Diante do assombro provocado pela possibilidade de novas restrições ao mercado das bets no Brasil, turbinado por declarações do chefe do Executivo, os clubes se mobilizaram na última semana por meio de um manifesto em defesa do setor, com o apoio de diversas federações estaduais. Em tom alarmista, o grupo sustenta que o mercado já foi regulado e que agora deveria avançar no aprimoramento das políticas de proteção e na intensificação da fiscalização. Para os clubes, a manutenção das regras atuais seria indispensável para a continuidade das parcerias, chegando a classificar uma eventual proibição como um “golpe fatal ao futebol”.

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O pano de fundo da discussão sobre uma possível mudança regulatória, porém, é o que fazer com as bets diante do impacto social provocado pelo crescimento das apostas esportivas, especialmente sobre as famílias brasileiras. A reação imediata dos clubes a uma eventual mudança expôs uma relação de dependência financeira que vem sendo construída nos últimos anos. Com a chegada e o domínio das empresas do segmento, a estrutura de financiamento da indústria do futebol foi incrementada de maneira significativa pela entrada de novos e vultosos recursos, tornando rapidamente diversos atores da cadeia dependentes dessas receitas.

Governo ameaça acabar com a bets no futebol brasileiro: clubes contestam decisão e partem para o confronto / Divulgação

Essa dependência alcança todos os setores do futebol. Os clubes passaram a contar com verbas de patrocínio e exploração de marcas; os veículos de comunicação, com contratos publicitários; e os administradores de estádios, com acordos envolvendo placas, painéis e espaços comerciais. Formou-se uma cadeia na qual clubes, empresas, plataformas, veículos e outros agentes movimentam milhões de reais, enquanto a sociedade absorve os efeitos negativos desse modelo, muitas vezes representados pelo superendividamento de pessoas que não conseguem controlar o volume de apostas.

Bets não são as únicas receitas

Há, entretanto, um paradoxo nessa relação de interdependência econômica. Apenas quatro clubes da Série A têm nas bets mais de 10% de suas receitas diretas e, mesmo nesses casos, a participação não supera 18% do faturamento total. Isso significa que, embora o dinheiro das casas de apostas tenha adquirido importância relevante no futebol brasileiro, ele não representa, para a maioria das principais agremiações, a maior fonte individual de receita. A pergunta, portanto, precisa ser feita sem alarmismo: seria realmente o fim do futebol brasileiro caso as bets deixassem o mercado?

A questão é mais complexa ainda. Uma eventual nova regulação não atingiria apenas os clubes, mas competições, naming rights, publicidade em transmissões de televisão, banners, placas e letreiros de beira de campo. O impacto alcançaria, portanto, todo o ecossistema do futebol e poderia reduzir receitas indiretas que chegam às agremiações por meio da exploração comercial de diferentes plataformas.

Bets já são reguladas no Brasil, com o pagamento de uma taxa de R$ 30 milhões por cinco anos / Reprodução

Isso, porém, não significa a descontinuidade do negócio futebol. Uma eventual redução dos investimentos das bets poderia, inclusive, ajudar a conter parte da inflação provocada no mercado nos últimos anos, especialmente no valor de salários, contratações e luvas de jogadores. Se as bets deixassem o futebol brasileiro, os efeitos no curto prazo seriam relevantes. As receitas provenientes desses contratos já estão incorporadas à estrutura de custos de muitos clubes. Uma redução abrupta poderia afetar o fluxo de caixa e comprometer a sustentabilidade financeira das instituições mais dependentes dessa fonte.

Receitas diversificadas

O problema, portanto, não está apenas na existência do dinheiro das apostas, mas na capacidade dos clubes de construir estruturas que não dependam de uma única indústria. Depender de uma receita, de um nicho ou de um determinado ramo econômico não conduz os clubes à sustentabilidade defendida pelo próprio conceito de fair play financeiro. O futebol já viveu ciclos semelhantes com outros setores, como refrigerantes e bancos, que em determinados períodos ocuparam espaços relevantes na exposição das equipes. Os mercados mudam, os patrocinadores mudam e as fontes de receita também. Cabe aos clubes antecipar essas transformações, e não reagir somente quando uma fonte importante de dinheiro está ameaçada.

É preciso cuidar da saúde financeira dos clubes, que ainda não conseguiram organizar uma liga única e que, ao longo dos últimos anos, apresentaram diferentes exemplos de aglutinações frágeis e circunstanciais, agora se unem em torno de uma pauta controversa porque ela envolve os seus interesses financeiros. A disseminação ostensiva da publicidade das casas de apostas transformou o problema em uma questão de saúde pública, diante do crescimento da ludopatia e do superendividamento associado ao jogo.

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Cabe aos clubes buscar a diversificação de receitas e compreender que o futebol pode sobreviver sem depender da exposição indiscriminada das marcas de apostas. O debate não deveria ser tratado apenas como uma disputa por dinheiro: é também uma discussão sobre responsabilidade, sustentabilidade e os limites da participação do futebol em um mercado que pode produzir consequências graves para a sociedade.

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