A notícia que começou a circular como um rumor na segunda-feira, dia 18, acabou se confirmando após quatro dias: a partida do Manchester City contra o Aston Villa, pela última rodada da Premier League, foi a derradeira do técnico catalão Pep Guardiola no Manchester City. É o fim do período mais relevante da história do clube inglês – que conquistou seis taças da Premier League e um troféu da Liga dos Campeões da Uefa, entre outros. Não é exagero dizer que a década em que ele esteve à frente da equipe consumou uma guinada no próprio jeito de jogar futebol.

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Oito anos antes de se estabelecer em Manchester, durante o verão de 2016, Guardiola já era reconhecido como um inovador. No Barcelona, onde atuou em 384 partidas como jogador, ele deu um toque mais contemporâneo ao estilo concebido pelos técnicos Rinus Michels e Johann Cruyff, que fazem parte do DNA do clube.

Pep Guardiola deixa o Manchester City depois de dez anos no comando do time inglês: legado gigantesco / City

Inspirando-se nos mestres holandeses, o modelo de jogo de sua equipe trouxe inovações na posse de bola e passes curtos e rápidos, intensa marcação sob pressão e movimentação coletiva e compactação de espaços para sustentar uma vantagem numérica constante – desequilibrar os adversários. Esses conceitos impactaram o futebol nos quatro cantos do planeta e ajudaram a Espanha a conquistar o seu primeiro título mundial, em 2010.

História no Bayern de Munique

Contratado para dirigir o Bayern de Munique, Guardiola aprimorou seus princípios de jogo durante os três anos na Alemanha. Esse foi um período em que ele empregou dez formações táticas diferentes, utilizando laterais invertidos, algumas vezes atuando sem zagueiros centrais de ofício, mas sempre com a obsessão pela posse de bola, pela incessante pressão e pelos passes curtos e precisos. Contudo, se o clube bávaro era dominante na sua terra, também é verdade que falhou em seu objetivo de conquistar a Liga dos Campeões, sendo eliminado nas semifinais em três ocasiões. Não por acaso, houve ceticismo quando o seu nome foi anunciado para substituir o chileno Manuel Pellegrini como técnico do Manchester City.

Entretanto, uma década após sua chegada ao futebol inglês, não é exagero nenhum afirmar que Pep Guardiola conseguiu impor as suas ideias no país que inventou o próprio futebol. Desde as partidas da Liga dos Campeões aos jogos de futebol amador, hoje em dia existe um pouco do seu estilo em cada equipe que pratica o esporte bretão. A começar pelo modo como os goleiros passaram a atuar. Antes de Guardiola a função deles dentro das quatro linhas se restringia a defender suas balizas com segurança, interceptar cruzamentos e pouco mais do que isso.

Revolução com os goleiros

Mas no Manchester City, os arqueiros, a serviço dele, passaram a assumir novos papéis. Tinham de ser hábeis para jogar com os pés e, assim, virarem um precioso “jogador de linha” a mais no jogo. A fama de Guardiola correu o mundo. O principal ícone dessa revolução futebolística proposta pelo treinador foi o brasileiro Ederson, exímio nesta função de saber jogar com a bola nos pés. Podia parecer estranho naqueles tempos. Mas hoje é inconcebível imaginar que um goleiro não saiba atuar assim. Com essa inovação, os times passaram a trocar passes desde a defesa. E isso abriu novas opções de jogo para eles.

Pep Guardiola fez do City um time temido na Europa e um conquistador na Premier League / Manchester City

Nas propostas que Guardiola trouxe para o Manchester City, ficou evidente que meias habilidosos e inteligentes, como ele próprio tinha sido nos seus tempos como jogador, têm um papel fundamental nos times. Esses jogadores são responsáveis por controlar e distribuir a bola, além de pressionar os adversários para recuperar o controle dela. Em outras palavras: ditam o ritmo.

Capricho na saída de bola

Graças a sua estratégia de utilizar jogadores habilidosos, a qualidade do futebol inglês evoluiu: de um jogo físico e direto, com cruzamentos e trombadas desajeitadas, agora o que se vê são triangulações, laterais que trocam de posição com os meias, da forma que ele já fazia com o alemão Philipp Lahm na época do Bayern de Munique. Outro de seus símbolos que foi assimilado pelas equipes mundo afora é o capricho na saída de bola. Como antídoto contra times que pressionam muito, o Manchester City, geralmente, constrói o jogo com passes curtos, pedindo a meio-campistas como Bernardo Silva e Rodri que recuem para receber a bola diretamente do goleiro. Essa abordagem na saída de bola foi inspirada no futebol de salão – e rapidamente copiada. Assim como a valorização da posse com triangulações rápidas.

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Não é por acaso que vários profissionais que trabalharam ao lado de Guardiola – e comungam do seu estilo de praticar futebol – estejam se destacando nos principais clubes europeus. Mikel Arteta, que foi seu ex-auxiliar técnico no Manchester City, acaba de conquistar o título da Premier League com o Arsenal. Enzo Maresca, outro de seus colaboradores mais próximos, venceu a Copa do Mundo de Clubes da Fifa com o Chelsea – e será o seu substituto em Manchester.

Pupilos de Guardiola

O novo treinador do Chelsea, Xabi Alonso, jogou sob o seu comando no Bayern de Munique, time onde o belga Vincent Kompany, que foi ex-capitão sob suas ordens, ganhou dois títulos consecutivos no Campeonato Alemão. Luis Enrique, que atuou ao seu lado no Barcelona, hoje comanda o vitorioso Paris Saint-Germain. Mais do que os vinte títulos conquistados no Manchester City ou da estátua e da arquibancada do Etihad Stadium, que receberá o seu nome, o estilo de jogo de Pep Guardiola será o grande legado dos seus dez anos no futebol inglês.

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