O futebol brasileiro pode ter pela frente uma operação financeira de até R$ 20 bilhões para tentar reorganizar as dívidas dos clubes. De novo. Trata-se de mais uma brecha que o governo abre para socorrer os futebol, incapaz de assumir os seus compromissos financeiros e de gerir suas instituições. O governo federal e dirigentes esportivos discutem a criação de uma linha de crédito com juros mais baixos, em um movimento que ganhou força diante da crise provocada pela possível restrição das bets pelo presidente Lula. A proposta, chamada de Programa Nacional de Reestruturação Financeira do Futebol Profissional, um nome pomposo para um problema velho, ainda está em negociação e pode sofrer alterações.
O ponto principal é que os R$ 20 bilhões não seriam um repasse direto do governo aos clubes. Essa negociação já tramitava nos corredores de Brasília. A ideia é criar uma linha de financiamento, com recursos associados ao BNDES, para que clubes e SAFs troquem dívidas caras por empréstimos de prazo mais longo e custo menor. É uma forma de socorrer o futebol após as restrições das bets no país.

O governo vai tirar dos clubes os investimentos das casas de apostas. Mas tira com uma mão e dá com a outra, feito uma boa mãe. Para os clubes, emprestar R$ 20 bi é melhor do que seguir com as bets. É uma troca de dinheiro, com mais dinheiro no futebol. Os financiamentos seriam realizados por bancos habilitados, que assumiriam o risco das operações, e não diretamente pela União.
Clubes devem R$ 17 bi
O tamanho da proposta chama atenção quando colocado diante do passivo do futebol brasileiro. Os clubes das Séries A e B acumulavam R$ 17,3 bilhões em dívidas em 2025, segundo o Relatório Convocados 2026. O valor cresceu 15% em relação ao ano anterior e inclui compromissos operacionais, financeiros, salários, direitos de imagem, fornecedores e outras obrigações.
A bolha estourou
A “bolha do futebol” estourou e ninguém se deu conta disso. O dinheiro teria regras. A proposta prevê utilização para dívidas trabalhistas e direitos de imagem, débitos com Receita Federal, INSS e FGTS, empréstimos bancários e dívidas cíveis. O crédito não poderia ser usado para contratar jogadores, bancar despesas correntes ou distribuir lucros e dividendos aos proprietários de SAFs.
O desenho discutido prevê prazo de pagamento de até 20 anos, com dois anos de carência. Ou seja: o diretor que assinar o compromisso não estará na outra ponta quando tudo acabar. Em determinadas operações, o dinheiro poderia ser direcionado aos credores. A intenção é atacar o estoque de dívidas que hoje consome parte importante da receita dos clubes e, em alguns casos, provoca atraso de salários, direitos de imagem e até punições esportivas e transfer bans. Mas por que o governo tem de fazer isso? O brasileiro comum e torcedor, que ama o seu clube, não entende isso. Se ele não pagar as suas contas, é processado e pode perder bens e até ser preso.
Desculpa do fim das bets
A discussão ganhou urgência porque os clubes enfrentam a possibilidade de perder uma importante fonte de receita. As bets movimentam cerca de R$ 1 bilhão por ano em patrocínios diretos aos clubes da Série A, segundo levantamento citado nas negociações. Lula deve assinar hoje o veto às bets no futebol. A brecha que os clubes queriam apareceu. A CBF já atuava na articulação do projeto.
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O futebol brasileiro, portanto, está diante de uma equação que mistura dinheiro, dívida e mudança no modelo de receitas. Uma linha de até R$ 20 bilhões poderia superar o estoque de dívidas levantado no estudo, mas isso não significa que todo esse valor será contratado pelos clubes. A questão central será definir quem terá acesso ao crédito, quanto poderá tomar e quais contrapartidas de responsabilidade financeira serão exigidas. O socorro pode aliviar o passado, mas não resolve sozinho o problema de clubes que continuam gastando acima da capacidade de geração de caixa.





