Nova York – Em 2018, na concorrida entrevista coletiva na véspera da final da Copa do Mundo entre França e Croácia, no Estádio Luzhniki, em Moscou, fiz uma pergunta a Luka Modric: como a Guerra Civil que eclodiu na Iugoslávia havia forjado uma geração de jogadores croatas, que, como ele, tinha crescido em meio ao conflito. No início dos anos 1990, com seis anos, Modric e sua família tinham de lutar, literalmente, pela sobrevivência. Naqueles tempos, partes do país estavam mergulhadas em uma violenta guerra de secessão, que acabou dividindo a nação.
E os Modric foram diretamente atingidos pelo conflito. Seu avô, Luca, foi executado por milicianos sérvios com outros cinco anciãos. A casa da família, na cidade de Zaton Obraki, foi destruída e incendiada pelos rivais. Para escapar da morte, a família fugiu para Zadar, na costa croata, onde eram frequentes os bombardeios também. Refugiados, eles viveram durante quase seis anos em hotéis baratos. “Esta guerra fez de mim e dos meus companheiros pessoas mais resilientes”, me respondeu.

Foi dessa forma que o futebol entrou na vida de Modric: pela sobrevivência. O garoto descobriu que tinha habilidade e não se “cansava”. Aos 40 anos, com a derrota da Croácia para Portugal, o melhor jogador do país dá adeus aos torneios da Fifa.
Dono da bola e do campo
Considerado como um dos mais técnicos meias da história do futebol e o maior jogador da Croácia, Modric tem marcas superlativas em sua carreira. Líder incontestável em todas as equipes em que atuou, conquistou tudo e mais um pouco. Só no Real Madrid, foram 28 troféus.

Hábil nos dribles e nos passes, com os dois pés, ele ajudou a levar a seleção de seu país a um outro patamar. Sob seu comando, a Croácia conquistou o vice-campeonato mundial em 2018. Naquela Copa do Mundo disputada em território russo, o garoto franzino foi eleito o melhor jogador do torneio.
Em 2022, quatro anos mais tarde, teve uma atuação de gala no jogo em que os croatas eliminaram o Brasil nas cobranças de pênaltis. E ajudou a colocar a Croácia no pódio, com o terceiro lugar. Neste Mundial, saiu do seu pé direito a cobrança de escanteio que foi direto para a cabeça do atacante Nikola Vlasic, que garantiu a vitória sobre Gana, por 2 a 1.
SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
Nenhum outro jogador croata vestiu mais do que Modric a camisa quadriculada da seleção. O jogo contra Portugal desta quinta foi o de número 202 em que atuou desde que estreou em um amistoso contra a Argentina, em Basel. Naquele dia, o meia magricela, então com 20 anos, vestiu o número 14. O camisa 10 era de Nico Kovac. “Na sua estreia, Modric atuou com técnica refinada e simplicidade, como se já fosse um veterano”, lembra-se o atacante Jerko Leko, que também esteve em campo naquele jogo. Por trás dos seus 66 quilos, Modric sempre deu pinta de que seria um jogador muito especial.





