Carlos Miguel vive um momento de instabilidade no Palmeiras. E a falha no último minuto do empate com o Cerro Porteño, na quarta-feira, no Nubank Parque, pela Libertadores, tornou ainda mais difícil a relação do goleiro com uma torcida que já não demonstra a mesma confiança de antes. Não foi um erro qualquer. Carlos Miguel saiu mal, não conseguiu interceptar a bola e viu o Cerro arrancar um empate que parecia improvável. Um lance tão bizarro que o árbitro acabou registrando na súmula que o gol foi marcado como gol contra do arqueiro palmeirense. Para um goleiro que já vinha convivendo com desconfianças, o peso da falha é ainda maior — e vira nitroglicerina nos tribunais de julgamentos desarrazoados da internet.
O problema, agora, não é apenas a falha diante dos paraguaios. É saber até onde ela pode contaminar Carlos Miguel daqui para frente. Porque o goleiro já vinha atravessando uma fase de oscilação. Algumas boas atuações ficaram pelo caminho, mas os erros mais recentes ganharam uma dimensão muito maior. E quando a arquibancada começa a esperar o erro, qualquer bola mal encaixada, qualquer saída mais hesitante ou qualquer decisão equivocada passa a alimentar uma história que parece estar pronta antes mesmo de a partida começar.

É esse o drama de Carlos Miguel. Ele não está apenas tentando defender o gol do Palmeiras. Está tentando recuperar a confiança de uma torcida que ainda não o incorporou à história do clube e que, em parte, jamais esqueceu sua passagem pelo Corinthians e o episódio daquele vídeo em que aparecia cantando uma provocação ao Palmeiras, entoando a plenos pulmões o refrão que fez qualquer palmeirense sair do prumo. “O Palmeiras não tem Mundial, o Palmeiras não tem Mundial…”
Associação com o passado
Tudo isso voltou à tona depois do empate com o Cerro. Mas seria injusto transformar Carlos Miguel em um goleiro definido só por uma sequência de erros. O futebol não funciona assim. Pelo menos não deveria. O próprio Palmeiras tem motivos para acreditar que existe um goleiro capaz de entregar mais do que aquilo que vem apresentando nas últimas partidas. Carlos Miguel já teve momentos importantes desde que assumiu a posição. Defendeu pênalti na decisão contra o Novorizontino, participou da campanha do título paulista e teve atuações em que transmitiu aquilo que se espera de quem ocupa uma posição tão delicada: segurança.
O problema é que Carlos Miguel não desperta unanimidade e sempre paira no ar a suspeita de que ele não é o cara certo no lugar certo. A diferença entre um goleiro que atravessa uma má fase e outro que entra em crise pode estar em um detalhe quase invisível: a maneira como ele reage à próxima bola depois de cometer um erro. Esse é o cenário que só faz aumentar a pressão.

Depois de uma falha como a do Cerro, o goleiro terá de voltar ao gol sabendo que cada saída será observada com lupa. Se bater roupa numa bola simples, haverá comentários. Quando errar um passe, haverá vaias. Se hesitar numa saída, alguém lembrará do gol sofrido no jogo anterior. Vida de goleiro é uma roleta russa constante. Por isso, a decisão de Abel Ferreira e dos jogadores do Palmeiras de blindar o goleiro faz sentido. Não significa passar a mão na cabeça de Carlos Miguel nem fingir que nada aconteceu. Significa entender que transformar uma falha em perseguição pode produzir um problema muito maior.
A torcida tem direito de cobrar
A torcida tem todo o direito de cobrar Carlos Miguel. O Palmeiras não pode tratar como normal uma sucessão de erros que comprometa seus resultados. Mas também não pode transformar o goleiro em um inimigo interno, tratá-lo como se fosse “um corintiano infiltrado”, como querem fazer parecer posts e memes maldosos que pipocaram na internet. Até porque a temporada não permite esse tipo de luxo. O Palmeiras está nas oitavas de final da Libertadores, terá de decidir a classificação no Paraguai e precisa de todos os seus jogadores em condições de suportar a pressão de um mata-mata. Carlos Miguel, goste-se ou não, é parte dessa equação.
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Todo goleiro erra. Os grandes também. A diferença está no que fazem depois. Carlos Miguel precisa provar que ainda consegue ser o goleiro que o Palmeiras imaginou quando decidiu colocá-lo no lugar de Weverton. Certa ou errada, essa foi uma decisão do passado e não pode mais alimentar um debate improducente. Porque os ídolos do passado não fazem mais parte deste tempo.





