Depois de temporadas tingindo as meias de barro em gramados que mais pareciam potreiros, o convite para defender a Ponte na Série B atiçou ouriços no estômago de Jerônimo. Seria visto no Sportv por gente que não só amigos e família, defendendo cores centenárias, jogando por um time pelo qual as pessoas realmente se importam, e não essas agremiações de cidade pequena, meras distrações para torcedor sem dinheiro para ir ver seu clube do coração na capital.

Mais crônicas do Fabrício

Algumas semanas atrás, quando aterrissou em Campinas vindo direto de Bagé, deixava o devaneio se esticar ao longe, como a vista dos campos na fronteira com o Uruguay. É um 8 com recursos de luxo para quem costumava contratá-lo: marca com valentia, dá passes com açúcar e, sem a sabotagem de buracos enlameados, chuta de meia distância com potência e precisão. Não à toa tirava onda de artilheiro também.

TALENTO EM DESALINHO COM O TEMPO E O ESPAÇO

É uma tragédia quando o talento desabrocha em desalinho com o tempo e o espaço, pensa Jerônimo. A Ponte para a qual imaginou ter sido contratado, sólida, digna no infortúnio e esperançosa da glória, não mais existe. Essa, de 2026, é uma instituição falimentar e, como é de praxe quando o dinheiro escasseia, confusa. Treinadores caem como as folhas das árvores do bairro Jardim Proença, onde o estádio Moisés Lucarelli resta silencioso, como uma capela mortuária. Chegou no fim da festa e, involuntariamente, desenvolve trabalho voluntário na Macaca. Há seis meses não vê a cor do salário.

Jerônimo agora está matutando o que lhe toca nisso tudo. O futebol brasileiro tanto fez que destroçou a competitividade. Hoje, só dois clubes disputam o Brasileirão. Os demais agonizam, pedindo migalhas em bets e gastando mal, num desespero que, ladeira abaixo, soterra clubes como a Ponte. Nesse mar revolto, se agarram em boias jogadas por SAFs de procedência duvidosa, como quem busca se livrar do afogamento entregando a própria história e tudo o que dá sentido a uma existência.

CORRENDO MAIS, MARCANDO MAIS, CHUTANDO MELHOR

Enquanto amarra a chuteira dividido entre treinar ou não, lembra da falta de clima para responsabilidades estruturais quando cada brasileiro está convencido por coaches picaretas que pode, sozinho, vencer a maldade do mundo. E, se fracassa, é culpa da preguiça. Jerônimo se amargura, foi educado num país onde grevista é tratado como vagabundo. Agora, seis meses sem salário, começa a desconfiar de que talvez haja coisas que um homem não consiga consertar correndo mais, marcando mais, chutando melhor. E ele, que ganha a vida no equilíbrio entre o ataque e a defesa, já não sabe para que lado correr.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui