A eliminação para a Noruega não decretou apenas o fim do sonho do hexacampeonato. Ela encerrou também o primeiro grande julgamento público de Carlo Ancelotti no comando da seleção brasileira. E, como sempre acontece no futebol brasileiro, bastou o apito final para surgir uma fila de técnicos e comentaristas prontos para cobrar a conta do italiano.

Tudo sobre a Copa de 2026

Há, evidentemente, um componente de revanche. Muitos dos que hoje apontam o dedo foram os mesmos que nunca esconderam o incômodo de ver um estrangeiro ocupar o cargo mais simbólico do futebol brasileiro. A velha tese da reserva de mercado continua viva. Mas reduzir todas as críticas a esse ressentimento seria tão equivocado quanto absolver Ancelotti apenas pelo tamanho de sua biografia.

Após eliminação da Copa, erros de Carlo Ancelotti na seleção brasileria precisam ser discutidos / Reprodução

O currículo não imuniza ninguém contra os próprios erros.

Ancelotti fracassou na Copa do Mundo. E fracassou cometendo equívocos que precisam ser discutidos sem paixão, sem caça às bruxas e sem pedidos de demissão. Até porque isso sequer está em pauta. Com contrato renovado até 2030, ele seguirá comandando a seleção no próximo ciclo. Justamente por isso, este é o momento ideal para identificar onde errou, antes que os mesmos erros se repitam daqui a quatro anos.

Sete pecados capitais de Ancelotti

1 – Convocações sem coerência

O primeiro pecado apareceu ainda antes da bola rolar: as convocações. Depois de perder jogadores importantes por lesão, Ancelotti se atrapalhou na reconstrução da lista final. Na tentativa de aumentar as opções ofensivas, desequilibrou o elenco, esvaziando o meio-campo e criando um grupo sem harmonia entre os setores. Nas laterais, jamais deixou claro quem eram seus homens de confiança. O Brasil chegou à Copa improvisando um zagueiro em uma faixa do campo e levando um volante como reserva imediato da posição. Era um elenco montado mais pelas circunstâncias do que por convicções.

2 – A pressão por Neymar e a insistência nos medalhões

O segundo pecado foi a erratica gestão da convocação de Neymar e a insistência em medalhões. Durante meses, tudo indicava que Ancelotti não convocaria o camisa 10 enquanto ele não recuperasse plenamente sua condição física. O próprio treinador garantiu que Neymar só voltaria estando cem por cento. Mas, na reta final, recuou. Cedeu a uma pressão que parecia incapaz de atingir alguém de sua estatura. Convocou um jogador que ainda convivia com uma lesão muscular de grau dois, incompatível com o discurso que havia sustentado até então.

3 – A falta de um time titular

O terceiro pecado foi nunca definir um time titular com clareza. Ele parecia perdido diante dessa exigência elementar. Talvez consequência direta das escolhas equivocadas na convocação, Ancelotti atravessou todo o ciclo promovendo experiências sucessivas. Igor Thiago começou Copa como titular. Luiz Henrique alternava banco e equipe principal. Lucas Paquetá, Danilo Santos e tantos outros entravam e saíam da equipe sem que houvesse um critério perceptível. Quando começou o Mundial, nem os próprios jogadores pareciam saber quem formava a base da Seleção. Em uma competição de tiro curto, isso costuma ser fatal.

4 – A indefinição do esquema tático

O quarto pecado foi a indefinição tática. O problema nunca foi discutir se o Brasil jogava no 4-3-3, no 4-2-4 ou no 4-1-4-1. Os números no papel pouco significam. O problema era a ausência de uma identidade reconhecível. A equipe mudava constantemente de comportamento, de posicionamento e de funções. Em vez de transmitir organização, transmitia improviso. Nos jogos decisivos, parecia um time procurando sua própria forma de jogar.

5 – A insistência em Casemiro

O quinto pecado teve nome e sobrenome: Casemiro. Ancelotti apostou todas as suas fichas naquele que foi seu homem de confiança durante anos no Real Madrid. Queria um líder dentro e fora de campo. A ideia fazia sentido. O problema é que o Casemiro de 2026 já não era o Casemiro das conquistas europeias. Mais lento, fisicamente distante de seus melhores dias e sobrecarregado por um meio-campo excessivamente ofensivo, nunca conseguiu controlar o setor mais importante do campo. Ainda assim, permaneceu intocável. Ancelotti preferiu morrer abraçado às próprias convicções.

6 – A presença do filho na comissão técnica

O sexto pecado foi exigir a presença do filho, Davide Ancelotti, na comissão técnica da seleção . Não se discute sua capacidade profissional. O debate nunca foi esse. O problema é institucional. Depois das experiências semelhantes vividas com Tite e Dorival Júnior, a CBF deveria ter evitado qualquer situação que alimentasse suspeitas de nepotismo.

7 – Falta de identidade – Brasil nunca jogou como Brasil

O sétimo e talvez maior pecado foi fazer o Brasil deixar de jogar como Brasil. Historicamente, a Seleção sempre construiu suas melhores campanhas dominando a bola, controlando o ritmo da partida, cansando o adversário pela circulação do jogo. Com Ancelotti aconteceu justamente o contrário. O Brasil frequentemente entregava a posse ao rival, aceitava jogar em transições e passava longos períodos correndo atrás da bola. Contra a Noruega isso atingiu seu ponto máximo. Houve momentos em que os noruegueses trocaram passes durante quase seis minutos ininterruptos, enquanto a seleção apenas assistia, perdida dentro de campo. Pela primeira vez em muito tempo, era o Brasil quem entrava na roda.

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