A barbárie vivida em Avellaneda, no jogo entre Independiente e Universidad de Chile pela Copa Sul-Americana, é mais um retrato vergonhoso do atraso do nosso futebol. Torcedores transformaram as arquibancadas em um campo de batalha, um exercício de bárbaros em pleno século 21. Era de se esperar que a Conmebol agisse de forma rápida e rigorosa, suspendendo imediatamente os clubes envolvidos e sinalizando que não há mais espaço para atitudes dessa classe. No mínimo, a suspensão da sequência na competição; idealmente, uma exclusão de torneios continentais por pelo menos dois anos. Mas até agora, nada. Apenas o silêncio.
O silêncio, contudo, não é neutro. É um silêncio covarde, que esconde o medo de assumir o ônus político que uma decisão exemplar possa gerar. Uma hora a resposta terá de ser anunciada. Como sempre, por enquanto, os dirigentes preferem os malabarismos verbais a enfrentar a realidade. A Conmebol terá perdido, mais uma vez, a chance de se mostrar uma entidade séria e confiável, capaz de proteger o futebol e a vida dos que vão ao estádio.

CBF muda a nota
Se a estudada demora da Conmebol já era grave, o movimento da CBF conseguiu ser ainda mais constrangedor. No calor dos fatos, a entidade brasileira publicou às 10 horas da manhã uma nota dura, que soava como um grito de indignação. Falava em “barbárie”, exigia “rigor total” e “punições severas”, clamava por “punições exemplares” contra os responsáveis. Um trecho deixava claro:
A barbárie da última noite (…) vai contra todos os princípios do esporte que tanto amamos. (…) A CBF pede à Conmebol rigor total na apuração (…) e que os responsáveis sejam identificados e punidos com severidade.
Parecia, enfim, que a CBF assumiria a dianteira moral no continente, puxando o debate pela responsabilização firme dos culpados. Mas bastaram algumas horas para a coragem virar covardia. Às 18 horas, a entidade divulgou nova nota, desautorizando a primeira e pedindo desculpas. O tom combativo cedeu espaço a um discurso burocrático e conciliador, quase submisso:
A CBF lamenta a forma como se deu a publicação, pede desculpas por eventuais mal-entendidos e reafirma sua confiança nas medidas que vêm sendo discutidas conjuntamente entre as entidades.
De repente, a “barbárie” virou “episódios de violência”. A cobrança de “punições exemplares” foi substituída por “diálogo transparente”. E, para completar, o comunicado ainda exaltava a relação de “respeito, admiração mútua e compromisso compartilhado” com a AFA (Federação de Futebol da Argentina), como se o mais importante fosse preservar a diplomacia entre cartolas e não a segurança dos torcedores.
Samir Xaud voltou atrás?
É difícil acreditar que a primeira nota tenha sido publicada sem conhecimento do presidente da entidade, Samir Xaud, como alegado. Mais plausível é supor que o chefe da CBF tenha sentido a pressão das federações nacionais, em especial a argentina, e recuado para não expor o Brasil a futuros constrangimentos. Afinal, se hoje a CBF pede punição exemplar, amanhã abre a porta para que os próprios clubes brasileiros sejam penalizados com rigor equivalente em casos semelhantes.

O episódio é simbólico. Mostra como a Conmebol prefere silenciar e como a CBF prefere contemporizar. É a relativização dos fatos a depender de um interesse. Ambas entidades perdem a chance de se colocar do lado certo da história: o lado da firmeza contra a violência. Samir Xaud, que se vendia como símbolo de novos tempos na cartolagem brasileira, revelou-se apenas mais do mesmo daquilo que o futebol brasileiro tem de pior — a cartolagem, que se vale do esporte para interesses e projetos pessoais de ascensão social. A única diferença aparente é a de um cartola mais jovem, pintado com verniz fresco.
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Enquanto as arquibancadas seguem sendo palco de medo, os dirigentes seguem escolhendo a conveniência política. E assim, com silêncio, desculpas e covardias, a violência continua sendo tolerada no futebol sul-americano.





