O craque e capitão do Santos não jogou contra o Palmeiras no Nubank Parque, na partida de ida do mata-mata das quartas de final da Copa do Brasil, porque a comissão técnica decidiu preservá-lo. Pelo menos essa é a versão oficial, que credita ao técnico Cuca a decisão de não mandá-lo a campo. O fato, no entanto, sugere outras interpretações. O estádio palmeirense tem gramado sintético, o tipo de piso que Neymar mais critica e que se tornou uma das grandes bandeiras de um movimento liderado por ele e por outros jogadores importantes do futebol brasileiro. Naquela noite, Neymar ficou fora. O Santos perdeu por 3 a 0 e entregou a classificação ao Palmeiras.
Uma semana depois, veio o jogo de volta, na Vila Belmiro. Gramado natural. Casa do Santos. O cenário que, em tese, deveria oferecer ao principal jogador santista o ambiente ideal para tentar uma reação impossível. Mesmo sabendo da dificuldade de reverter uma vantagem tão grande, Neymar jogou. E se machucou ainda no primeiro tempo, reduzindo a zero as chances do que seria uma remontada histórica.

Neymar sentiu dores no músculo posterior da coxa direita nos minutos finais da primeira etapa. Já não conseguia se movimentar normalmente, só usou a perna esquerda para bater na bola até o intervalo, caminhou em alguns momentos e não voltou para o segundo tempo. Rony entrou em seu lugar. O Santos empatou por 0 a 0, não conseguiu sequer ameaçar a vantagem construída pelo Palmeiras e terminou eliminado da Copa do Brasil. Um desfecho mais do que esperado, sem contestações. Prejuízo mesmo só a nova contusão de Neymar.
Neymar não volta após o intervalo
É impossível, evidentemente, estabelecer qualquer relação entre a lesão na coxa e o fato de a partida ter sido disputada em gramado natural. Seria irresponsável transformar uma coincidência em um diagnóstico médico tão conclusivo. Mas é impossível também ignorar a ironia. Porque Neymar é o jogador brasileiro que mais alto levantou a bandeira contra os gramados sintéticos.
Em fevereiro de 2025, esteve entre os protagonistas de um manifesto que reuniu nomes como Lucas Moura, Gabigol, Thiago Silva, Philippe Coutinho e outros jogadores. Sob o lema “Futebol é natural, não sintético”, os atletas questionaram a utilização de superfícies artificiais no futebol brasileiro e defenderam que a solução para um gramado natural ruim deveria ser investir em manutenção e qualidade, e não substituí-lo por material sintético.
Sintético x natural
O movimento ganhou enorme repercussão porque não era uma reclamação isolada. Era uma tomada de posição coletiva de jogadores de enorme expressão. Entre os argumentos apresentados estavam as diferenças na dinâmica do jogo, as características do piso, a temperatura elevada que a grama artificial pode atingir e a preocupação com o impacto sobre a integridade física dos atletas.
Neymar nunca escondeu sua posição. Em 2025, depois de uma partida disputada no gramado sintético do ainda batizado Allianz Parque, chegou a dizer que jogar naquele piso era, para ele, impossível e que a superfície incomodava qualquer jogador. Por isso, quando Santos e Palmeiras se encontraram pelas quartas de final da Copa do Brasil deste ano, a ausência de Neymar no primeiro jogo despertou a discussão sobre o assunto.
Mas o próprio jogador fez questão de afastar essa interpretação. Nas redes sociais, afirmou que estava à disposição para jogar e que sua ausência havia sido uma decisão da comissão técnica em razão da sequência de partidas. Disse até que tinha encomendado uma chuteira especial para ser utilizada em campos artificiais.
Decisão de Cuca mesmo?
Pelo sim, pelo não, o fato é que Neymar foi preservado. E aqui está o ponto que torna toda essa história tão incômoda. O Santos evitou expor seu principal jogador ao gramado artificial do Palmeiras. A comissão técnica fez uma escolha pensando, entre outras coisas, na preservação física do atleta e na sequência da temporada. Mas o plano deu errado no final. Há uma dose de crueldade nessa ironia. Isso porque, durante o aquecimento do jogo desta quarta-feira, Neymar demonstrou insatisfação com as condições do gramado da Vila. Testou o piso, balançou a cabeça negativamente, conversou com integrantes do clube e apontou para o campo. A própria Vila, portanto, estava longe de ser o gramado perfeito que a discussão sobre o sintético costuma colocar como contraponto.
Enfim, a contusão de Neymar traz de volta a polêmica da qualidade dos gramados. A discussão sobre o sintético não pode ser reduzida à ideia simplista de que toda grama artificial provoca lesões e toda grama natural protege os jogadores. A ciência não permite uma conclusão tão confortável. Existem estudos com resultados diferentes e mecanismos de lesão que variam conforme a superfície, o tipo de piso e as características do atleta.
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O problema não é trocar uma superfície por outra. O problema é garantir que o futebol profissional seja disputado em campos capazes de oferecer segurança, qualidade e condições adequadas para quem joga. O futebol brasileiro ainda tem muito a melhorar. Para o Santos, a lesão de Neymar vai muito além desse debate. Pois agora o clube corre o risco de perder seu principal jogador para a partida que pode uma das mais importantes da temporada: o confronto de domingo com o Internacional, no Beira-Rio, pelo Brasileiro.
Não é exagero chamar esse jogo de uma decisão para o Santos. A equipe luta contra o rebaixamento. Cada ponto vale muito. E, depois da eliminação na Copa do Brasil, o Campeonato Brasileiro passou a ser o único palco restante para o clube evitar que a temporada termine em desastre. Convenhamos, sem Neymar em campo esse risco é maior.





