Lionel Messi encerra uma parte de sua história nos gramados que pode ser escrita com números definitivos. Pela seleção argentina, não haverá mais partidas, gols, Copas do Mundo ou capítulos a acrescentar. A aposentadoria internacional anunciada nesta segunda-feira, aos 39 anos, encerra uma trajetória de 207 jogos e 125 gols, coroada pelo título mundial de 2022 e pelas conquistas das Copas América de 2021 e 2024. O curioso é que o fim de Messi na Argentina chega quando o jogador de clube se recusa a oferecer sinais claros de que também esteja próximo do ponto final.
Dois dias antes do anúncio, Messi marcou quatro gols e deu uma assistência na goleada do Inter Miami por 7 a 1 sobre o Montreal. Foi seu primeiro jogo de quatro gols na temporada regular da MLS. Aos 39 anos, passou de perseguidor a líder da artilharia da competição: chegou a 18 gols em 19 partidas, além de dez assistências. É essa contradição que abre uma nova fase da carreira.

Messi em três clubes na carreira
Messi não precisa mais administrar viagens para defender a Argentina. Não precisa planejar o corpo pensando em eliminatórias, amistosos ou outro Mundial. Pela primeira vez desde que se tornou jogador profissional, toda a energia competitiva pode ser concentrada em um clube. E há números grandes esperando por ele. O primeiro está à porta: 100 gols pelo Inter Miami. Faltam apenas dois. O segundo está muito mais distante, mas deixou de parecer completamente absurdo: 1.000 gols na carreira. Messi tem 927. Faltam 73. E, agora, todos terão de ser marcados por um clube.
Há algo incomum até nisso. Em mais de duas décadas no futebol profissional, Messi precisou de apenas três clubes para chegar aos atuais 802 gols por equipes. O Barcelona foi muito mais do que o primeiro deles. Foi onde praticamente todos os parâmetros usados para medir sua grandeza foram estabelecidos. Segundo os registros oficiais do clube catalão, Messi encerrou sua passagem com 778 partidas, 672 gols, 305 assistências e 35 títulos. É o maior artilheiro da história do Barcelona, o jogador com mais partidas oficiais e também aquele que mais vezes levantou troféus pelo clube.
Ali também nasceram alguns daqueles números que parecem deslocados de uma carreira normal: os 91 gols no ano de 2012, os 50 em uma única edição do Campeonato Espanhol e os 474 gols acumulados em LaLiga, maior artilheiro na história da competição. Barcelona foi a construção do fenômeno estatístico. Paris foi uma espécie de intervalo. A passagem pelo PSG nunca atingiu a mesma dimensão esportiva ou emocional. Ainda assim, Messi fez 32 gols em 74 partidas, distribuiu 35 assistências segundo o próprio clube francês e conquistou duas edições da Ligue 1 e um Troféu dos Campeões.

Miami deixa de ser aposentadoria antecipada
Quando Messi chegou aos Estados Unidos, em julho de 2023, havia uma pergunta inevitável: quanto ainda sobrava do jogador que dominara o futebol europeu? Quase três anos depois, talvez seja necessário inverter a pergunta. Quanto ainda falta sair dele? Os números fornecidos impressionam menos pelo volume do que pela continuidade da produção. Em 2023, foram 11 gols em 14 partidas. Em 2024, 23 em 25. Em 2025, 43 em 49. Nesta temporada, são 21 em 23 jogos por todas as competições. Ou seja: não existe, até aqui, uma linha descendente de produção ofensiva compatível com a idade.
Os dados produzem uma comparação interessante. Na última temporada pelo Barcelona, 2020/21, Messi fez 38 gols em 4.193 minutos, cerca de um gol a cada 110 minutos. Em 2026, marca próximo de a cada 93. Entretanto, não se pode transformar isso em uma comparação direta de desempenho. São equipes, países, adversários e contextos competitivos completamente diferentes. Mas o recorte serve para demonstrar algo importante: a frequência de gols não desapareceu com a idade.
Na realidade, Miami produziu uma segunda juventude estatística. Em 2025, Messi marcou 29 gols somente na temporada regular da MLS e terminou com 19 assistências oficiais. Foram 48 participações em gols em 28 partidas, apenas uma abaixo do recorde histórico de Carlos Vela, que registrou 49 em 2019. Se considerar todas as competições, o astro fez 43 gols em 49 jogos no ano passado. O Inter Miami registrou ainda 74 participações diretas em gols — 43 marcados e 31 assistências — pelo critério utilizado pelo clube.
É por isso que os 1.000 gols passaram de curiosidade matemática para possibilidade esportiva. O número de 927 gols na carreira é distribuído da seguinte forma: São 672 gols pelo Barcelona, 32 pelo PSG, 98 pelo Inter Miami e 125 pela Argentina. A Seleção Argentina não ajudará mais. O desafio está congelado em 73 gols. É muito para qualquer jogador de 39 anos. Seria imprudente tratar a marca como inevitável. Mas também ficou difícil classificá-la como fantasiosa. Somente em 2025, Messi marcou 43 gols pelo clube. Nesta temporada já soma outros 21. E existe uma variável decisiva: seu contrato com o Inter Miami vai até o fim da temporada de 2028.
Se cumprir o vínculo, Messi terá 41 anos durante a última temporada. É por isso que o 1.000 gols depende menos daquilo que seus pés conseguem fazer — eles continuam demonstrando que conseguem bastante — do que da quantidade de futebol que seu corpo e sua vontade ainda aceitam jogar. Não existe uma data de aposentadoria anunciada.

