Há derrotas que encerram campanhas. Outras encerram eras. A de Portugal para a Espanha, por 1 a 0, nesta segunda-feira, em Dallas, pertence à segunda categoria. Não foi apenas a eliminação portuguesa nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. Foi o ponto final de Cristiano Ronaldo, o CR7, em Mundiais. Aos 41 anos, depois de seis Copas, 27 partidas e 11 gols, o maior jogador da história de Portugal deixou o torneio pela última vez sem tocar na taça que perseguiu durante duas décadas.

Tudo sobre a Copa do Mundo

E que perdedor. Porque Cristiano não sai da Copa como coadjuvante qualquer, mas como um monumento esportivo atravessado pelo tempo. Desde 2006, quando estreou na Alemanha, até 2026, nos Estados Unidos, ele marcou em todas as edições que disputou. Fez gol no Irã, na Coreia do Norte, em Gana, na Espanha, no Marrocos, em Gana de novo, no Uzbequistão, na Croácia. Virou o primeiro jogador a balançar as redes em seis Copas. Empurrou a própria longevidade para um lugar quase absurdo. Mas o futebol, esse velho especialista em crueldade, reservou para o seu adeus uma sentença conhecida: Espanha 1 x 0 Portugal.

Cristiano Ronaldo
O adeus de Cristiano Ronaldo aos Mundiais tem o peso de uma lenda e a dor de um sonho inacabado / Reprodução

Merino, o iluminado

Como em 2010, bastou um gol espanhol para derrubar Portugal nas oitavas e mandar a Fúria às quartas de final. Na África do Sul, o carrasco foi David Villa, em Cape Town, no caminho do título mundial. Agora, 16 anos depois, o personagem mudou, mas a lógica foi parecida. Portugal resistiu, esperou, sofreu pouco em alguns momentos, ameaçou em outros, mas terminou castigado por uma Espanha que sabe fazer o jogo caber dentro da sua paciência. O placar mínimo, para os espanhóis, não tem cara de pobreza. Tem cara de método.

O jogo caminhava para a prorrogação quando Mikel Merino entrou para mudar a história. Aos 40 minutos do segundo tempo, Luis de la Fuente chamou o meio-campista. Aos 46 minutos, ele já tinha decidido. A Espanha cobrou uma falta rapidamente, Portugal dormiu por um segundo — e, em mata-mata de Copa, um segundo costuma ser uma eternidade. Ferran Torres encontrou Merino pelo lado esquerdo da área. O camisa espanhol bateu rasteiro, firme, no canto. Diogo Costa não alcançou. Portugal também não.

Merino, de novo, virou o homem do instante final. Na Eurocopa de 2024, ele já havia salvado a Espanha contra a Alemanha, nas quartas de final, com uma cabeçada no fim da prorrogação. Naquela noite, em Stuttgart, correu em volta da bandeirinha de escanteio para repetir a comemoração de seu pai, Ángel Miguel Merino, que havia feito gesto parecido pelo Osasuna no mesmo estádio, em 1991. Contra Portugal, a celebração voltou a carregar esse sentido de herança. Não era apenas um gol. Era uma assinatura familiar em outro capítulo decisivo da seleção espanhola.

Cristiano Ronaldo encerra ciclo

Do outro lado, Cristiano Ronaldo viveu a partida que ninguém consegue ensaiar. Antes do jogo, ele já havia admitido que esta seria sua última Copa do Mundo. Ainda tentou transformar a despedida em sobrevivência. Teve uma finalização improvisada no primeiro tempo, defendida por Unai Simón. Pediu bolas, reclamou de outras que não vieram, apontou caminhos, gesticulou, brigou contra a passagem do tempo. Mas o roteiro foi impiedoso. Quando Merino marcou, Cristiano olhou para uma defesa desligada e para um destino que já não podia ser reescrito.

Portugal ainda teve uma chance enorme para levar o jogo à prorrogação. Bernardo Silva subiu na pequena área, já nos acréscimos, e mandou por cima. Foi o último suspiro. A última fresta. A última possibilidade de Cristiano Ronaldo ganhar mais 30 minutos de Copa. Quando o apito final de veio, não havia mais retórica capaz de diminuir o tamanho do que terminava ali. O Mundial perdeu Cristiano Ronaldo. Portugal perdeu o seu maior símbolo. E a Copa de 2026 perdeu uma de suas últimas pontes vivas com o futebol de 2006.

Ritmo de um relógio

A Espanha, porém, não tem culpa da nostalgia alheia. A equipe de Luis de la Fuente segue fazendo o que mais impressiona nesta Copa: controla jogos, reduz riscos e transforma a defesa em parte central do seu favoritismo. São cinco partidas no torneio e nenhum gol sofrido. A Áustria já havia passado sem acertar o gol. Portugal ameaçou mais, acertou o travessão com Nuno Mendes, obrigou Unai Simón a trabalhar em lance de Cristiano Ronaldo, mas nunca conseguiu quebrar a sensação de que a Espanha estava sempre a uma posse, um passe ou uma pausa de recuperar o controle.

Cristiano Ronaldo Merino
Merino repete façanha da Euro de 2024, faz gol no final, coloca a Espanha nas oitavas e homenageia seu pai / Sefutbol

De la Fuente também vai acumulando marcas que aproximam esta seleção da memória mais poderosa do futebol espanhol. A série invicta segue viva, agora no território das grandes sequências históricas da Fúria. Não é a Espanha de Xavi, Iniesta, Busquets e Villa. É outra. Tem Lamine Yamal, Pedri, Rodri, Oyarzabal, Baena, Merino, Ferran. Mas carrega uma semelhança essencial com a campeã de 2010: sabe vencer quando o jogo pede brilho e sabe vencer quando o jogo pede apenas uma facada.

SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin

Portugal vai embora com a dor de quem teve uma geração talentosa, nomes de primeira linha e, ainda assim, não encontrou a melhor versão coletiva quando mais precisava. A eliminação também obriga a seleção a encarar o dia seguinte sem a sombra gigantesca de Cristiano Ronaldo em Copas. Talvez ele ainda vista a camisa portuguesa. Talvez não. Mas Mundial, não mais. A Espanha segue. Vai às quartas de final, onde espera Estados Unidos ou Bélgica. Cristiano fica pelo caminho. E a imagem final não precisa de exagero: um gigante derrotado, uma era fechada e Merino, poucos minutos depois de entrar, assinando o adeus mais pesado desta Copa.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui