A lição número 1 do manual do jornalismo diz que jornalista não é notícia. A ressalva se refere à maneira como nós devemos nos comportar eticamente diante de um fato, procurando registrá-lo, em foto, texto, vídeo ou opinião, de modo isento e distante. Mas é impossível tratar a morte do jornalista Paulo Soares, o Amigão da Galera, sem dar a ela a nobreza de um fato relevante, principal característica daquilo que academicamente chamamos de valor-notícia dos acontecimentos que pontuam a vida em sociedade.

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A morte de Paulo Soares, vista assim, nesse contexto, merece ocupar espaço em todos os noticiários brasileiros. Assim, aqui neste espaço, ainda de audiência modesta para os padrões da internet, dedico esta crônica ao Amigão não por simplesmente me render ao óbvio da homenagem póstuma, mas, sim, pela convicção de que o Brasil que desejamos como nação perdeu hoje um de seus melhores representantes.

Paulo Soares, o Amigão da Galera, morre aos 63 anos: ele fez dupla de muito sucesso com Antero Greco na ESPN / ESPN

Paulo Soares e Antero Greco

Paulo Soares não era só um bom narrador – até porque ele era ótimo! Também não era só um bom apresentador de televisão – porque ele era único, ou quase único, pois se tornava completo mesmo quando se juntava ao parceiro Antero Greco… os dois formavam a melhor dupla do jornalismo esportivo do país. Paulo Soares não era só um cronista esportivo premiado, inteligente, articulado, respeitado, profissional, dedicado e zeloso de suas atribuições.

Amigão da Galera

Paulo Soares era a dimensão humana do que se pode entender da palavra amigo. Paulo Soares não era só um amigo. Era o Amigão da Galera, apelido que dá a exata dimensão de seu tamanho e de sua generosidade. Como não transformar a morte de um sujeito assim em notícia? Não dá para resumir nossa tristeza a um minuto de silêncio. Não, não é momento de fazer silêncio. Agora é preciso que todos falem, gritem, espalhem por aí que o jornalismo do Brasil perdeu uma referência e que os amigos, familiares e fãs perderam um ser humano maravilhoso.

De bom coração

Um cara doce, puro, sensível, alegre, sorridente, parceiro, daqueles que fazem falta quando não estão mais por perto. Um cara que conseguia externar todas essas virtudes mesmo nos ambientes muitas vezes tóxicos e sempre tenso das redações, de rádios, jornais e televisão, onde a vaidade eleva o nível de competição das pessoas ao extremo. Paulo Soares passou incólume a esses vícios perniciosos da profissão. Em todos os lugares só levou sorriso, bom humor, alegria e aquele tom aveludado de sua voz gigantesca. Paulo Soares não era só uma voz bonita no rádio. Paulo Soares será para sempre a voz que fará falta nos nossos corações.

Paulo Soares e Antero: dupla fez sucesso na ESPN. Jornalismo esportivo perdeu nesta segunda o Amigão da Galera / ESPN

Desde que descobri sua doença, sempre mandava mensagens pelo WhatsApp para saber a quantas iam seu tratamento e recuperação. Sua última mensagem é datada em 7 de junho, coisa de 100 dias atrás. Como sempre fazia nas nossas conversas, ele me atualizava dos procedimentos médicos e detalhava com certa resignação os passos do calvário que sofria desde a primeira cirurgia na coluna, a causa do quadro que o levou a inúmeras internações.

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No último parágrafo de sua mensagem, logo após passar por mais uma cirurgia, Amigão renovou sua certeza de que valia a pena lutar pela vida e nos deu a esperança de que o dia de hoje ainda iria demorar para chegar. “Fiquei alguns dias entre a vida e a morte. Mas nasci de novo. Agora as coisas caminham bem!” Certamente que sim, Amigão! Agora você pode descansar sabendo que lutou pela vida com todas as suas forças. Vai na paz! Quando chegar lá, dá um beijo no Antero por nós… Sim, beijai por nós, my friend!

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