O avião que nasceu como uma solução logística para o Palmeiras ganhou uma dimensão maior no futebol brasileiro nesta temporada. O Embraer E190-E2 de matrícula PS-LMP, operado pela Placar Linhas Aéreas, empresa ligada à presidente do Palmeiras, Leila Pereira, passou a ser utilizado também por outros clubes. A intenção sempre foi essa, mesmo que Leila tenha de enfrentar a resistência de alguns presidentes desafetos. Em 2026, há registros de viagens envolvendo Vasco, Fluminense, Atlético-MG e Mirassol, entre outros, transformando a aeronave em uma espécie de avião do futebol brasileiro. A companhia tem duas aeronaves e está autorizada a voar por todo o território nacional e países da América do Sul.

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A mudança de perfil aconteceu depois que a Placar recebeu autorização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), em agosto do ano passado, para realizar voos comerciais não regulares. A empresa passou, então, a oferecer as aeronaves para fretamentos. O Palmeiras continua sendo um dos principais usuários, mas deixou de ser o único. No jogo contra o Mirassol, pelo Brasileirão, por exemplo, o time foi de ônibus e voltou com o avião da empresa.

Avião do Palmeiras?

O modelo de negócio permite que outras equipes contratem a aeronave para transportar suas delegações, mediante pagamento ou, em alguns casos, cessão. O chamado “avião do Palmeiras” não tem as cores do clube estampadas por fora. É uma aeronave comercial, com capacidade para 98 passageiros.

Leila Pereira, presidente da Crefica e do Palmeiras, é dona da empresa de aviação Placar Linhas Aéreas / Placar

Negócio no Brasil cresce

O negócio está inserido em um mercado que movimenta bilhões de reais. As companhias aéreas brasileiras registraram lucro líquido de R$ 4,3 bilhões em 2025, segundo o Anuário do Transporte Aéreo da Anac. As empresas também reduziram a participação do combustível nos custos, de 30,6% para 29,4%. Latam, Gol e Azul lideram o mercado, enquanto a Placar Linhas Aéreas atua em um segmento mais específico, voltado ao fretamento. A companhia é uma S.A. de Capital Fechado. Pela legislação das Sociedades Anônimas, companhias fechadas com faturamento bruto anual inferior a R$ 78 milhões são dispensadas da divulgação dos balanços em jornais de grande circulação ou Diários Oficiais.

Placar tem duas aeronaves

O Mirassol é um dos clubes que mais se aproximaram da operação da companhia de Leila. A equipe passou a utilizar a aeronave em deslocamentos considerados mais desgastantes. No jogo contra o Flamengo, no Maracanã, o avião levou a delegação para o Rio de Janeiro. Em 9 de agosto, às 14h07, o Embraer E190-E2 de matrícula PS-YVL, também da Placar, foi registrado em uma decolagem do Aeroporto Professor Eribelto Manoel Reino, em São José do Rio Preto. Naquele mesmo dia, o Mirassol enfrentou o Cruzeiro em Minas Gerais, enquanto o Palmeiras jogou contra o Internacional em São Paulo. Os registros de voo mostram como as aeronaves passaram a fazer parte da logística de diferentes equipes durante uma temporada cada vez mais apertada.

Leila Pereira abriu a Placar Linhas Aéreas em 2022 e já tem duas aeronaves: fretamento é o seu negócio / Divulgação

Em 30 de agosto, por exemplo, o PS-LMP deixou Sorocaba às 22h14 e pousou em São José do Rio Preto às 23h02. Naquele domingo, Palmeiras e Mirassol se enfrentaram no Maião. Para os jogadores do Palmeiras, o uso do avião da presidente já virou rotina. O Mirassol também viajou com uma aeronave da Placar para Porto Alegre, onde enfrentou o Grêmio pela Copa do Brasil. O moderno E190-E2, matrícula PS-YVL, decolou de Rio Preto levando a delegação para o compromisso. O time acabou eliminado. O episódio reforçou uma característica desse tipo de operação: ganhar horas de descanso pode ser tão importante quanto ganhar quilômetros na estrada.

Preço médio de um fretamento

O preço de um avião fretado depende da distância, do aeroporto, do tempo de permanência e das condições da operação. No mercado, um voo de São Paulo ao Rio de Janeiro pode chegar a cerca de R$ 150 mil ida e volta. Uma operação para um jogo internacional, como na Libertadores, pode alcançar R$ 700 mil, enquanto a média de uma viagem nacional mais longa de clube fica na casa dos R$ 350 mil. São valores de referência e sujeitos a negociação. É nesse mercado que Leila está de olho desde 2022. A empresa não comenta seus negócios, mas a operação da Placar funciona como uma alternativa para clubes que precisam ganhar tempo entre partidas e reduzir o desgaste provocado pelos deslocamentos. A Placar junta oferta e necessidade. Todos os clubes precisam voar durante a temporada. Leila deu uma opção para eles.

No mês passado, o Vasco se valeu da companhia da presidente do Palmeiras. Uma das aeronaves da empresa foi cedida ao clube carioca, situação que provocou questionamentos no futebol do Rio e passou a ser explorada pelo Flamengo nas críticas à relação entre Vasco, Palmeiras e empresas ligadas a Leila e ao marido, José Roberto Lamacchia. A cessão, por si só, não significa irregularidade. Também não há regra no futebol brasileiro que proíba esse tipo de parceria.

Sub-20 do Palmeiras

Mas a situação ganhou peso político porque envolve clubes concorrentes que caminham para uma gestão familiar. Marcos Lamacchia, enteado de Leila, vai comprar a SAF do Vasco. Os registros de voo do PS-LMP mostram ainda movimentações que coincidem com o calendário das equipes. Em 24 de agosto, por exemplo, a aeronave aparece fazendo a sequência Guarulhos–Galeão e, pouco depois, Galeão–Sorocaba. O registro aeronáutico comprova a movimentação do avião, mas não permite afirmar quem estava a bordo.

No passado, a aeronave da Placar chegou a apresentar problemas durante uma viagem internacional do Palmeiras, obrigando a delegação a encontrar outra maneira de voltar para casa, com os custos bancados pela própria Leila. Hoje, porém, a empresa tenta transformar a experiência acumulada em negócio. Mais recentemente, o Palmeiras levou sua equipe sub-20 para uma decisão no Rio no avião da companhia. Foi e voltou no mesmo equipamento e ganhou o jogo por 1 a 0, com gol de Belé.

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A Placar nasceu para atender o Palmeiras, mas começa a ganhar vida própria. Em dezembro de 2027, o mandato de Leila no clube chega ao fim. O avião, porém, vai continuar voando. Talvez essa seja a maior mudança: o PS-LMP já não é apenas o avião de Leila ou do Palmeiras. Ele começa a se transformar em um ativo comercial do futebol brasileiro, em um momento em que os clubes precisam viajar mais, descansar mais, gastar menos e jogar mais. A empresa da presidente palmeirense descobriu que pode ganhar dinheiro transportando o próprio futebol.

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