Existe um momento na carreira de todo grande atleta em que o adversário mais difícil deixa de ser o rival do outro lado do campo. O desafio, mais pesado e mais duro de enfrentar, passa a ser o espelho. Neymar chegou exatamente a esse ponto. Está diante de um enigma que apenas ele pode resolver: ainda deseja ser um jogador de futebol em alto nível, disposto aos sacrifícios que essa condição exige, ou prefere transformar os anos finais da carreira numa convivência pouco harmoniosa entre compromisso reduzido e certo diletantismo?
A régua perfeita para medir esse dilema era a Copa do Mundo. Mesmo lutando contra uma contratura muscular que praticamente o inviabilizou como atleta de elite numa competição de excelência absoluta, Neymar fez um enorme esforço para integrar o grupo de Carlo Ancelotti. O desejo de disputar mais um Mundial era legítimo. O problema é que sua participação esteve muito distante da história que construiu e da expectativa de protagonismo que sempre o acompanhou.

Neymar foi quase um figurante da Copa. Atuou apenas alguns minutos contra a Noruega, nas quartas de final, e marcou somente um gol, de pênalti, quando o sonho do hexacampeonato já estava definitivamente soterrado. Foi uma despedida melancólica de quem, durante mais de uma década, carregou nos ombros a esperança de um país inteiro.
Um erro prolongar a carreira
A partir dali, Neymar certamente percebeu algo que talvez nunca tivesse encarado com tanta clareza. Prolongar sua carreira poderá lhe render menos holofotes e muito mais cobranças. Talvez lhe proporcione também menos prazer. É evidente que continuará ganhando muito dinheiro pelo nome que construiu e pela força de sua imagem comercial. Mas o futebol já não parece disposto a lhe oferecer o protagonismo de antes. A aposentadoria deixou de ser uma hipótese distante para se transformar na próxima estação.
Talvez seja exatamente por isso que Neymar esteja reagindo de maneira tão agressiva às críticas. O jogador parece ter decidido partir para o enfrentamento, sem qualquer disposição para compreender quem pensa diferente, como se tivesse esgotado sua reserva de tolerância.

O problema é que Neymar parece não aceitar uma realidade bastante simples. Já não é possível levar uma vida dupla sem consequências: a de atleta profissional submetido ao mais alto nível de cobrança e, ao mesmo tempo, a de um cidadão que deseja desfrutar da vida como qualquer outra pessoa, sem prestar contas a ninguém. Como eu, como você, como qualquer um de nós, reles mortais.
Futebol ou pôquer?
A velha canção de Fagner dizia que “todo homem, guerreiro menino, sabe que sua vida é o trabalho”. Neymar parece discordar dessa ideia. Não se conforma em ser criticado por deixar o Santos lutando por uma vitória na Venezuela enquanto ele se rende ao prazer de disputar um torneio de pôquer. Na visão dele, quem o critica é apenas gente maldosa, preocupada em cuidar da vida alheia. “Otários”, disse ele. Fiscais da vida alheia.
Mas a questão nunca foi o pôquer. Neymar tem todo o direito de viver sua vida privada, gastar seus milhões de reais da maneira que desejar, comprar relógios caríssimos, fazer doações milionárias para vítimas de tragédias ou passar dias inteiros diante de uma mesa de cartas. Isso pertence exclusivamente a ele.
Qual é a sua privacidade?
O que não lhe pertence é o direito de exigir que a opinião pública ignore o contexto em que essas escolhas acontecem. Ele continua sendo uma figura pública. Continua sendo um dos maiores ídolos da história recente do futebol brasileiro. Continua sendo referência para milhares de crianças que sonham repetir seus dribles. E continua sendo um jogador profissional contratado para entregar desempenho, dedicação e liderança.
Por isso, jornalistas, torcedores, observadores e qualquer pessoa que acompanhe futebol têm o mesmo direito de cobrar dele uma postura compatível com o tamanho de sua responsabilidade. Essa cobrança não invade sua privacidade. Apenas estabelece a consequência natural de quem escolheu permanecer sob os refletores.
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Se esse peso se tornou insuportável, talvez a resposta esteja no diante dele. A aposentadoria não representa uma derrota. Pelo contrário. Pode significar a liberdade que Neymar tanto parece procurar. Livre das concentrações, das lesões, dos treinamentos e das expectativas de um país inteiro, poderá finalmente viver como deseja, sem precisar justificar cada viagem, cada festa, cada torneio de pôquer ou cada fotografia publicada nas redes sociais. Enquanto insistir em ser jogador de futebol, porém, continuará sendo julgado como jogador de futebol. E isso faz parte do contrato — escrito ou não — que toda grande estrela assina quando escolhe permanecer em campo.





