Um ídolo do futebol que não quer disputar mais uma Copa. Um jornalista polêmico sem papas na língua que desafia um governo autoritário. Um técnico que não larga a imagem de santo Antônio durante as partidas. A minissérie Brasil 70: a Saga do Tri destaca os bastidores e a trajetória da seleção brasileira na conquista do tricampeonato na Copa do Mundo do México, em 1970. Com um elenco vigoroso, a atração mostra em cinco episódios toda a caminhada daquele time que entrou para a história com um futebol ofensivo e vitorioso.

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Em cinco episódios, a obra audiovisual estreou antes do início do Mundial na plataforma Netflix. O triângulo central é interpretado por Rodrigo Santoro como João Saldanha, Bruno Mazzeo como Zagallo e o estreante Lucas Agrícola como Pelé. A minissérie contou com grande produção e foi filmada no Brasil e no México. Com direção-geral de Paulo Morelli, a obra ficcional também aborda a complexidade política que o país atravessava naquele momento. “Não falar de política era algo impossível com a seleção de 1970”, explica o roteirista Felipe Sant’Angelo ao The Football.

Zagallo, interpretado por Bruno Mazzeo, é um dos principais personagens de minissérie “Brasil 70: a Saga do Tri” / Netflix

Além do trio de protagonistas, a obra também aborda episódios de outros personagens daquela equipe. O questionado goleiro Félix (Hugo Haddad), as inovações do então preparador físico Carlos Alberto Parreira (José Beltrão) e a liderança do capitão Carlos Alberto Torres (Caio Cabral) também são abordados ao longo dos cinco episódios da minissérie. Entre os fatos históricos, está a difícil estreia contra a Tchecoslováquia, a vitória contra a forte Inglaterra e até mesmo o temor de encontrar o Uruguai na semifinal, que tinha vencido o Brasil na decisão da Copa de 1970.

Histórias e polêmicas

A obra começa com os bastidores das Eliminatórias Sul-Americanas. João Saldanha monta um time á sua imagem, mas se envolve em diversas polêmicas com os dirigentes da CBD e do próprio país. Quando o general Médici resolve exigir a convocação do atacante Dadá Maravilha, do Atlético Mineiro, o treinador dá uma entrevista de maneira enfática: “Ele escala o ministério, eu escalo o time”.

The Football conversou com Felipe Sant’Angelo, roteirista da minissérie Brasil 70: a Saga do Tri. Confira os principais momentos da entrevista.

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The Football: Como surgiu a ideia de fazer uma minissérie sobre a Copa de 1970?

Felipe Sant’Angelo– A ideia partiu dos roteiristas Naná Xavier e Rafael Dornellas, que são corintianos e vem de famílias apaixonadas por futebol. Eles viram na Copa de 70 um assunto que poderia unir o Brasil nesse momento de polarização, justamente porque foi uma seleção que também nasceu em um contexto semelhante, politizado e polarizado, e conseguiu mobilizar o Brasil na época. Eles apresentaram o projeto para a O2 Filmes, que imediatamente abraçou a ideia com Paulo e Pedro Morelli na direção geral. Eles apresentaram para a Netflix, que por sua vez também abraçou o projeto. Mas impôs uma condição: que o projeto estreasse antes da Copa de 2026. Isso foi em outubro de 2024, e seria um grande desafio, porque a produção era enorme e haveriam certamente muita pós-produção e efeitos. Mas a O2 montou uma estrutura rara e quase maluca: começar a produção junto com a escrita do roteiro. O que é mais ou menos como começar uma obra antes de ler a planta do que será construído. O Paulo Morelli me convidou para coordenar o roteiro.

A obra propõe uma espécie de rivalidade ou conflito entre João Saldanha e Zagallo. Como foi isso? Eles chegaram a se conhecer?

