POR FABRÍCIO BARCELOS

Perto das 21h do dia 13 de fevereiro de 2024, Jack Nolan começou a agitar os braços perto da grande área, mas não havia desespero. Com a privilegiada orientação territorial dos artilheiros, simplesmente avisava aos companheiros da solidão potencialmente produtiva que desfrutava. A bola já havia passado por três cabeças e restava incerta quando Woods, com uma urgência cheia de leveza, tomou-a para si e rolou com a elegância de um garçom. Nolan então ajeitou o corpo e disparou de perna esquerda. A curva que a bola desenhou até a rede do Wimbledon foi uma perfeita metáfora da trajetória que fizemos para estar ali, vivenciando uma das mais lindas experiências que o futebol nos proporcionou.

SIGA THE FOOTABALL

Da barulhenta São Paulo, no Brasil, onde vivemos, à calmaria úmida de Accrington, percorremos uma curva parecida pelo globo terrestre. Pode parecer muito, mas quando as memórias daquele dia retornam, fica a crença de que nos esforçamos pouco diante do tamanho do carinho que recebemos em Lancashire. Assistir ao Accy ao vivo era um sonho acalentado em nossa família desde que eu e meu filho Inácio escolhemos o clube para a disputa de um modo carreira no Fifa.

Ali nasceu um amor que não cabia no PlayStation. Prometemos uns aos outros pisar no Wham Stadium pelo menos uma vez na vida. Essa noite chegou, sob chuva, frio hostil para brasileiros e uma vitória por dois gols cuja potência dos chutes vieram na mesma medida da nossa paixão.

DENTRO DO WHAM STADIUM

Mas não foi uma jornada sentimental concretizada somente por nós. Se cada minuto daquele dia aparece cristalino na lembrança, rumo à eternidade, isso se deve à generosidade de muitos. A começar pelo Peter Leatham, chairman do Official Accrington Stanley Supporters’ Trust (OASST), a quem escrevi em dezembro, querendo apenas confirmar a data do jogo antes de comprar as passagens aéreas. Peter foi muito além: prontificou-se a nos buscar em Manchester, com direito a um passeio pelos estádios do United e do City. Foi lindo, mas a ansiedade era tanta que só pensávamos na estrada para Accrington.

Pouco mais de uma hora depois, Peter estacionou no Wham Stadium e nosso coração fervilhou. Era como se uma paisagem onírica se materializasse em cor, textura, aromas. Ali nos esperava o David Burgess, CEO do clube. E aqui preciso confessar um pudor de ordem cultural. Brasileiros são expansivos no trato, buscam contato físico e fazem perguntas pessoais minutos depois de conhecer alguém. Não sei se gosto disso, mas é assim que somos no geral.

ERGUEMOS A TAÇA DE 2019

Com o David, porém, a expansividade se inverteu. Ele nos recebeu com uma leveza, com um interesse tão genuíno por nós, que alguns passos depois já nos sentíamos como se estivéssemos caminhado por ali a vida inteira. É muito bonito descobrir um lar do outro lado do oceano. Erguemos a taça de 2019 com um sorriso que exibia nossos 32 dentes.

Nessa andança, nos comovemos com a dedicação do roupeiro George Quigley, que, no início da tarde, nos mostrou a lavanderia, nos acompanhou pelos vestiários onde camisas já aguardavam quem as vestisse para a batalha e, na hora do jogo, à noite, trabalhava debaixo de chuva, incansável. Também conhecemos a Isobel Heap, a Izzy, que dias antes havia nos mandado o menu do jantar, criando água na boca por antecipação.

GEORGE, IZZY E LYNN

À noite, Lynn Donohoe nos carregou pelas mãos até o gramado, onde ganhamos uma camisa comemorativa às 10 temporadas do capitão Semous Conneely, autografada por todos os jogadores, e entregamos o troféu de melhor em campo ao nosso paredão, Radek Vitek. Um clube de futebol é resultado da abnegação de muitos. George, Izzy e Lynn encarnam essa responsabilidade com dignidade ímpar.

Depois de um breve e agitado repouso na acomodação sinistra que reservamos, por descuido, Peter nos buscou para aquilo que seria o ápice de um dia até ali já memorável. Iríamos enfim ver o Accrington Stanley em campo. Na mesa do hospitality, com uma vista apoteótica para o gramado, jantamos na companhia da torcedora Dorothy Vernon, que, com didatismo típico dos bons professores, nos deu uma aula da história do clube. O ano de 1968 é, de fato, aquele que nunca vai acabar.

COM A TORCIDA

Assistimos o primeiro tempo das arquibancadas ladeados pelos dirigentes do Wimbledon, o que exigiu de nós algum decoro. Na segunda etapa, porém, avisamos ao Peter que veríamos o jogo no Clayton End, onde fica a torcida mais ruidosa. Não quero ser pretensioso, mas acho que começamos a vencer quando tomamos essa decisão. No meio da bateria, pudemos experimentar a energia que nos trouxera até ali, no seu estado mais bruto.

Ao fim, o chute do outro Woods, o Ben, só não estourou em meus peitos porque havia uma rede no caminho. Foi como se tudo ficasse em suspenso: o corpo se movia alheio à razão, as cordas vocais vibravam, desconexas, promovendo urros animalescos. Eu e meus filhos perdemos as faculdades humanas mais elementares, mas creio que fomos perdoados pelos companheiros de arquibancada.

WE LOVE BRASIL!

Accrington Stanley, we love Brazil! – ouvimos da torcida, e talvez ouçamos isso para sempre em nossas lembranças.

Não consigo nominar todos que nos cercaram de gentilezas naquela noite, mas não esqueço o olhar de cada um. Tenho minhas dificuldades com o inglês, não consegui aprofundar conversas na medida do meu sentimento. Mas creio que nos conectamos pela força das cumplicidades que só o futebol consegue costurar.

SIGA THE FOOTBALL
Instagram
Facebook
Linkedin
TikTok
Facebook

Na manhã seguinte, antes de pegar o trem, enquanto fazíamos desjejum com feijão vermelho e vista para as pedras úmidas da cidade, fomos amadurecendo uma certeza. Anos atrás, não escolhemos o Accrington por acaso, ao jogar Fifa no PS4. O amor por um clube é um pretexto que inventamos para estarmos juntos. E não poderíamos ter encontrado uma gente mais parecida conosco do que a que encontramos em Lancashire. Num tempo em que a humanidade insiste em ressaltar diferenças, às vezes com violência, não há nada mais vencedor do que encontrar iguais tão longe de onde nascemos.

QUEM É ELE

Nascido em Pelotas (RS), há já distantes 52 anos, Fabrício Barcelos é jornalista e professor de Literatura. Liderou redações em São Paulo, Santa Catarina e Goiás e hoje se dedica a narrativas de relações públicas. Também dá aulas no Cursinho Demétrio Campos, voltado à população trans. É torcedor do Brasil de Pelotas, o Xavante, o que deixa evidente que se interessa menos pela beleza do que ocorre dentro de campo e mais pelo que inventamos em torno do jogo, para espantar a solidão e o vazio da existência. É sobre essa ficção coletiva que trata nas crônicas que escreve por aqui. Jornalista, cronista e professor de
Literatura. Fabrício Barcelos chega para reforçar o time do The Football

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui