O inverno gaúcho anda malcriado. Subtraiu dele o prazer quase carnal de ver o Pelotas tomar um gol. Noite dessas, a neblina se apoderou do planalto do Rio Grande com uma violência tamanha, que Passo Fundo parecia parágrafos de Ensaio Sobre a Cegueira. Como no livro de Saramago, tudo ficou imerso numa penumbra branca e densa. O narrador da Rádio Pelotense lá estava, deu fé, mas ele, com os calos acumulados como torcedor do rival, é paranoico demais para sair festejando alegrias esportivas contadas sob condições hostis ao olho humano. Se amanheceu feliz com a vitória do Gaúcho por 2 a 0, foi só depois de ter lido a súmula redigida pelo juiz.

MAIS CRÔNICAS DO BARCELOS

O El Niño deste 2026 piorou as coisas, mas ele acha tolo quem pensa ser mais macho do que os outros só porque encontra o jardim coberto por geada uns quatro ou cinco dias por ano. O inverno abaixo do Mampituba é suave, um russo andaria de sunga nos julhos de Capão da Canoa, e gente como ele passa frio quando toma banho porque é pobre. No Sul do Brasil, conclui, calefação é luxo de rico, não imperativo de sobrevivência como, por exemplo, na Noruega. Por isso doeu aquela dificuldade de enxergar a defesa do Pelotas sendo vazada. É o tipo de acontecimento que ele aprecia ver com nitidez.

GOL DIGNO DE PÚSKAS ENQUANTO O CÉU CAÍA

Bueno, em que pese a má vontade com o exibicionismo do gaúcho com frios vagabundos, ele, claro, não está totalmente indiferente às falsas grandezas do seu povo. Ficou por demais orgulhoso do seu Xavante, que fez um gol digno de Púskas sob um temporal que, numa cancha dos Estados Unidos, implicaria uns 30 minutos de paralisação do jogo e acomodação dos alecrins dourados em ambiente coberto.

Foi em Venâncio Aires que se deu tudo. O vento veio do Uruguay, furioso, friccionando as nuvens empurradas lá para o alto. Um desses raios estourou na hora que o 9 do Brasil deu um passe em profundidade. Havia chovido e a bola parou na poça. O zagueiro do time da casa até chegou antes, mas o meia xavante, Garré, mesmo franzino, venceu-o no corpo. Ao perceber que o goleiro adversário saía em desespero, deu então uma cavadona, desenhando uma graciosa bochecha na rede deles. Quase 10 dias depois, ele ainda está rouco de tanto celebrar esse feito. Tudo na Segundona gaúcha é uma negociação pela sobrevivência, ok, mas dessa vez o Brasil tinha ido longe demais: o acordo foi firmado com uma natureza boçal, em fúria.

UM SENTIMENTO DE PENA DOS AMERICANOS

É essa bravura que, nele, provoca essa sensação de pertencimento. O inverno gaúcho pode não ser rigoroso como nos exageros de quem o narra, mas é familiar. Diante do mau tempo, pensa enquanto rega a cuia, firma-se a relação de uma gente com o risco, com a vulnerabilidade e com a necessidade de estar fisicamente presente diante daquilo que fazemos.

Quando o mate ronca, experimenta dó dos americanos. Por que se recolhem se um vento mais afoito sopra no horizonte? Será que é porque, longe de casa, conseguem fazer chover fogo, enquanto, no próprio quintal, a chuva ainda cai indócil e eles não sabem como encarar? São questões que vão ficar retumbando nele até que um gol do Brasil ou um gol tomado pelo Pelotas, longe da neblina, volte a lhe tirar a razão.

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