New Jersey – Das quatro seleções classificadas para as semifinais da Copa do Mundo, três são polos culturais do futebol contemporâneo. Se você pensou na Argentina, esqueça. Os argentinos têm Messi, fruto maior da redescoberta da Espanha em sua capacidade de produzir um tipo de jogo copiado em muitos lugares do mundo.
No passado, o centro do futebol estava na América do Sul. Não à toa, os europeus vinham ao continente buscar jogadores. Pelé não foi para nenhum time da Europa, razão pela qual eles hoje têm dificuldade para entender como o Rei transformou o passado em presente, como foi um jogador à frente de seu tempo.

O Brasil deixou de produzir cultura esportiva. A Argentina, também. Os polos culturais são Espanha e Inglaterra. E sabe por quê? Porque nesses países estão os melhores técnicos, os principais jogadores, as referências em preparação física e até de dirigentes.
O Brasil já ditou o ritmo
No Campeonato Inglês de 2017, o Chelsea era dirigido pelo italiano Antonio Conte, que começou a jogar no sistema 3-4-2-1 e a fazê-lo funcionar como uma sanfona. Perdia a bola, transformava alas em laterais, meias em pontas e o esquema variava para 5-4-1. Não demorou para se ver muitos outros times jogando igual.
Passados seis anos, Pep Guardiola fez o Manchester City atacar no 3-2-5. Uma espécie de WM moderno, onde os três zagueiros e dois médios formavam a letra M. E os cinco atacantes um W, com dois meias um pouco atrás dos pontas e dos centroavantes. Todo mundo joga assim na Copa do Mundo. E nem é preciso falar sobre a influência do tiki taka espanhol. Guardiola já disse que aprendeu com o seu pai falando sobre o Brasil. Hoje, o reconhecimento desse tico-tico-no-fubá é da Espanha.
A cultura do jogo
Diz-se que Zezé Moreira inventou a marcação por zona, que os times brasileiros popularizaram o 4-2-4 e, agora, voltamos ao tempo de copiar palavras e expressões dos portugueses e espanhóis. Trocar ponta por extremo ou externo para designar uma posição que, em inglês, se chamava e continua se chamando winger é sucumbir.

Apenas um símbolo. Quando o Brasil não era potência, dizia-se center-half para o centro-médio que se tornou médio-volante. Hoje, comentaristas dizem “tomada de decisão” porque leem assim em livros espanhóis, sem se dar conta de que editar é cortar palavras. Ibrahimovic comentou Inglaterra x Noruega criticando o ponta Madueke com a frase: “Everything he decided, he decided wrong.” Tudo o que ele decidiu, decidiu errado. Não havia tomada nem para a decisão nem para iluminar o ambiente.
Mais grave do que isto é ouvir gente informando que o Brasil jogava no 4-2-4, mesmo com o técnico a explicar que o sistema que se vê quando se defende era o 4-4-2. Voltar a produzir cultura do jogo será o início de um novo caminho para a seleção brasileira e o futebol no país. Não é tão importante o dicionário do futebol quanto este texto faz parecer. O conhecimento, sim.
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O Brasil precisa reconstruir um ambiente saudável no futebol, em que sejam respeitados os processos, em que não se pense que os técnicos chegam munidos de controles remotos, para controlar seus craques. É preciso conhecer futebol, entender suas particularidades, valorizar trabalho, como se faz na Espanha e na Inglaterra com os clubes, na França com a sua seleção. Ser um polo cultural do jogo como o Brasil era. O país do futebol precisa e merece viver num ambiente mais saudável.





