A nova campanha da adidas para as chuteiras F50 e Predator chama atenção por um detalhe que, à primeira vista, pode parecer apenas uma escolha criativa. Mas, no marketing esportivo, nada é apenas estético. Todos os protagonistas da campanha são atletas do Barcelona, um clube cujo fornecedor oficial de material esportivo é a Nike. Entre eles, o nome que mais se destaca é o de Lamine Yamal, um dos símbolos da nova geração do clube catalão e um dos jogadores mais influentes do futebol mundial, dentro e fora de campo.
Esse aparente paradoxo não é um erro. É uma jogada. É uma estratégia! E uma jogada que provoca uma reflexão interessante: se o amor ao clube é incondicional, até que ponto essa paixão também pode ser “compartilhada” com os ídolos? O torcedor JAMAIS abandona o seu clube. Não troca de escudo. Não muda de lado. Essa relação é religiosa. É herdada, passada de geração em geração, construída em derrotas, vitórias, memórias e rituais. O amor ao clube é estrutural.

Mas o futebol moderno criou outra camada de conexão: a paixão pelos atletas. Pelos ídolos. Os jogadores não são apenas peças de um sistema. Eles são narrativas ambulantes. Estilos de jogo. Posturas. Personalidades. Eles inspiram, representam e dialogam diretamente com o torcedor. E isso não anula o amor ao clube, mas divide a sua atenção emocional.
Lamine Yamal é do Barça
Lamine Yamal é o exemplo perfeito dessa nova lógica. Ele não é apenas um jogador do Barcelona. Ele é um símbolo de estilo, atitude, juventude, ousadia e futuro. Ele transcende o campo. Ele vira referência. É um espelho.
Adidas vende o desejo e não o escudo
É exatamente aí que a adidas entra. A marca sabe que não vende a camisa do Barcelona. Esse território é da Nike. O escudo, o uniforme, o visual institucional do clube estão protegidos por contratos. Mas o consumo do torcedor não se limita à camisa. Ele compra chuteira. Compra tênis. Moletom. Compra lifestyle e acessórios. Adquire tudo aquilo que faz parte do “ser jogador”, do “jogar bola”, do “viver futebol”.

E, nesse universo, os ídolos são guias de escolha. E eu sei bem o que isso significa. Tenho um filho de dez anos (que joga futebol) e se inspira nos ídolos. Os pedidos sempre são assim: “Papai, quero a chuteira do Messi, quero o moletom do CR7, o tênis do Ronaldinho Gaúcho”… Ele jamais me pediu uma chuteira, um moletom ou um tênis colocando a “marca” em primeiro lugar. Sempre foi o atleta, o ídolo!
Ao colocar Lamine Yamal como protagonista da campanha, a adidas não está desafiando o amor ao clube. Ela está se infiltrando dentro dessa paixão. Ela não tenta substituir o escudo. Ela se associa a quem veste esse escudo dentro de campo. É uma diferença sutil e genial.
Marketing genial
A campanha não diz: “troque de time”. Ela meio que diz: “jogue como ele”. Ela não disputa pertencimento institucional. Ela disputa aspiração. E aspiração move consumo. O torcedor continua sendo do Barcelona. Isso não muda. Mas, na hora de escolher a chuteira, o tênis, o look, o acessório, a pergunta deixa de ser qual marca patrocina meu clube e passa a ser “qual marca veste quem eu admiro no futebol?
Disputa pelo imaginário
O clube representa herança. O atleta representa desejo. O clube representa identidade fixa. O atleta representa projeção. O clube diz quem você é. O atleta diz quem você quer ser. A adidas entende que, no futebol moderno, o coração do torcedor não é um bloco único. Ele é dividido em camadas. Uma delas é inabalável: o amor ao clube. A outra é altamente ativável: a conexão com os protagonistas.
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E é nessa segunda camada que as marcas conseguem operar com mais liberdade. Ao transformar F50 e Predator em uma disputa (velocidade versus controle, instinto versus inteligência) a adidas não está falando de tecnologia. Está falando de personalidade. Está convidando o torcedor a se enxergar dentro de um estilo de jogo.
Rostos e marcas
E quando uma marca faz isso, ela não vende o produto. Ela vende a identidade. Essa campanha é eficaz porque não briga com a Nike no território do uniforme. Ela contorna. Ela ocupa o território emocional. Ela usa os principais ativos do clube para disputar todos os outros produtos do ecossistema esportivo. A Nike tem o escudo. A adidas tem os rostos. E, na era das redes sociais, os rostos contam histórias. Geram conteúdo. Criam vínculo. Humanizam o consumo.
No fim, essa não é uma guerra aberta. É uma guerra fria. Não de contratos, mas de imaginário. Não de espaço físico, mas de desejo. Não de camisa, mas de comportamento. E talvez a pergunta mais interessante que essa campanha levanta seja esta: o torcedor nunca deixará de amar seu clube. Mas quem, hoje, molda mais suas escolhas de consumo: o escudo que ele defende ou o ídolo que ele quer imitar?





