Por volta das 7h da manhã, o elevador do prédio funciona como uma antessala do jardim de infância. A vizinhança envelheceu, até falta gente com tônus muscular para compor uma brigada de incêndio, mas, nessa fração do dia, predomina a criançada, arqueada pelas mochilas e com uma energia incompatível com a dos pais, em luta vã contra os bocejos.

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Quando a seleção marca um amistoso do outro lado do planeta, e a crueldade do fuso me faz desejar ser um otário para também acreditar na terra plana e acabar com essa palhaçada, a agitação infantil se adensa. No jogo contra a Austrália, o Chico do 15º ameaça transbordar de entusiasmo. Descia ao térreo com os olhos vidrados no celular, onde a turma do Ancelloti tocava, tocava, tocava e tocava, sempre para o lado. Uma coisa entediante, menos para o Chico do 15º, que dava boletins a cada novo passageiro ingressante no elevador.

“NOSSO GOLEIRO PEGOU UMA”

– O Brasil está jogando! – anunciava.
– Bem? – redarguiam os mais pacientes com crianças.
– Bem. Nosso goleiro pegou uma! – informou, acrescentando detalhes com mímicas corporais dos movimentos feitos pelo Hugo Souza, cujo nome ele não citou, apesar de o Corinthians ser o clube do pai dele. Naquele instante, o jogo estava zero a zero e foi providencial não ter se comprometido nominalmente com nosso goleiro, que, no gol de falta dos caras, se limitou a se ajoelhar enquanto a bola fazia bochecha na rede.

Falando em bochecha, na portaria do edifício, o Chico do 15º foi rumando para a rua, passos miúdos. Levava consigo uma centelha que, aos poucos e com sucesso, o futebol brasileiro vai se esforçando em apagar.

90 MINUTOS SEM UM DRIBLE

O Chico do 15º se interessa pelas coisas do campo, pelos movimentos do goleiro. Talvez ainda não saiba que o futebol que o espera já não parece tão interessado nele. O futebol, fundido à identidade nacional, agora diz que vai morrer sem o patrocínio de gente que arranca dinheiro dos pobres para enriquecer no acúmulo, deixando migalhas aos clubes. Haveria uma equação em que sobreviveríamos todos, nós e o futebol, felizes?

Passa-se 90 minutos diante da TV, ou com o olho grudado no celular, sem se ver um drible do quilate de um Ronaldinho Gaúcho, de um Denner, de um Robinho e de um Neymar — antes de a sombra alcançar os dois últimos. Os movimentos corporais do Chico do 15º imitando nossos jogadores são firmes, cadenciados, roboticamente eficientes. Falta-lhes a malemolência quase transcendente de uma roda de samba, aquela criatividade que nasce de um povo que, submetido a dificuldades indizíveis, dá seu jeito.

Mas nosso futebol não dá jeito em nada. O Chico do 15º não sabe, mas vai ficar sem essa válvula verde e amarela de escape que, por gerações, ajuda a segurar essa barra que é nascer nesse país; e gostar.

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