São Paulo e Corinthians chegarão ao fim de 2026 diante de uma pergunta que vai muito além de quem será o próximo presidente. Os dois maiores clubes paulistas precisam decidir que modelo de administração querem para os próximos anos. É preciso olhar mais longe do que a ponta do nariz. Não basta trocar o nome na cadeira. É preciso mudar a maneira de fazer política, administrar dinheiro, prestar contas e se relacionar com o torcedor e seus pares dentro do Morumbi e Parque São Jorge, respectivamente. Esses dois clubes fazem gestão péssima e irresponsável, traem seus seguidores e fracassam no futebol.

Mais sobre o Corinthians

No Corinthians, a eleição está marcada para 28 de novembro, no Ginásio Wlamir Marques, das 9h às 17h. O cenário é conhecido do corintiano. Ali, muitas farpas já foram trocadas e dirigentes festejaram suas eleições, mas nenhum deles arrumou o clube que prometeu. O pleito escolherá o presidente e os dois vice-presidentes para o triênio 2027-2029, além de 200 conselheiros. A data ainda pode ser alterada caso o Corinthians chegue à final da Libertadores, marcada para o mesmo dia. Os últimos presidentes do clube foram um fiasco e saíram da cadeira pela porta dos fundos, escorraçados, acusados e devendo.

Últimos presidentes deixaram o Corinthians pela porta dos fundos, cobrados, escorraçados e devendo / Corinthians

O tamanho do problema corintiano aparece também nos números. O clube terminou 2025 com déficit de R$ 143,4 milhões e uma dívida bruta de R$ 2,7 bilhões. Nos primeiros seis meses de 2026, o déficit chegou a R$ 246 milhões, enquanto a dívida total alcançou R$ 2,8 bilhões. É um cenário que exige mais do que discurso de campanha e promessas de arrecadação: exige um projeto de recuperação financeira sólido, transparência e profissionalização. Tudo o que o Corinthians não teve na última década. O clube tem de baixar as suas portas e repensar a sua gestão, mesmo que para isso tenha de apertar o cinto por três ou quatro temporadas. O clube sofre transfer ban da Fifa de R$ 21,5 milhões.

Tudo errado no Parque

O Corinthians também chega à eleição depois de um período de extrema turbulência política, que incluiu o afastamento e o impeachment de Augusto Melo, disputas internas e discussões sobre a reforma do estatuto, cartões de créditos usados de forma irregular por seus dirigentes e uma dívida que só cresce. O clube teve títulos importantes em campo, mas a instabilidade administrativa tornou-se um problema tão grande quanto os resultados esportivos. O Corinthians deve na praça e tenta negociar uma SAF sem ter a menor certeza de que ela dará certo. É bonita no papel, mas pouco eficiente nas finanças.

Mais sobre o São Paulo

No São Paulo, do outro lado da cidade, o problema é do mesmo tamanho. A eleição ocorrerá no fim deste ano, para definir o presidente que comandará o clube no triênio 2027-2029. Julio Casares havia sido reeleito para o mandato 2024-2026, mas deixou a presidência no início deste ano carregado em acusações. Ele tenta se defender. Harry Massis passou a comandar o clube interinamente. O São Paulo andou para trás. Quando muito, permaneceu no mesmo lugar.

São Paulo não faz mais jus à história que construiu em décadas passadas e se perdeu dentro do próprio Morumbi / SPFC

O São Paulo apresenta uma situação financeira diferente da do Corinthians. O balanço de 2025 mostrou superávit de R$ 56,8 milhões e receita próxima de R$ 1 bilhão. A dívida também caiu em relação ao ano anterior. Mas números positivos em um balanço não significam que todos os problemas estejam resolvidos. A crise política e os conflitos internos mostram que o clube precisa discutir profundamente seu modelo de gestão. A desconfiança é de que todos os corredores do Morumbi estão contaminados.

Qual modelo de presidente?

