14 de abril de 2026. A data deveria ser de celebração. Um marco festivo pelos 114 anos do Santos Futebol Clube, evocando lembranças de um passado glorioso — daquele time que ensinou o mundo a jogar futebol, que transformou o esporte em arte sob o comando do eterno Rei Pelé. Mas o tempo, impiedoso e cruel tratou de inverter o roteiro. O que era orgulho virou lembrança. O que era referência virou arquivo. O Santos de hoje não passa de um recorte de jornal amarelado, esquecido num canto, cheirando a mofo.
Poucas vezes esse abismo entre passado e presente se fez tão evidente quanto na noite desta terça-feira, na Vila Belmiro. Pela segunda rodada da Copa Sul-Americana, o empate em 1 a 1 com o desconhecido Recoleta, do Paraguai — que fazia sua primeira partida internacional da história — não é apenas um tropeço. É um constrangimento histórico. Um daqueles resultados que envergonham a torcida e mancham biografias.

E não se trata de exagero. O Recoleta já seria, por si só, um adversário frágil. Mas o que se viu em campo beirou o inacreditável: um time recheado de reservas, improvisado, quase amador em sua composição. Um dos atacantes era simplesmente o filho do presidente. Sim, isso mesmo. E como se não bastasse, o próprio dirigente, Luis Vidal, aos 52 anos, cogitou entrar em campo.
Jogador mais velho no seu país
Inscrito de forma provisória, aguardava apenas uma autorização da Conmebol para, quem sabe, dividir o gramado com Neymar. Dono do recorde de jogador mais velho a atuar na primeira divisão paraguaia, alcançado na última temporada, Vidal transformou o que já era insólito em algo próximo do surreal. Faltou pouco para o absurdo ser completo. Mas o mísero empate já era suficiente para marcar noite para esquecer.
Diante desse cenário, não havia qualquer espaço para festa. Depois da derrota na estreia para o Deportivo Cuenca, no Equador, o Santos conseguiu a proeza de somar apenas um ponto em dois jogos e já compromete seriamente suas chances de classificação — ainda mais em um formato em que apenas o primeiro colocado de cada grupo avança diretamente ao mata-mata.
Difícil de acreditar
O início da partida, é verdade, ensaiou um roteiro mais digno. Neymar abriu o placar logo cedo, após belo passe de Gabigol, e, por alguns minutos, a Vila acreditou que a noite de aniversário seguiria o script esperado. Havia, inclusive, a expectativa de que o camisa 10 transformasse o jogo em palco para sua afirmação pessoal — mais um capítulo de sua tentativa de convencer Carlo Ancelotti de que ainda merece um lugar na seleção para a Copa de 2026. Mas foi só ilusão.
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Neymar até produziu alguns lampejos de lucidez, mas acabou engolido pelo vazio coletivo de um time sem rumo. O empate, num pênalti convertido no fim do primeiro tempo, veio como punição merecida. Se dependesse da atuação desta noite, o recado para Ancelotti foi claro: ainda falta muito. Talvez falte tudo para Neymar.
No dia em que deveria celebrar sua história, o Santos foi obrigado a encarar sua própria decadência. Entre o brilho eterno de Pelé e a mediocridade do presente, o que se vê não é apenas uma diferença de gerações — é um abismo. E, pior, um abismo que parece cada vez mais difícil de atravessar.
Discussão com torcedor
Neymar relativizou as vaias da torcida, disse que o time jogou bem e só lamentou as chances criadas e não convertidas em gol. “Não jogamos mal, não. Mas entendo a frustração da torcida pelo resultado”, analisou. Depois da entrevista, na saída dos jogadores, Neymar foi chamado de “mimado” por um torcedor no caminho para os vestiários e foi tirar satisfação. “Você acha que eu sou culpado?”, questionou o jogador, visivelmente irritado com as cobranças. Definitivamente aquele clima de lua-de-mel entre o craque a galera já não existe mais.





