O avião vip de R$ 1,2 bilhão que partiu do Brasil rumo aos Estados Unidos no dia 1º de junho, em festa, cheio de pompa e esperança, levando a delegação para o sonho do hexa, voltou na madrugada desta quarta-feira ao Rio de Janeiro quase de forma clandestina, num pouso na madrugada, sem festa, sem alarde e sem vergonha. Dos 26 convocados, apenas um jogador estava na aeronave, ao lado de funcionários de segundo escalão do estafe da CBF: o lateral Danilo, morador do Rio e jogador do Flamengo.

Tudo sobre a Copa de 2026

Os outros 25, com o aval da CBF, se sentiram desobrigados de passar por esse dissabor e preferiram tomar outros destinos, a partir de Nova York, para curtir a vida, como se nada tivesse acontecido. Obviamente, como trabalhadores, todos eles merecem descanso depois de uma jornada de 40 dias de concentração, preparação e jogos disputados sob um clima pesado de tensão e cobranças. Mas o fato de não voltarem para o Brasil da mesma forma que saíram diz muito sobre a falta de unidade do grupo, a falta de compromisso com o coletivo e a total falta de conexão desses jogadores com o povo brasileiro.

Sede da CBF, no Rio: sem protocolo para a volta do Brasil da Copa do Mundo, debandada foi geral / CBF

Completamente diferente de seleções como Cabo Verde, por exemplo, que chegou em seu país e foi carregada nos ombros pelo povo que estava à sua espera no aeroporto para lhes dizer “muito obrigado” e expressar o orgulho nacional pela performance dos jogadores na Copa. Assim como o Brasil, eles também não ganharam a taça, mas enfrentaram a derrota com outra postura e a viveram em outra realidade.

Jogadores mimados

Os jogadores do Brasil vivem uma realidade paralela, são mimados, tratados como pedras preciosas que não podem sofrer arranhões. Não aceitam derrotas com naturalidade e sempre se põem na defensiva quando a atmosfera não é de elogios, abraços e sorrisos. De modo geral, não sabem perder. E poucos têm estatura para enfrentar situações adversas.

Lamentável também que o técnico Carlo Ancelotti não estivesse no voo de volta ao Brasil. Ele foi para o Canadá, onde mora a sua mulher. Contrariou a ideia de que o capitão é o último que abandona o barco em caso de naufrágio, e preferiu remar sozinho na direção de um porto seguro. Voltou para casa sem ter a obrigação de prestar esclarecimentos para o povo brasileiro e responder perguntas que questionam porque o seu trabalho não deu certo.

Ancelotti também pegou o primeiro avião para se mandar da delegação e entrar de férias sem pisar no Brasil / CBF

Não foi a primeira vez que isso aconteceu com os jogadores da seleção. Pelo contrário. Essa fuga estudada e planejada já virou rotina: quando perde, a seleção se desintegra num passe de mágicas e cada um vai para o seu lado curtir a vida boa que os altos salários do futebol lhes oferecem.

Fica o distanciamento do torcedor

Talvez a culpa seja da CBF, que não impõe no protocolo das convocações essa condição de obrigatoriedade de ir e voltar no mesmo avião, todos juntos, uniformizados, liderados pelo chefe nas vitórias e nas derrotas. Deveria fazer parte da obrigação dos convocados essa prestação de contas sobre o desempenho apresentado, sem que isso significasse uma inquisição pública. Mas não dá para esperar muito da CBF. A entidade sempre adotou uma postura de proteção aos jogadores e fingiu ignorância à fragilidade de seus dirigentes, alguns mais preocupados em questões comerciais do que esportivas. Não à toa diz-se por aí que a CBF não gosta de futebol.

O fato é que mais uma vez a seleção brasileira reafirma o seu distanciamento e a falta de conexão com o povo, o país e o próprio futebol brasileiro. Desde que o escrete nacional passou a ser mero hospedeiro de jogadores milionários que vivem seu dia a dia na Europa, a sintonia foi se perdendo de forma que nem mesmo a torcida tem mais força para protestar. Lamentável que o que saiu daqui sob o epíteto de voo da alegria, tenha virado o voo da vergonha no trecho de volta.

SIGA THE FOOTBALL
Facebook
Instagram
Linkedin

O fracasso esportivo de uma seleção nacional não se mede apenas pelo placar. Mede-se também pela capacidade de permanecer unida diante da frustração, de encarar o desapontamento coletivo e de dividir com a torcida o peso da queda. Ao final dessa viagem melancólica, talvez aí resida o maior desafio do futebol brasileiro pós-Copa: reconstruir pontes. Não bastam campanhas publicitárias, slogans ou cerimônias cuidadosamente produzidas. É preciso recuperar gestos simples de unidade, responsabilidade e proximidade. O verdadeiro reencontro com a torcida só ocorrerá quando a camisa voltar a representar, acima de tudo, um compromisso compartilhado. Afinal, se as vitórias não encantam, é na maneira de enfrentar as derrotas que se revela o caráter de uma equipe.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui