Antes de se enfrentarem pelo troféu mais cobiçado do futebol, Luis de la Fuente e Lionel Scaloni estiveram em lados bem diferentes de uma sala de aula. O espanhol ensinava e o argentino, recém-aposentado dos gramados, tomava notas e dava os primeiros passos na profissão. Quase nove anos depois, professor e aluno estarão frente a frente na final da Copa do Mundo, neste domingo, no New York New Jersey Stadium. De la Fuente procura conquistar o título mundial que Scaloni levantou em 2022 e agora tenta conservar com a Argentina.

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O encontro ocorreu na Cidade do Futebol de Las Rozas, centro de treinamento e formação da Federação Espanhola. Scaloni começou o curso para obter a licença Uefa Pro em 16 de novembro de 2017. De la Fuente, então treinador das categorias inferiores da Espanha, foi seu professor nas disciplinas ‘Evolução do Futebol’ e ‘Criação de Equipes’. Tratava de princípios ofensivos e defensivos, organização do jogo e construção de um modelo coletivo. Antigos colegas descrevem suas aulas como claras, dinâmicas e preparadas por alguém que conhecia os códigos de um vestiário.

De La Fuente
No jogo mais importante da carreira, Luis de la Fuente precisa superar o aluno que ajudou a ser campeão da Copa / Sefutbol

Cooperação mútua

A formação de Scaloni na Espanha não se limitou àquele módulo. Em maio de 2017, ele já participara do curso para o diploma Uefa A, realizado durante pouco mais de um mês em Las Rozas. Depois veio a promoção Uefa Pro de 2017-18, com aulas intensivas e um período de práticas profissionais. O próprio argentino explicou posteriormente que todo o processo de preparação consumiu cerca de dois anos. Entre seus colegas estavam Fernando Redondo, Javier Saviola, Leo Franco, Juan Carlos Valerón, Andoni Iraola e Montse Tomé.

De la Fuente não foi apenas um nome na lista de docentes. A convivência produziu respeito e amizade. Durante a Copa América de 2024, Scaloni recordou que o espanhol dera uma enorme ajuda aos participantes daquele curso e elogiou a maneira como ele se comunicava e conquistava seus jogadores. A resposta inverteu os papéis: De la Fuente chamou o antigo estudante de ‘autêntico mestre’ e destacou sua preparação para conduzir a Argentina às maiores conquistas. Na véspera desta final, o carinho permanece, embora as mensagens e telefonemas devam esperar até o último apito.

Scaloni finca raízes na Espanha 

A ligação de Scaloni com a Espanha, porém, começou muito antes da sala de aula. O argentino passou a maior parte da carreira europeia no país. Viveu seus melhores anos no Deportivo La Coruña, integrante do time que rompeu a hegemonia dos gigantes e conquistou o Campeonato Espanhol de 1999/2000. Também ganhou uma Copa do Rei e duas Supercopas com o clube galego. Depois atuou por Racing Santander e Mallorca, somando 258 jogos em 12 temporadas de La Liga. Sua esposa é espanhola, seus filhos nasceram no país e a família estabeleceu residência em Mallorca.

Quando deixou os gramados em 2015, após a passagem pelo Atalanta, Scaloni ainda estava longe de parecer destinado ao principal cargo do futebol argentino. Trabalhou como auxiliar de Jorge Sampaoli no Sevilla e na seleção, integrou o projeto da equipe sub-20 e recebeu o comando interino da equipe principal depois do fracasso na Copa de 2018. A aposta provisória tornou-se definitiva. Vieram o terceiro lugar na Copa América de 2019, os títulos continentais de 2021 e 2024, a Finalíssima de 2022 e a Copa do Mundo do Catar. O treinador, questionado pela falta de experiência, tornou-se um dos mais vitoriosos da história do país.

Scaloni e Messi
Com Messi, Scaloni tem o que precisa para tentar superar o professor e conquistar pela segunda vez a Copa / Afaseleccion

De la Fuente resiliente 

O caminho de De la Fuente também foi construído degrau por degrau, mas com muito mais dificuldades. Como jogador, o lateral-esquerdo foi bicampeão espanhol, vencedor da Copa do Rei e da Supercopa pelo Athletic Bilbao. Como técnico, começou em 1997 no modesto Portugalete, passou por Aurrerá, categorias de base do Sevilla, equipes juvenis e reservas do Athletic e teve uma experiência curta no Alavés. Somente em 2013 ingressou na Federação Espanhola, onde construiria pacientemente sua reputação.

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Até chegar à seleção principal, De la Fuente venceu o Europeu sub-19 de 2015, os Jogos do Mediterrâneo de 2018 e o Europeu sub-21 de 2019. Na sub-23, entretanto, não foi campeão: ficou com a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Na equipe principal, levantou a Liga das Nações de 2023 e a Eurocopa de 2024. Portanto, acumulou conquistas em praticamente todos os degraus da formação espanhola.

Em 2017, De la Fuente ensinava como organizar uma equipe. Scaloni aprendia a transformar experiência de jogador em conhecimento de treinador. Neste domingo, não haverá quadro, carteira ou apostila. Restará descobrir quem preparou melhor a lição mais importante: o professor que procura sua primeira Copa ou o estudante que tenta levantar a segunda.

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