A noite desta segunda-feira entra para a história política do Sport Club Corinthians Paulista como um raro momento em que o clube resolveu finalmente romper com uma cultura de impunidade que há décadas sufoca o futebol brasileiro. Ao decidir pela expulsão do ex-presidente Andrés Sanchez do quadro associativo, o Conselho Deliberativo deu um passo duro, corajoso e necessário na direção de algo que o Corinthians há muito tempo devia a si mesmo: reafirmar que nenhuma figura política, por mais poderosa ou influente que seja, pode se colocar acima da ética, da responsabilidade e da própria instituição.
Na votação desta noite no Parque São Jorge, dos 167 conselheiros que compareceram, 112 votaram pela expulsão e 49 foram contra. Houve ainda seis abstenções.

Mais importante do que qualquer impacto imediato dentro de campo, a decisão possui um caráter simbólico gigantesco. O que estava em jogo não era apenas o futuro político de Andrés, mas sim a oportunidade de o Corinthians estabelecer um limite claro contra práticas que durante anos foram naturalizadas nos bastidores do futebol brasileiro.
Farra com dinheiro do clube
Segundo o relatório da Comissão de Ética, o ex-presidente utilizou o cartão corporativo do clube para despesas pessoais, em valores que, corrigidos, ultrapassariam R$ 480 mil entre 2018 e 2021. O parecer classificou os fatos como incompatíveis com os deveres ético-institucionais do cargo máximo do clube e apontou danos à credibilidade da instituição. Mas talvez o aspecto mais importante dessa decisão não esteja sequer na dimensão financeira do caso. O peso verdadeiro está no precedente.
Durante décadas, o futebol brasileiro conviveu com dirigentes que administravam clubes como se fossem propriedades privadas. Cartolas protegidos por grupos políticos, cercados por aliados, blindados por conselhos domesticados e por estruturas associativas fechadas, criadas justamente para dificultar investigações profundas, cobranças reais e prestações de contas transparentes. O Corinthians, desta vez, escolheu romper parcialmente com essa lógica. E isso tem um valor institucional enorme.
Remédio necessário
A punição de Andrés funciona como uma espécie de profilaxia moral. Um recado não apenas aos dirigentes do passado, mas também aos do presente e do futuro: o cargo de presidente não concede salvo-conduto para transformar recursos do clube em benefício pessoal. O peso da camisa corintiana não pode servir de escudo para comportamentos incompatíveis com a responsabilidade que o posto exige.
A própria linha de defesa apresentada pelo ex-presidente ajuda a revelar o tamanho da distorção cultural existente no futebol brasileiro. Alegar ausência de dolo por falta de regras mais claras sobre o uso do cartão corporativo talvez seja justamente o retrato da permissividade que tomou conta dos bastidores do esporte ao longo dos anos. Como se a inexistência de uma norma detalhada pudesse justificar o uso privado do dinheiro de uma instituição do tamanho do Corinthians.
É exatamente dessa mentalidade que nasce a sensação de impunidade que há tanto tempo acompanha os cartolas brasileiros. A sensação de que tudo pode ser resolvido politicamente. Contornado nos bastidores. Relativizado entre aliados. Absorvido pelo clube sem maiores consequências.
Ao condenar Andrés, o Corinthians manda um sinal raro de maturidade institucional. Mostra que, ao menos desta vez, o interesse do clube falou mais alto do que conveniências políticas, fidelidades históricas ou alinhamentos de grupo.

Ética acima de tudo
Tomara que a decisão produza efeitos duradouros. Porque o Corinthians só conseguirá iniciar uma reconstrução verdadeira — administrativa, moral e financeira — quando deixar claro que ninguém é maior do que a instituição. Nem ex-presidente, nem corrente política, nem grupo de poder.
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O Corinthians pertence à sua torcida, à sua história e à dimensão popular que construiu ao longo de mais de um século. E justamente por isso não pode jamais aceitar que interesses pessoais se confundam com os interesses do clube.





