conseguiu contra-atacar. Foi um primeiro tempo nervoso, travado e que não faria a menor falta para a história.
Portugal valente
Então veio o segundo tempo. E tudo aquilo que parecia controlado mergulhou no caos, com direito a quatro gols anulados, dez minutos de acréscimo, grandes defesas e a ironia de Portugal chegar à vitória quando Cristiano Ronaldo já estava no banco de reservas. Aos sete minutos, a Croácia encontrou o golpe que parecia definitivo. Vlašić acionou a ultrapassagem de Stanišić pela direita. O cruzamento atravessou toda a área, passou por Matanović e Rúben Dias, até encontrar Ivan Perišić, livre do outro lado. O veterano dominou, escolheu o canto e bateu na saída de Diogo Costa. Era o 1 a 0.
Quatro minutos depois, os croatas chegaram ao segundo gol. Matanović empurrou para as redes após cruzamento rasteiro, mas o impedimento de Vlašić na origem da jogada foi confirmado pelo VAR. Era apenas o primeiro dos muitos capítulos protagonizados pela tecnologia do apito — outro ingrediente que botou fogo no jogo.
Portugal sentiu o golpe, mas não se entregou. Aos doze minutos, Rafael Leão recebeu pela esquerda, cortou para dentro e soltou um míssil que explodiu no travessão de Livaković. Um minuto depois, a torcida portuguesa explodiu de alegria quando Cristiano Ronaldo dominou na entrada da área e tocou com categoria na saída do goleiro. O bandeira marcou, e o VAR confirmou o impedimento.
CR7 chama responsabilidade
O relógio corria impiedosamente. Aos dezoito minutos, o técnico português jogou no lixo todo o planejamento elaborado no vestiário. E foi para o tudo ou nada, no desespero. Fez quatro substituições de uma só vez. Mal sabia ele que, entre seus eleitos para entrar, estaria um herói. Dois minutos depois, veio mais uma intervenção decisiva do VAR. Após revisão, o árbitro marcou pênalti para Portugal.
A bola foi entregue a Cristiano Ronaldo. O camisa 7 a beijou. Respirou fundo mais de uma vez. Caminhou lentamente até a marca da cal. E, com a serenidade de quem construiu uma carreira inteira convivendo com esse tipo de responsabilidade, bateu firme no meio do gol. Era o gol da redenção. E o de número 976 da carreira!
Portugal respirava novamente. Mas o futebol ainda preparava novos testes cardíacos. Aos 29 minutos, Kovačić acertou a trave de Diogo Costa. No rebote, a bola voltou para ele, que tentou um voleio, exigindo outra defesa espetacular do goleiro português. Dois minutos depois, foi a vez de Matanović invadir a área e obrigar Diogo Costa a fechar o ângulo numa saída perfeita. A Croácia continuava muito perto da classificação. Aos 34 minutos, Petar Sučić chegou a balançar as redes portuguesas. Outra vez, o VAR entrou em cena. O impedimento apareceu na tela. Outra vez, Portugal permanecia vivo.
Então surgiu o momento que parecia impossível de explicar. Aos 36 minutos, Cristiano Ronaldo foi substituído por esgotamento físico. O semblante dele, no entanto, não aprovava a decisão do técnico. O camisa 7 não aceitava deixar o campo naquele instante. Caminhou contrariado até o banco, enquanto milhares de portugueses tentavam compreender a decisão do treinador espanhol. Parecia uma aposta perigosíssima retirar justamente o maior artilheiro da história da seleção num jogo que ainda buscava um herói.

Final eletrizante
Mas o futebol gosta de desafiar todas as certezas. Já aos 48 minutos, Rafael Leão recebeu novamente pela esquerda e colocou mais uma bola na área. Gonçalo Ramos, o centroavante que carrega o número 9 tatuado nas costas como identidade, subiu entre dois defensores e testou para o fundo das redes.
Vira, vira, vira! Portugal ressuscitava sem Cristiano Ronaldo em campo. Quem seria capaz de imaginar um milagre desses? O futebol possui caprichos que nenhuma teoria consegue explicar. E, quando parecia que tudo enfim havia terminado… Aos 57 minutos, já nos últimos instantes, a Croácia empatou. O estádio inteiro mergulhou numa explosão de emoções. Mas o VAR apareceu uma última vez. A tecnologia identificou um toque croata no caminho da bola e, na sequência, posição irregular de Pašalić antes da conclusão de Gvardiol. Impedimento. Gol anulado. Fim de jogo.
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Nem o mais talentoso escritor seria capaz de conceber um roteiro com quatro gols anulados, um pênalti decidido pelo VAR, duas bolas na trave, defesas monumentais dos dois goleiros, uma virada nos acréscimos e um gol salvador marcado justamente depois da saída de Cristiano Ronaldo, por um herói improvável. Na segunda-feira, Portugal terá pela frente a seleção espanhola nas oitavas de final. Um clássico ibérico que, por si só, já seria suficiente para parar boa parte do continente.
A única pergunta que fica é outra. Como se recuperar emocionalmente, em tão pouco tempo, depois de sobreviver a uma das noites mais inacreditáveis que a Copa do Mundo já foi capaz de produzir?





