Há uma evidente desconexão entre o espetáculo que foi Espanha 5 x 4 França, pela semifinal da Copa das Nações da UEFA, e o sonolento Equador 0 x 0 Brasil, válido pelas Eliminatórias Sul-Americanas para a próxima Copa do Mundo. Congelar frames das duas partidas, com foco nas virtudes e nos defeitos de cada uma, é um exercício cruel. Quase uma covardia. O abismo técnico, tático e de intensidade é tão gritante, que, por vezes, parece até que estamos falando de esportes diferentes.

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E é nesse contexto que Carlo Ancelotti, multicampeão italiano, referência do futebol europeu, estreou no comando da seleção brasileira na noite desta quinta-feira, em Guayaquil, no Equador. Para alguém habituado ao virtuosismo dos clubes e seleções do Velho Continente — organização, disciplina tática, intensidade e excelência técnica —, o choque de realidade foi inevitável. Ancelotti foi apresentado, de forma direta e sem filtros, às mazelas do futebol sul-americano, especialmente quando se trata do Brasil atual.

Primeira formação de Carlo Ancelotti na seleção brasileira, com Estevão de titular e Marquinhos como capitão / CBF

Imaginem o que não passou por sua cabeça ao ver um gandula, um supervisor da Conmebol e até um jogador do Brasil se revezando na prosaica tarefa de enfiar o pau da bandeirinha de escanteio no gramado do estádio equatoriano. Seria só prosaico se não fosse patético.

Os desafios de Ancelotti

Enfim, a era Ancelotti está só começando. Tomara que o italiano consiga, no médio prazo, implantar uma cultura diferente no nosso futebol. Um estilo de jogo mais moderno, alinhado às tendências dos melhores trabalhos internacionais, com um padrão tático claro, uma ideia de jogo reconhecível e uma equipe que jogue mais coletivamente do que na dependência de lampejos individuais.

É verdade que, com apenas três treinos com o grupo completo da sua primeira convocação, não se poderia esperar uma revolução imediata. Havia, sim, expectativa por alguns ajustes pontuais — e eles apareceram, em doses tímidas. Ancelotti deixou claro que sua escolha é por um time mais ofensivo, adotando um clássico 4-3-3. Uma decisão que, por si só, já representa um avanço em relação ao caos tático que a seleção viveu nos últimos meses.

Falta de talento no meio

Mas é inegável que, olhando para o que foi o jogo, a seleção que estreou sob o comando de Ancelotti e a que vinha sendo dirigida por Dorival Júnior têm praticamente o mesmo DNA: pouco volume de jogo, dificuldades enormes na criação e, sobretudo, uma desconexão preocupante entre setores.

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O trio de meio-campo escalado — Casemiro, Gerson e Bruno Guimarães — esbarrou na ausência de um talento diferenciado, alguém capaz de pensar o jogo, quebrar linhas e criar situações ofensivas. Faltou cérebro e qualidade na última bola. Faltou futebol.

Carlo Ancelotti em sua primeira partida no comando da seleção brasileira: 0 a 0 contra o Equador / CBF

E, por mais doloroso que seja admitir, pelo que foi o jogo, esse empate foi, sim, um bom negócio. A seleção equatoriana, hoje, é taticamente superior à brasileira. Um time mais organizado, que mais buscou a vitória.

Ancelotti terá muito trabalho

Ancelotti sai da estreia com uma certeza: terá muito trabalho pela frente. Não será simples, não será rápido, e talvez não seja suficiente para colocar o Brasil no mesmo patamar das principais potências europeias no curto prazo.

Na terça-feira, em Itaquera, contra o Paraguai, a obrigação é vencer para confirmar a classificação. Mas, muito além dos três pontos, o que o torcedor espera — e o que o futebol brasileiro precisa — é começar a ver em campo uma seleção que tenha uma ideia. Que tenha uma cara. Que tenha, finalmente, a assinatura de Carlo Ancelotti.

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