O técnico Abel Ferreira, 47 anos, escolheu uma comparação curiosa para explicar por que, em sua visão, o Flamengo carrega obrigação maior do que o Palmeiras na disputa pelos principais títulos da temporada. Depois do empate sem gols com o Botafogo, neste domingo, no estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro, e da perda da liderança do Campeonato Brasileiro, o português pediu que se comparasse “onde é que treinou o treinador do Palmeiras e onde é que treinou o treinador que está no Flamengo”, disse, no começo de uma série de repetidas lamúrias.

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A declaração surgiu no mesmo discurso em que voltou a apontar diferenças de investimento entre os rivais. A frase é verdadeira naquilo que pretende sugerir: Leonardo Jardim, 52 anos, chegou ao Brasil com currículo muito mais extenso e prestigiado do que Abel tinha quando desembarcou em São Paulo, em novembro de 2020. Mas é  aí que o argumento começa a ficar desconfortável para o treinador palmeirense.

Abel Ferreira à beira do campo no duelo com o Botafogo
Com 11 títulos com o Palmeiras, recorde no clube, Abel Ferreira está perto de completar seis anos no comando / Palmeiras

Trajetória distintas

Quase seis anos depois, usar a diferença entre os pontos de partida para relativizar a cobrança do presente significa ignorar tudo o que o próprio Abel construiu no caminho. Quando assumiu a equipe principal do Braga, em Portugal, em 2017, Abel tinha passado pelas categorias de base e pelos times B de Sporting e do próprio Braga.

À frente de equipes profissionais principais, sua experiência se resumia ao Braga e, depois, ao PAOK, da Grécia. Fez trabalhos que o credenciaram a dar passos adiante — levou o Braga a duas quartas colocações consecutivas em Portugal e foi vice-campeão grego com o PAOK —, mas chegou ao Palmeiras sem qualquer título como treinador de uma equipe principal.

Leonardo Jardim percorreu um caminho mais longo. Começou como técnico principal do Camacha ainda em 2003. Passou por Chaves, Beira-Mar e Braga, dirigiu Olympiacos e Sporting e atingiu o ponto mais alto de sua carreira europeia no Monaco. Na temporada 2016/17, conquistou o Campeonato Francês diante do milionário Paris Saint-Germain e levou uma equipe recheada de jovens talentos até a semifinal da Liga dos Campeões. Kylian Mbappé, Bernardo Silva, Fabinho e Thomas Lemar estavam naquele elenco.

Depois, Jardim ainda levou o Al-Hilal ao título da Liga dos Campeões da Ásia de 2021, tornando-se o primeiro treinador português campeão do torneio, conquistou a Supercopa Saudita e faturou o campeonato dos Emirados Árabes à frente do Shabab Al-Ahli. Sob esse recorte, Abel tem razão: os dois não chegaram ao futebol brasileiro do mesmo lugar.

Leonardo Jardim tem um currículo mais extenso no futebol internacional, mas pouca experiência no Brasil / Flamengo

Abel Ferreira cria dinastia

A trajetória anterior de Jardim explica por que o Flamengo contratou um treinador mais rodado no mundo da bola. Não prova, por si só, que o Flamengo tenha obrigação esportiva maior em cada confronto nem reduz a responsabilidade de um Palmeiras que há anos dispõe de estrutura, capacidade de investimento, continuidade e, sobretudo, de um treinador que participa da construção esportiva do clube desde 2020.

Mais: se o parâmetro for aquilo que foi realizado no Brasil, a comparação se inverte com enorme vantagem para Abel. O português soma 11 títulos no Palmeiras: duas Libertadores, dois Campeonatos Brasileiros, uma Copa do Brasil, uma Recopa Sul-Americana, uma Supercopa do Brasil e quatro Campeonatos Paulistas. É o treinador mais vencedor da história alviverde. Em 2026, tornou-se ainda o primeiro técnico em três décadas a iniciar seis temporadas consecutivas no comando de um mesmo clube brasileiro.

O Palmeiras não é apenas o clube que deu a Abel a oportunidade de se tornar grande. Abel ajudou a transformar este Palmeiras em um dos projetos mais vencedores do continente. Por isso, a comparação feita após o empate com o Botafogo produz um efeito quase oposto ao pretendido.

Há menos de dois meses, José Boto, diretor de futebol do Flamengo, havia usado essa diferença para avaliar os dois portugueses, com direito a alfinetar o palmeirense. Afirmou que Jardim construiu a carreira antes de chegar ao Brasil, enquanto toda a trajetória de sucesso de Abel nasceu por aqui. Boto chegou a dizer que “o Brasil fez” a carreira do treinador palmeirense.

Ao citar agora os lugares em que cada um trabalhou, Abel acaba confirmando a premissa do dirigente adversário. O que muda é a finalidade. Boto utilizou o argumento para valorizar Jardim; Abel tenta usá-lo para aumentar a obrigação do Flamengo.

Tabela comparação currículo Abel Ferreira x Leonardo Jardim

Jardim tem mais bagagem

Há também uma diferença fundamental entre experiência e desempenho atual. Jardim pode ter treinado Monaco, Sporting, Olympiacos e Al-Hilal. Isso não transfere ao Flamengo pontos, vitórias ou títulos. Da mesma maneira que o passado menos vistoso de Abel antes de 2020 não diminui sua capacidade atual. Caso o currículo anterior fosse determinante, Abel continuaria sendo julgado pelo que fez em Braga e PAOK, e não pelas duas Libertadores, pelos dois Brasileiros e pela pilha de troféus conquistada depois.

É  o contrário. O futebol dos dois hoje precisa ser medido pelo que conseguem entregar com os recursos disponíveis agora. Jardim assumiu o Flamengo em março e já conquistou o Campeonato Carioca. Herdou um elenco poderoso e chegou a um clube que, de fato, possui enorme capacidade financeira. Essa é uma discussão legítima. Abel pode comparar investimentos, profundidade dos elencos, salários, contratações e possibilidades de reposição. São elementos objetivos para discutir força esportiva.

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Portanto, citar o endereço profissional anterior dos treinadores mistura duas discussões diferentes. Se a intenção era mostrar que o Flamengo possui mais poder, o currículo de Leonardo Jardim é apenas um indício do tamanho da ambição rubro-negra para contratar um técnico. Se era aliviar a cobrança sobre o Palmeiras, a tese perde força diante da própria biografia de Abel. Porque o treinador que desembarcou no Brasil atrás de Leonardo Jardim em currículo já não existe.

Hoje, Abel possui menos estrada internacional, mas construiu no Palmeiras uma obra brasileira muito maior. E talvez esteja aí a contradição de sua fala: ao tentar explicar por que o adversário deveria fazer mais, recorre a um passado que ele próprio passou quase seis anos demonstrando ser capaz de superar.

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