O Corinthians vive um momento de agonia financeira tão profunda que já não se sabe mais o que é saída emergencial e o que é puro desespero. A recente ideia ventilada por Romeu Tuma Júnior, presidente do Conselho Deliberativo, de paralisar os pagamentos da Neo Química Arena à Caixa Econômica Federal para redirecionar recursos ao caixa imediato do clube é daquelas que dizem muito mais sobre a falência de credibilidade da instituição do que sobre qualquer estratégia de gestão financeira.

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Não é difícil entender de onde vem a proposta: a dívida com o estádio é impagável nos moldes atuais e, em vez de ser um motor de crescimento, tornou-se uma âncora que afunda o Corinthians. A cada parcela paga, o clube não se liberta — apenas alimenta o ciclo vicioso de juros que corrói sua capacidade de respirar financeiramente. Até aí, o diagnóstico tem alguma razoabilidade.

São 115 anos de glórias, sofrimento, luta e amor, mas o Corinthians está de pernas para o ar em sua gestão / Corinthians

O problema é a embalagem da solução. Calote não é sinônimo de renegociação. Quando o dirigente do Corinthians sugere que simplesmente se pare de pagar a Caixa, o recado transmitido ao mercado é cristalino: “não confiem em nós”. Se até Memphis Depay foi enrolado no pagamento de suas luvas, o que dirá o atleta mediano, sem nome e sem mídia, que hoje pensa duas vezes antes de assinar com o clube. Se fornecedores, empresários e até outros clubes já hesitam em negociar com o Corinthians, imagine o que significa declarar, em alto e bom som, que o clube pode simplesmente virar as costas para uma das maiores instituições financeiras do país.

Munição para Leila Pereira

A narrativa de Tuma Júnior cai como munição no colo de Leila Pereira, presidente do Palmeiras, que há meses brada contra a impunidade de clubes que não honram compromissos. Ainda que fale genericamente, todo mundo sabe quem é o alvo preferencial de sua metralhadora: o Corinthians. Para ela, é inadmissível que um clube que se organiza para pagar tudo em dia seja superado em campo por outro que empilha dívidas e defende institucionalmente calotes. E, convenhamos, quando o rival alvinegro ganha o Paulistão e elimina o Palmeiras na Copa do Brasil, o discurso dela encontra plateia ainda mais receptiva.

Romeu Tuma Júnior, presidente do Conselho do Corinthians: dirigente propõe o calote à Caixa / Corinthians

O Corinthians fatura mais de R$ 1 bilhão por ano — está no mesmo patamar de Palmeiras e Flamengo. Mas enquanto os rivais se consolidam como modelos de gestão, o clube do Parque São Jorge se especializa em projetar sua insolvência ao mercado. O risco é óbvio: se hoje o alvo é a Caixa, amanhã pode ser qualquer credor, pequeno ou grande. Quem garante que o “plano de calote seletivo” não se espalhe para fornecedores, empresários e jogadores que ainda aguardam pagamentos já atrasados?

O RCE corre risco

E o mais grave: essa defesa do calote mina até mesmo o plano de Recuperação Extrajudicial (RCE) já apresentado pelo Corinthians aos credores. Afinal, como convencer quem está há anos na fila para receber que o clube será capaz de honrar um acordo coletivo se, ao mesmo tempo, seus dirigentes pregam publicamente a suspensão de pagamentos a um credor estratégico como a Caixa? A contradição é tamanha que o próprio RCE corre o risco de perder legitimidade antes mesmo de engrenar.

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É verdade que o atual modelo de financiamento da arena é sufocante e precisa ser reestruturado. Mas defender o calote como solução imediata é como trocar o extintor por gasolina no meio de um incêndio. O Corinthians precisa de credibilidade — e isso se constrói com responsabilidade, transparência e renegociação séria. O clube não é pequeno, não é irrelevante e não é inviável. Mas quanto mais flerta com a insolvência como método, mais se apequena diante de seus rivais e se transforma em exemplo do que não fazer no futebol brasileiro.

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