Antes dos 1.000 gols, os 100 gols estão logo ali
Muito antes de qualquer discussão sobre quatro dígitos, Messi deve alcançar uma marca simbólica pelo Inter Miami. Com 98 gols, precisa de somente dois para tornar o clube americano o segundo de sua carreira no qual chega à centena. É um número especialmente significativo pela velocidade. Messi terminou 2025 já como maior goleador e maior assistente da curta história da franquia. Naquela altura, contabilizava 77 gols e 53 assistências em 88 partidas segundo o próprio Inter Miami.
A temporada de 2026 acrescentou mais 21 gols até aqui. A dimensão da transformação do clube pode ser medida justamente por isso. Messi chegou a uma equipe fundada em 2018 e que havia estreado na MLS apenas em 2020. Em três anos, participou da construção de quase toda primeira coleção de grandes conquistas da franquia. Leagues Cup em 2023. Supporters’ Shield em 2024. MLS Cup em 2025.
O último deles foi especialmente relevante porque ampliou para 47 o número de troféus conquistados por Messi por clubes e seleção, marca apontada pela própria MLS como recorde mundial. Portanto, há outra contagem silenciosa em curso. Os 50 títulos. Faltam três. Com contrato até 2028, também não é uma hipótese extravagante.
A MLS virou território para novos recordes
Existe ainda uma diferença fundamental entre o desafio nos Estados Unidos e tudo aquilo que Messi viveu no Barcelona. Na Catalunha, ele deixou marcas que levarão décadas para serem alcançadas. Nos Estados Unidos, está perseguindo marcas que ainda podem ser quebradas por ele mesmo. O desempenho contra o Montreal é um bom exemplo. Com os quatro gols, Messi tornou-se o jogador que chegou mais rapidamente a 20 partidas com pelo menos dois gols na história da temporada regular da MLS. Precisou de apenas 72 jogos.
Poucos meses antes, já havia se tornado também o jogador mais rápido a chegar a 100 participações em gols na competição. Agora existem pelo menos três desafios imediatos. O primeiro é repetir a artilharia. Messi conquistou a Chuteira de Ouro em 2025 com 29 gols. Nenhum jogador da história da MLS ganhou o prêmio de maneira isolada em duas temporadas consecutivas. Em 2026, ele lidera novamente: são 18 gols, contra 16 de Petar Musa.
O segundo é o recorde de gols em uma única temporada. Carlos Vela marcou 34 pelo Los Angeles FC em 2019. Continua sendo o teto da competição. Messi precisa chegar a 35. Partindo dos atuais 18, faltam 17. A meta é difícil. Mas 2025 oferece um lembrete: ele terminou aquela temporada com 29. O terceiro alvo é ainda mais interessante porque Messi já chegou muito perto. Vela também possui o recorde de participações diretas em gols numa temporada regular: 49, com 34 gols e 15 assistências em 2019. Messi terminou 2025 com 48. Perdeu o recorde por uma. Nesta temporada está novamente na perseguição, com 18 gols e dez assistências segundo a MLS: 28 participações.

Terceiro MVP no páreo
Talvez a marca menos intuitiva de todas seja a relacionada ao prêmio de melhor jogador da MLS. Messi foi eleito MVP em 2024. Repetiu em 2025. Ninguém havia conseguido duas premiações consecutivas antes dele. A atuação contra o Montreal voltou a colocá-lo com força na discussão de 2026. A própria MLS já apresenta a possibilidade de um terceiro MVP consecutivo, algo que estenderia um recorde que pertence somente a ele. É uma corrida interessante porque ajuda a desfazer outra impressão criada pela mudança para os Estados Unidos.
Messi não está apenas acumulando gols em uma liga menos exigente que o futebol europeu. Ele está competindo contra a própria história da competição. Foi artilheiro. Foi MVP duas vezes. Foi campeão da MLS Cup. Quebrou o recorde de participações em gols numa pós-temporada, com 15 — seis gols e nove assistências — em 2025. E, aos 39 anos, lidera novamente a corrida pela Chuteira de Ouro.
Recordista corre contra o relógio
Messi já não tem muitos espaços vazios no currículo. São oito Bolas de Ouro. Seis Chuteiras de Ouro europeias. 47 títulos. Uma Copa do Mundo. Duas Copas América. Quatro Champions. Dez Campeonatos Espanhóis. 672 gols pelo Barcelona. 91 em um único ano. 474 em LaLiga. No fim de 2025, chegou também a 405 assistências na carreira, número tratado pelo Inter Miami e pela MLS como recorde histórico do futebol. É quase impossível encontrar alguma conquista essencial que falte.

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Por isso, a reta final muda de natureza. Não é mais uma busca por legitimação. É uma corrida para descobrir até onde os números podem ser empurrados antes que o corpo diga basta.





