É difícil compreender as críticas de parte da torcida do Palmeiras a Abel Ferreira depois da vitória por 1 a 0 sobre a LDU, no Nubank Parque, na noite desta quarta-feira. Quase 24 horas depois da partida, aumenta nas redes sociais o debate sobre a decisão do português de promover apenas uma das cinco substituições permitidas pela regra. Como se a quantidade de mudanças fosse determinante para explicar o placar mínimo, quando a torcida esperava uma vantagem maior para o jogo de volta, em Quito, pelas quartas de final da Libertadores.
Não é a primeira vez que um treinador é questionado por fazer poucas substituições. Também não é novidade Abel reagir a esse tipo de cobrança com sua característica habitual de não se colocar abaixo de questionamentos críticos. Sim, ele fez apenas uma troca: Vitor Roque deixou o campo aos 34 minutos do segundo tempo para a entrada do jovem Heittor. Na entrevista coletiva, explicou que a equipe tinha boa dinâmica, pressionava o adversário e que não havia necessidade de alterar a estrutura, além do desgaste físico de Vitor Roque. Uma explicação à moda Abel.

É possível entender essa discussão como mais um capítulo do desgaste entre o treinador e parte da torcida, depois de cinco anos de uma relação marcada por conquistas, cobranças, tapas e beijos. A vantagem magra alimentou a sensação de que Abel foi conservador demais e de que jogadores descansados poderiam ter ajudado o Palmeiras a ampliar o placar. O problema é transformar essa percepção em uma espécie de verdade absoluta. Não existe obrigação de o treinador utilizar as cinco substituições. E, principalmente, não existe qualquer garantia de que cinco mudanças produzam mais gols ou uma vitória mais confortável.
Torcida exigente
O Palmeiras ganhou. E ganhou um jogo de quartas de final da Libertadores contra um rival que agora terá de vencer por 2 a 0 no jogo de volta para avançar. É claro que 2 a 0 seria melhor do que 1 a 0, assim como 3 a 0 seria melhor do que 2 a 0. Mas estabelecer uma relação direta entre o placar e o número de substituições feitas por Abel é uma simplificação perigosa. Às vezes, uma mudança muda o jogo. Em outras, não muda nada. E há partidas em que a entrada de reservas até prejudica o funcionamento de uma equipe que estava organizada.
O pressuposto mais básico é que os jogadores escolhidos para começar são, na avaliação do treinador, melhores ou mais adequados do que aqueles que ficaram no banco. Se fosse diferente, estariam em campo desde o início. É evidente que existem exceções por questões físicas, suspensões, estratégia ou características do adversário, mas a lógica é essa. Portanto, não há qualquer garantia de que o time será melhor apenas porque o treinador colocou mais jogadores em campo. Muitas vezes, ele olha para o banco e não encontra uma alternativa em que confie mais do que na estrutura que está funcionando.
Compare com o Corinthians
O exemplo do Corinthians, de Fernando Diniz, ajuda a entender essa questão. Com um elenco mais enxuto e tecnicamente inferior ao do Palmeiras, o treinador sabe que seus reservas estão, em princípio, abaixo dos titulares. Contra o Estudiantes, em La Plata, ele precisou mexer na equipe, mas é difícil imaginar que tenha feito as alterações acreditando que a simples entrada dos reservas melhoraria o desempenho. Foram mudanças determinadas muito mais pela necessidade de recuperar fisicamente a equipe, recompor posições e corrigir problemas do que pela certeza de que aqueles jogadores seriam capazes de mudar o resultado.
Cinco trocas
É aí que a discussão sobre Abel e as cinco substituições ganha importância. Ela mostra como é difícil o trabalho de um treinador no futebol brasileiro e como a paixão das torcidas pode transformar uma decisão normal — fazer uma, duas, três, quatro, cinco mudanças ou nenhuma — em motivo para uma discussão que perde de vista o que aconteceu em campo. Abel pode e deve ser criticado por suas escolhas. Nenhum treinador está acima da crítica. Mas é preciso que a crítica tenha fundamento e não transforme uma possibilidade em certeza.
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Talvez a maior ironia do Palmeiras esteja aí. Abel ajudou a elevar tanto a régua do clube que agora precisa conviver com uma torcida que parece não se satisfazer apenas com a vitória. Ela quer a vitória acompanhada de uma superioridade absoluta, de um placar confortável e de uma atuação que confirme o tamanho do Palmeiras. Uma vitória por 1 a 0, em um jogo de Libertadores, já parece insuficiente para parte dos torcedores. E quando o resultado não corresponde à expectativa, até quatro substituições que não foram feitas podem virar um problema. Será que o Palmeiras precisa desse barulho agora?





