Menos de nove meses separam duas imagens de Filipe Luís diante do Paris Saint-Germain. Na primeira, o treinador deixou o Catar depois de ver o Flamengo levar o melhor time da Europa até os pênaltis, mas o sonho de conquistar o mundo parou nas quatro defesas do goleiro russo Matvey Safonov. Na segunda, que começa a ser construída nesta sexta-feira, às 16h05 (horário de Brasília), no Parque dos Príncipes, o brasileiro estará diante do que pode ser considerado o primeiro grande teste de sua primeira aventura como treinador no futebol europeu.

Mais sobre Filipe Luís

O cenário também é diferente. Filipe chega como treinador do Monaco, líder isolado do Campeonato Francês, com seis pontos e 100% de aproveitamento, com vitórias sobre Le Havre, por 1 a 0, como visitante, e Olympique Marselha, por 2 a 0, em casa. O PSG, pentacampeão nacional consecutivo e bicampeão da Liga dos Campeões, soma apenas dois depois de empates por 2 a 2 com Rennes e Lille, ambos longe de Paris. É cedo demais para falar em ameaça à hegemonia parisiense. Mas não para perguntar até onde pode chegar o bom começo do brasileiro.

Filipe Luís no treino do Monaco
Treinador brasileiro Filipe Luís começa a sua trajetória no Monaco com quatro vitórias seguidas em jogos oficiais / Monaco

Nos passos de Arsène Wenger

Filipe Luís não foge do tamanho do desafio. “É um privilégio jogar contra a melhor equipe do mundo” afirmou o treinador, que avisou também: “Eu sempre luto para ganhar, não para empatar”, completou. É isso que transforma PSG x Monaco em algo maior do que um encontro entre primeiro e 11º colocados depois de apenas duas rodadas.

Em seu início, Filipe Luís ainda não perdeu nem empatou partidas oficiais na França. São quatro vitórias em quatro jogos. Antes dos triunfos sobre Le Havre e Olympique Marselha pelo Campeonato Francês, o Monaco venceu os dois jogos que disputou pela fase preliminar da Conference League: 3 a 2 sobre o polonês Górnik Zabrze, na ida, e 4 a 1 na volta. Uma largada perfeita que o clube do Principado não conseguia desde a temporada 1991/92, quando era comandado por Arsène Wenger.

Naquele ano, o Monaco terminou o Francês na segunda colocação e ainda alcançou duas finais: a da Recopa Europeia e a da Copa da França. Trinta e cinco anos depois, a comparação ainda deve ficar restrita ao início da caminhada. Mas ajuda a colocar em perspectiva o impacto imediato provocado pelo brasileiro.

De aposta à realidade

Com esse cenário, é agora que a régua sobe. Depois de vencer o Marselha, Filipe Luís sai pela primeira vez no Francês da posição de treinador que tenta implantar suas ideias para enfrentar a equipe que estabelece o parâmetro da competição. Não apenas porque o PSG conquistou os últimos cinco títulos nacionais e chegou a 14 troféus franceses, mas porque levou sua supremacia para fora do país e tornou-se, em maio, apenas o segundo clube a conquistar duas Champions consecutivas na era moderna do torneio.

O respeito de Filipe por Luis Enrique chega perto da reverência. Chamou o espanhol de “melhor treinador do mundo” e o colocou entre os grandes nomes da história. Admiração, porém, não significa submissão. O próprio brasileiro ressaltou que os dois empates do PSG não alteram a dimensão do rival. Ao mesmo tempo, enxerga brechas. Para ele, a capacidade parisiense de reagir depois de ficar em desvantagem mostra a força mental do time, mas não elimina a possibilidade de explorar erros.

Luis Enrique conhece o perigo

O respeito atravessa o campo. Luis Enrique conhece Filipe Luís além das quatro partidas pelo Monaco. Precisou estudar seu Flamengo para a decisão da Copa Intercontinental de dezembro passado. O PSG abriu o placar com Kvaratskhelia, sofreu o empate de Jorginho e só conquistou o título depois do 1 a 1 e da vitória por 2 a 1 nos pênaltis. Safonov defendeu quatro cobranças brasileiras. Agora, o espanhol reencontra o brasileiro instalado no futebol europeu. “Gosto de técnicos corajosos e que amam jogar futebol”, elogiou Luis Enrique. Ao lembrar da notícia da contratação pelo Monaco, completou, bem-humorado: “Droga”.

Não foi apenas gentileza de véspera de jogo. Ao analisar o rival, o comandante parisiense destacou um treinador que não tem medo de assumir riscos para tornar sua equipe difícil de enfrentar. É aí que está o melhor ingrediente do jogo. O desafio de Filipe Luís não será provar que sabe montar uma retranca capaz de sobreviver ao PSG. Com o Flamengo, ele armou bem a equipe que mostrou no Catar que seu treinador consegue competir contra o time de Luis Enrique. A questão agora é outra: saber quanto das ideias que começam a aparecer no Monaco resiste quando o nível de dificuldade chega ao máximo.

Luis Enrique e o presidente do PSG, Nasser Al-Khelaïfi, catariano
Em julho de 2023, o técnico Luis Enrique foi apresentado no PSG pelo presidente do clube, o catari Nasser Al-Khelaifi / PSG

Zebra incômoda

Há ainda uma memória incômoda para o campeão. Na temporada passada, o Monaco derrotou o PSG nos jogos duelos pelo Campeonato Francês: 1 a 0 no Louis II e 3 a 1 no Parque dos Príncipes. Foi apenas a segunda vez desde a compra do PSG pelo fundo de investimentos Qatar Sports Investments (QSI), em 2011, que o clube conseguiu vencer os dois confrontos de um mesmo campeonato contra os parisienses.

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Uma vitória nesta sexta-feira levaria o Monaco a nove pontos e manteria o PSG em dois. Sete pontos de distância depois de três rodadas não derrubariam uma dinastia construída durante anos. Muito menos transformariam Filipe Luís em candidato ao título. Mas mudariam a dimensão de sua chegada à França. Até aqui, o brasileiro começou muito bem. Contra o PSG, começa a descobrir o que esse início significa.

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