A bola mudou de cor na semifinal da Copa do Mundo. Saiu de cena o modelo utilizado desde a abertura do torneio com as cores vermelha, verde e azul para uma versão com uma combinação predominante de branco, preto e dourado, reservada para os quatro últimos jogos da competição. Em campo, porém, nada mudou. A estrutura, os painéis, a textura e a tecnologia permanecem os mesmos. A novidade está na embalagem — e, sobretudo, na capacidade de gerar uma segunda onda de publicidade e consumo.
Fifa e Adidas apresentam a alteração como uma celebração da caminhada até o troféu. O dourado remete à taça da Copa, enquanto os nomes das 16 cidades-sede aparecem incorporados ao desenho. Dallas, Atlanta, Miami e Nova York/Nova Jersey, palcos dos jogos finais, receberam maior destaque. O discurso é cuidadosamente construído para conferir significado esportivo a uma operação essencialmente comercial.

Fifa e a bola dourada
Ao lançar outra bola quando a Copa entra em sua fase de maior audiência, as empresas renovam a exposição de uma marca já exibida durante todo o campeonato. Criam também um novo objeto de desejo para torcedores e colecionadores. Não basta vender a bola da Copa. É possível vender ainda a bola da semifinal, da disputa pelo terceiro lugar e da final.
A estratégia não começou neste Mundial. Desde a Teamgeist Berlin, utilizada na final de 2006. Vieram depois a Jo’bulani, em 2010; a Brazuca Final Rio, em 2014; a Telstar Mechta, em 2018; e a Al Hilm, utilizada nas quatro partidas finais de 2022. Ou seja, a prática já se tornou parte do calendário promocional das Copas. A diferença, desta vez, está na amplitude da campanha. O produto recebeu identidade própria, evento de lançamento, narrativa específica e comercialização separada. A reta final deixa de ser apenas o ponto máximo da competição e passa a funcionar também como uma nova prateleira.
Gol para o marketing
Não há problema em reconhecer que o futebol profissional está ligado a patrocinadores, contratos e licenciamento. O incômodo surge quando uma ação de marketing é apresentada como se fosse uma necessidade esportiva ou uma homenagem indispensável ao torneio. A bola anterior poderia ser usada normalmente até a decisão. Não existe justificativa técnica para a substituição.
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A mudança, portanto, diz menos sobre o jogo e mais sobre o modelo de negócio que cerca a Copa. Cada detalhe pode ser reembalado, rebatizado e colocado à venda. Até a bola, símbolo mais elementar do futebol, ganha uma edição adicional quando os olhos do mundo estão voltados para o campo.





