O São Paulo não vence um jogo no Maracanã pelo Brasileirão desde 2020. No último encontro entre os dois clubes naquele palco, o Fluminense aplicou um impiedoso 6 a 0 que entrou para a galeria das passagens mais vexatórias da história são-paulina. O cenário de adversidade, que poderia servir como combustível para uma reação, acabou funcionando como confirmação de que as coisas continuam fora do lugar pelos lados do Morumbi. A derrota por 2 a 1, na noite deste sábado, no Rio de Janeiro, escancarou mais uma vez um time emocionalmente abatido, tecnicamente inseguro e claramente em parafuso.
Mais do que perder três pontos, o São Paulo deixou o Maracanã encarando uma verdade dolorosa: será preciso mudar a chave urgentemente para ainda salvar a temporada. A esperança tem nome e sobrenome: Dorival Júnior.

Embora o duelo colocasse frente a frente o terceiro e o quarto colocados do Campeonato Brasileiro, o campo contou uma história completamente diferente. Só um time jogou futebol no Maracanã. O Fluminense dominou a partida do começo ao fim e transformou o São Paulo em mero coadjuvante de uma tarde festiva para o torcedor carioca.
O clube aproveitou o embalo da apresentação oficial de Hulk antes da bola rolar — recebido como astro, saudado pela torcida e ovacionado ao declarar que chegava “com fome de títulos” — para transformar o estádio em um ambiente de celebração. E o time respondeu à altura da empolgação das arquibancadas.
Sufoco incontrolável
O Fluminense tomou conta das ações desde os primeiros minutos, controlando a posse de bola, acelerando pelos lados do campo e sufocando um São Paulo excessivamente cauteloso, retraído e incapaz de competir em intensidade. Dessa maneira, o gol parecia questão de tempo e saiu aos 22 minutos, quando Canobbio foi à linha de fundo e cruzou rasteiro para a pequena área. Rafael e Lucho não alcançaram, e John Kennedy apareceu deslizando de carrinho para abrir o placar. Gol de centroavante em boa fase.
O segundo gol resumiu perfeitamente a partida ruim do São Paulo. Aos 44 minutos do primeiro tempo, a equipe errou numa saída curta de bola desorganizada. Dória errou o passe na entrada da área, Nonato interceptou e entregou de primeira para Lucho. O argentino percebeu Rafael saindo desesperado do gol, ajeitou com calma e serviu Canobbio, que soltou uma bomba para ampliar. Um presente.

Impaciência dos torcedores
É verdade que o São Paulo entrou desfalcado de peças importantes como Luciano, Calleri e Marcos Antônio. Também é verdade que Dorival Júnior ainda sequer assumiu efetivamente o comando técnico após a saída turbulenta de Roger Machado. Mas há derrotas que vão além das ausências.
O problema do São Paulo hoje parece estrutural, emocional e coletivo. O time transmite a sensação de estar atordoado, sem confiança e sem reação. Nem mesmo a mudança de treinador parece suficiente, ao menos num primeiro momento, para dissipar o peso do ambiente carregado que cerca o clube.
O diagnóstico está dado pelas circunstâncias e reforçado pelo espelho do jogo. Dorival, contratado para recolocar o time nos trilhos, terá muito trabalho pela frente. E não encontrará exatamente um ambiente de paciência. Ainda no fim do primeiro tempo, a torcida são-paulina presente no Maracanã já cantava em coro o velho e cruel protesto reservado aos momentos de humilhação: “vergonha, vergonha, time sem vergonha”.
Reação tardia
O segundo tempo pouco alterou o panorama da partida. O Fluminense seguiu confortável em campo, trocando passes, controlando o ritmo e administrando a vantagem sem grandes sustos. O São Paulo só esboçou uma reação aos 33 minutos, num lance quase fortuito. Dória, justamente ele, apareceu na área para descontar e diminuir o prejuízo, se redimindo da falha grotesca cometida no primeiro tempo. Foi pouco. Muito pouco para um time que praticamente não ameaçou a construção da vitória carioca.
Ainda houve tempo para o Fluminense marcar o terceiro com Soteldo já nos minutos finais, mas o VAR anulou o lance apontando impedimento de Castillo na origem da jogada. Nada que diminuísse a superioridade tricolor na tarde carioca. E como no futebol o jogo mais importante é sempre o próximo, a torcida do Fluminense rapidamente transformou a comemoração pela vitória em combustível para a decisão de terça-feira pela Libertadores. Jogadores e torcedores celebraram juntos enquanto das arquibancadas ecoava o recado: “É guerra! Terça-feira é guerra!”.
A vitória consolida o time carioca na terceira colocação e mantém viva a perseguição a Palmeiras e Flamengo no topo da tabela. Já o São Paulo deixa o Rio estacionado nos 24 pontos, ameaçado de perder várias posições ao longo da rodada e mergulhado numa crise que mistura futebol ruim, pressão externa e turbulência política.
Em meio ao caos administrativo, um áudio vazado do presidente Henry Massis ajudou a aumentar a sensação de desalento no clube. “Não temos dinheeeeeiro!”, reclamou o dirigente em conversa privada com um conselheiro, numa frase que virou símbolo involuntário do tamanho do problema.
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Dorival Júnior conhece o Morumbi como poucos. Foi dele o comando do último grande momento do clube, na conquista da Copa do Brasil de 2023. Agora retorna com a missão de reorganizar um time perdido e reconstruir minimamente a confiança de um ambiente esgotado. O problema é que o calendário não espera, a pressão aumenta a cada rodada e, no São Paulo de hoje, parece não existir mais sequer um dia de paz.