Sim, eles se conheciam, não temos informação se eram próximos, mas também não eram inimigos. No entanto, a discussão de quem era o “autor” daquela seleção permaneceu depois da conquista. O time era do Saldanha ou era do Zagallo? Até hoje muita gente se divide no assunto, e sentimos que aí tinha possibilidade de drama e conflito, o que é substância narrativa fundamental para uma série. Então, trouxemos para os personagens essa rivalidade que talvez não acontecesse de forma tão explícita e direta, mas era dramaticamente algo que representava muito aquela seleção.

Produção se preocupou em abordar trajetória da seleção brasileira na Copa de 1970 nos mínimos detalhes / Netflix

Qual importância teve colocar alguns personagens que só existiram na ficção como os torcedores que vendem o carro para viajar ao México?

Nosso maior interesse em ter torcedores como personagens era mostrar que a Copa não era importante apenas para aqueles jogadores, técnicos e políticos. Era algo vital também para o povo. O Brasil é um país apaixonado por futebol, e essa paixão não é apenas passiva. Ter um casal que ativamente faz escolhas para acompanhar, torcer, sofrer, apoiar, para nós representava essa paixão.

Desde o início a proposta original era dividir a série em cinco episódios?

Não. Essa Copa é muito rica em histórias e personagens, queríamos dar conta de tudo. Acho que o primeiro projeto apresentado pela Naná e Rafa tinha nove episódios. Quando entrei o projeto estava com sete episódios, sendo um com as Eliminatórias e o Saldanha no comando, e os outros seis com a campanha da Copa, um jogo por episódio. Aí apertamos a narrativa para seis episódios, pra já ter Copa do Mundo no episódio piloto. E depois por questões de orçamento.

Um trio de personagens da minissérie: Gérson (Fillipe Soutto), Tostão (Ravel Andrade) e Pelé (Lucas Agrícola) / Netflix

Quando você percebeu que era importante abordar o contexto político da época? Como fazer para que a obra não perdesse o foco no futebol?

Não falar de política era algo impossível com a seleção de 1970. Primeiro porque o Saldanha era um comunista declarado, e um dos grandes conflitos dele no comando da seleção era político – afinal, a CBD que o contratou fazia parte do governo, e o governo era uma Ditadura. O projeto da CBD e do João Havelange eram projetos políticos: Médici gostava de futebol, entendia a sua importância política, e o governo militar queria mostrar a potência do Brasil para o mundo e para os brasileiros. Queria engajar e unir a população, fazendo-os esquecer dos problemas sociais, o autoritarismo, a tortura. Tudo isso aumenta muito a pressão dos jogadores, os esquetes dramáticos e conflitos. E quanto mais drama, quanto mais conflito, mas envolvente a série se torna.

A Copa de 1970 já foi abordada em livros, filmes e documentários. Na sua opinião, qual é o diferencial da minissérie entre as outras produções?

Vejo dois grandes diferenciais. O primeiro, especificamente em relação a tudo o que foi produzido sobre a seleção de 70, é abordar aquelas personagens consagradas como pessoas comuns. Normalmente, a seleção daquela época é apresentada como a melhor de todos os tempos, Pelé é um gênio, um deus, os outros jogadores são todos poderosos e incríveis. A gente escolhe mostrar esses personagens com foco em seus medos e incertezas, com toda a pressão de ter que ganhar uma Copa naquele contexto político, social, de protagonizar o sonho de todo brasileiro. Outro grande diferencial é que o jogo era sempre o clímax narrativo do episódio, os principais conflitos eram construídos e projetados para se resolver em campo. O resultado dá para sentir na tela.

O grande público em geral conhece o final da Copa do Mundo de 1970 com o título do Brasil. Como manter o interesse dos espectadores em uma obra de ficção sobre esse tema?

Acho justamente focando nos conflitos que estavam em jogo. A pressão sobre o Pelé, os desafios da formação do time, o contexto político tenso. Também tentamos destacar semelhanças entre o time da época e o de hoje, mostrar que apesar de conhecermos esses jogadores como consagrados, eles eram jovens, tinham inseguranças, expectativas, entusiasmo, medos, etc. Com isso criamos conexão, identificação e vontade de acompanhar aquelas pessoas nessa trajetória, sem pensar só no fim, mas em toda a jornada.

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