O primeiro requisito deveria parecer óbvio, mas não é: honestidade. O próximo presidente precisa entender que o dinheiro do clube não pertence ao presidente, ao grupo político que ele pertence ou ao conselho. Pertence à instituição. Cada real movimentado precisa ter justificativa, documentação e transparência.

O segundo ponto é a prestação de contas permanente. Não deveria ser necessário esperar o balanço anual para descobrir como o dinheiro está sendo gasto. O torcedor deveria ter acesso, de forma clara e periódica, às receitas, despesas, dívidas, contratos relevantes, pagamentos de comissões, gastos com futebol e compromissos futuros. Uma boa administração precisa romper com a cultura de contratos pouco transparentes, decisões tomadas por pequenos grupos e distribuição de cargos por relações políticas. São clubes gigantes demais para serem administrados como associações fechadas, nas quais meia dúzia de pessoas decide o futuro de milhões de torcedores. São Paulo e Corinthians não são departamentos de Bocha.

Onde entra o torcedor?

Um presidente precisa respeitar o torcedor. Isso significa entender que o torcedor não é apenas consumidor de ingresso, de camisa ou pay-per-view. Ele é parte fundamental do patrimônio do clube. Deve receber informação, ter canais de participação e ser tratado com respeito, principalmente nos momentos de crise. A imprensa faz esse trabalho. Isso é importante. Não basta ser um apaixonado pelo clube. São Paulo e Corinthians não precisam de presidentes que saibam montar uma escalação nem de passado nas arquibancadas. Precisam de gestores capazes de montar uma organização. Gente inteligente e honesta.

O presidente eleito deveria ter conhecimento financeiro, capacidade de negociação, experiência administrativa, independência política e disposição para contratar profissionais qualificados. Deveria ter salário para não ser acusado de ladrão do dinheiro do clube. O futebol profissional não pode ser conduzido pela lógica de amizade ou de fidelidade a grupos internos, talvez o maior pecado desses cartolas. O dirigente tem de saber dizer “não”. Não para uma contratação irresponsável. Ao gasto sem previsão de receita. Não ao contrato mal explicado. À pressão de conselheiros e aos pedidos de favores, até de camisas do time. Não à torcida organizada que tentar interferir em decisões administrativas. E, principalmente, não aos velhos métodos que ajudaram a produzir os problemas atuais.

Torcedor deveria olhar para outra coisa

Na próxima eleição, São Paulo e Corinthians deveriam discutir menos quem é o candidato e mais qual é o projeto. Qual será a dívida ao fim do mandato? Quanto será investido no futebol? Quanto será gasto com salários? Qual será o limite para contratação de jogadores e sobre as economias? Como serão escolhidos os executivos? Haverá auditoria independente? Os contratos serão publicados? Haverá metas financeiras anuais? Qual será o plano para estádio, categorias de base, futebol feminino e patrimônio? E ser cobrado depois por cada resposta dada a essas demandas. Essas perguntas e respostas são muito mais importantes do que saber qual candidato tem mais conselheiros, qual grupo político está apoiando quem ou qual jogador apareceu ao lado de determinada chapa.

Eleição que pode mudar os clubes

São Paulo e Corinthians ainda têm algo que poucos clubes do futebol brasileiro possuem: marca, torcida, estádio, história, capacidade de geração de receita e enorme potencial comercial. O problema é transformar esse patrimônio em gestão eficiente, receitas e conquistas dentro de campo. Por isso, as eleições de 2026 podem representar uma oportunidade histórica. Não apenas para trocar presidentes e enterrar o passado, mas para discutir se dois dos maiores clubes do país continuarão presos a estruturas políticas criadas décadas atrás ou se terão coragem de construir uma administração compatível com o futebol moderno.

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O torcedor não deveria procurar o presidente que promete contratar o melhor jogador. Deveria procurar aquele que promete entregar o melhor clube. E essa talvez seja a pergunta que São Paulo e Corinthians deveriam fazer aos seus candidatos: “Quando seu mandato terminar, você vai deixar um time melhor ou uma instituição melhor?”

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