Por Leonardo de Sá
O Flamengo venceu, mas o Maracanã não perdoou. As vaias que ecoaram para Filipe Luís no último domingo, dia 22, não são uma heresia inédita, mas um rito de passagem no tribunal das arquibancadas cariocas. O treinador, agora sentindo o cargo balançar e a cobrança mais forte, tenta entender como o amor da “Nação Flamenguista” vira cobrança em questão de minutos — mesmo quando vence. Contudo, para achar o paralelo exato desse sentimento, é preciso voltar a 4 de dezembro de 1975, na noite em que 74 mil flamenguistas esqueceram a liturgia e vaiaram o rubro-negro de um jovem jogador: Zico.
Naquela ocasião, o cenário era desenhado para uma festa. O Flamengo enfrentava o Santa Cruz precisando de um simples empate para carimbar a vaga na semifinal do Campeonato Brasileiro. A imprensa tratava a classificação como certa, mas o “Tigre do Arruda” não seguiu o roteiro. O placar de 3 a 1 para os pernambucanos foi um choque. A partida virou de ponta cabeça e, em questão de minutos, o Rubro-negro estava derrotado. Ao fim do jogo, o silêncio da derrota deu lugar a uma sonora vaia que não poupou ninguém — nem o camisa 10, que, mesmo tendo marcado o único gol do Fla, saiu de campo tragado pela frustração de um estádio inteiro. Zico foi vaiado.

Tribunal que não respeitou Zico
Aquele jogo contra o time de Givanildo e Ramón é o marco zero da exigência extrema na era Zico. O Maracanã de 1975 não teve paciência com a equipe que já contava com o jovem Júnior — apontado na época como um dos culpados pela desatenção defensiva. As vaias serviram de aviso: na Gávea, o talento individual nunca será escudo para um fracasso coletivo. Assim, Zico aprendeu cedo que o aplauso no Maracanã é um aluguel que se paga caro a cada domingo, ou rodada, sem direito a atraso.
Dessa forma, o episódio de 1975 forjou o caráter daquela geração de atletas e também da voz que vinha das gerais do estádio. Zico e seus companheiros entenderam que a mística do “deixou chegar” precisava de suor dobrado para se tornar realidade. Se hoje Filipe Luís lida com a insatisfação das numeradas mesmo após uma vitória magra no Estadual diante do Madureira, ele está apenas experimentando a mesma insatisfação da torcida que o maior ídolo do clube enfrentou décadas atrás. O tribunal continua implacável: o que muda são apenas os nomes em campo.
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No Flamengo, a vaia não é um pedido desesperado de uma torcida mal acostumada. É um aviso. Filipe Luís já mostrou aos fãs do que é capaz, e que os títulos que conquistou o fazem ser um dos maiores e mais respeitados técnicos do futebol brasileiro da atualidade. Mas isso não o garante na função. O torcedor é exigente. Consequentemente, a lição de 1975 é clara: ninguém é maior do que o Flamengo no Maracanã. Nem Zico nem Filipe Luís nem Arrascaeta… A redenção só vem com a vitória e a dominância do adversário. O torcedor do Flamengo foi forjado dessa maneira. Por isso ele é o que é.
Pega na Mentira
Zico foi vaiado outras vezes. Uma delas aconteceu na despedida de Roberto Dinamite do Vasco, quando o Galinho vestiu a camisa do mesmo time do amigo e companheiro de profissão. A torcida não perdoou. Mas nem todos eram flamenguistas. Foi no dia 24 de março de 1993, num jogo entre o Vasco e o La Coruña. Zico já não estava mais no Flamengo. Ele era jogador do Kashima Antlers. O tremendão Erasmo Carlos fez a música “Pega na Mentira” e passou por esse episódio: “Zico está no Vasco, com Pelé…”





