Aos pobres é negado o direito ao silêncio. Bruno arriscou domar o som. Foi até apelidado de Ludwig, mas nada ao redor dele lembrava, sequer remotamente, as facilidades a serviço de uma criança alemã. Havia tanto alarido dentro do barraco de três cômodos, lotado de cinco irmãos, que ele sentia alívio quando ia para a aula de música. Quando uns playboys daquela ONG apareceram na comunidade, convidando para um curso de piano, se jogou de dedos e alma.
Os exercícios terminaram e ele ficava lá, hipnotizado pelo instrumento, numa obsessão incomum para um menino daquela idade tão dada a distrações. Antes de ser alfabetizado em partituras, embasbacou os voluntários ao reproduzir melodias de ouvido, pressionando as teclas ora com ardor, ora com suavidade, sempre no controle.
Os dedos pareciam dez seres vivos independentes, mexendo-se com uma autonomia subserviente ao harmônico. Três meses depois de sentar pela primeira vez diante de um piano, seus dedos já corriam depressa demais para que os voluntários acompanhassem o movimento. Logo recebeu o apelido, Ludwig, numa inspiração linear e pobre, porque, para quem nasceu onde o guri nasceu, ser tratado por nome e sobrenome é um privilégio de quem já prosperou. Depois, após rápido convencimento dos pais, dispensados de alimentar mais uma boca, deixou a favela rumo ao asfalto. Seria treinado para a orquestra da capital.

Inicialmente, se encantou com o quarto só para si, com as cinco refeições diárias. A saudade dos irmãos era velozmente dissipada quando ressoava na memória a gritaria, a espera para ir ao banheiro, as cotoveladas nas camas compartilhadas. Mas o conforto exigia em troca uma rotina que beirava o ascetismo.
Despertava às 7h da manhã, nutria-se de um portentoso desjejum, era orientado por tutores em educação domiciliar até meio-dia. Comia uma refeição leve e, no comecinho da tarde, se metia em exercícios técnicos puros, escalas em todas as tonalidades e arpejos. Assim irrigava os músculos, calibrava a precisão dos dedos e trabalhava a velocidade.
Duas horas depois, se impunha um exercício torturante, sem jamais tocar uma música até o fim. Ia direto aos trechos mal executados e repetia 50 vezes seguidas, em lentidão absoluta, e analisava a digitação correta, num trabalho puramente cerebral.
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Ao entardecer, com a técnica calibrada, passava à fase artística. Tocava as peças completas de Bach, Chopin e, claro, Beethoven. Focava na dinâmica, alternando volumes alto e baixo, no uso do pedal, no fraseado e na emoção que a música deveria passar. Antes de dormir, ouvia longamente o repertório que estava estudando na gravação de grandes pianistas.
Assim foi por longos dez anos. Virou um estranho para os pais e os irmãos na medida em que se tornava íntimo de um instrumento que os vizinhos de infância conheciam apenas por carregá-lo nas costas. O maestro achou que era hora.
Às 20h37 de um sábado de julho, com o teatro lotado por mais de mil gentes empertigadas, o menino Ludwig sentiu as mãos umedecerem quando olhou o programa da noite.
Em letras discretas, lia-se:
BRUNO GUIMARÃES
Respirou fundo.
E errou.





