O Neymar capaz de atropelar defesas, arrancar do meio-campo e decidir uma partida praticamente sozinho ficou no passado — não dá mais para negar essa evidência. As lesões, a idade e a falta de sequência impedem que o camisa 10 volte a ser aquele fenômeno que encantou Santos, Barcelona e Seleção Brasileira. Mas existe uma qualidade que nem o tempo conseguiu roubar: a capacidade de resolver um jogo em um único instante de inspiração.
Foi exatamente isso que aconteceu na noite desta terça-feira, no Mangueirão, em Belém. Depois de cinco anos, o Santos voltou a figurar entre os oito melhores times da Copa do Brasil. E deve essa classificação, conquistada com a vitória por 1 a 0 sobre o Remo, a um único lance de Neymar. O camisa 10 entrou apenas no segundo tempo, teve atuação discreta, foi muito bem marcado e voltou a demonstrar que ainda está distante da melhor condição física. Bastou, porém, uma jogada de sua autoria para mudar o destino da partida.

Neymar faz a diferença
Aos 28 minutos da etapa final, Neymar ganhou uma dividida com Zé Welison pela ponta esquerda, protegeu a bola, acelerou em direção à área e, com a tranquilidade de quem enxerga o jogo um segundo antes dos demais, ergueu a cabeça para encontrar a infiltração de Rony. O centroavante apenas empurrou para as redes. Gol de Rony. Meio gol de Neymar.
Nem dá para dizer que ele desequilibrou a partida. Mas bastou esse lance para decidir um jogo amarrado e garantir uma classificação que devolve ao Santos um mínimo de esperança para a sequência da temporada porque, convenhamos, o cenário santista continua preocupante na temporada. A Copa do Brasil passou a representar praticamente o único caminho para transformar um ano de frustrações em uma temporada minimamente digna.
A classificação às quartas de final não veio acompanhada de uma atuação convincente. Muito pelo contrário. Depois do empate sem gols na Vila Belmiro, o Santos enfrentou um Remo que jogou com um homem a menos desde os 27 minutos do primeiro tempo, quando Anderson Daronco, após revisão no VAR, transformou o cartão amarelo aplicado a Marllon em vermelho direto. Mesmo com enorme vantagem numérica durante praticamente uma hora de partida, o time santista demorou para impor sua superioridade. Teve mais posse de bola, controlou territorialmente o confronto, mas mostrou, outra vez, dificuldades para transformar domínio em chances claras.
Dois tremendos sustos
Na volta do intervalo, Cuca lançou Neymar e Rony justamente para aproveitar o espaço deixado pelo adversário. Ainda assim, o primeiro grande susto foi do Remo. Aos dez minutos, Zé Welison acertou um potente chute de fora da área, Gabriel Brazão desviou com a ponta dos dedos e a bola explodiu na trave. A essa altura, o Santos já tinha 72% de posse de bola. Faltava apenas transformar superioridade estatística em gol. E isso aconteceu graças à combinação entre seus dois reforços da etapa final.
Depois da assistência decisiva, Neymar ainda teve a oportunidade de encerrar qualquer possibilidade de sofrimento. Aos 45 minutos, recebeu lançamento de Gabriel Menino, saiu completamente livre diante do goleiro e tentou marcar com uma cavadinha. Exagerou no preciosismo. A bola passou à direita da meta, sob fortes vaias da torcida paraense, que o perseguiu durante toda a partida, tanto quando tocava na bola quanto nas inúmeras vezes em que foi ao chão após disputas físicas.
Como nada é simples para este Santos, o Remo quase puniu o desperdício nos acréscimos. Aos 46 minutos, Vitor Bueno cobrou uma falta diretamente para o gol e acertou o travessão de Gabriel Brazão. Foi o último grande susto antes da confirmação da classificação santista.

Rony, cria do Remo
No fim, o herói da noite acabou sendo justamente um velho conhecido da torcida azulina. Paraense de nascimento e revelado pelo próprio Remo, Rony deixou o gramado emocionado após marcar o gol que eliminou o clube onde iniciou sua trajetória no futebol. “Uma noite mágica, especial. Passa pela cabeça um filme de toda a luta que passei. Tive o privilégio de brilhar novamente neste estádio, diante dessa torcida. É uma felicidade voltar a jogar aqui. Me sinto um cara abençoado por Deus. Nunca perdi a fé. Também preciso agradecer a assistência do Neymar. É um sonho jogar ao lado de um grande ídolo”, afirmou o atacante.
SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin
Se a atuação esteve longe de empolgar, a classificação vale muito mais do que o desempenho. Graças a um raro momento de inspiração de Neymar, o Santos volta às quartas de final da Copa do Brasil depois de cinco anos e mantém acesa a esperança de encontrar, no torneio mais democrático do país, a redenção para um ano que, até aqui, tem sido muito mais de sofrimento do que de celebração.





