João Martins assumiu o Palmeiras no clássico com o São Paulo e, depois da vitória por 2 a 0, comentou sobre a ausência do chefe Abel Ferreira. O auxiliar lamentou a suspensão do treinador e tentou contextualizar o episódio do chute no microfone fazendo uma reflexão sobre o futebol e a sociedade. Mas a declaração deixou uma pergunta: será que João Martins ainda não entendeu por que Abel foi punido?

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“Nenhum de nós gosta de ficar sem o nosso líder e comandante. Nem a comissão nem os jogadores e nem o clube”, afirmou João Martins. Em seguida, recorreu a uma lembrança acadêmica para explicar sua visão. “Na universidade, tive uma disciplina que era História do Esporte”, e citou um estudo segundo o qual “o futebol é a cara da sociedade”. O problema é que a discussão não deveria ser sobre o fato de o futebol representar a sociedade. Claro que representa. Ainda bem que ele aprendeu isso. O futebol brasileiro reproduz virtudes, defeitos, comportamentos, paixões e até problemas que existem fora dos estádios. Mas isso não significa que tudo possa ser justificado porque faz parte da sociedade. Se o futebol é um espelho da sociedade, também pode e deve ser um ambiente de transformação de comportamentos.

Abel não foi suspenso por reclamar de uma decisão da arbitragem, por gesticular ou por demonstrar irritação. O técnico foi punido porque chutou deliberadamente um microfone à beira do campo. Revoltado que estava naquele dia. O STJD enquadrou a atitude no artigo 258 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que trata de conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva. É isso, João. A pena, que era de dois jogos, acabou aumentada para três. E Abel ainda ficará fora dos jogos do Palmeiras contra Grêmio e Bahia. Ou seja, ele atrapalhou o time e o clube porque agiu mal.

Falou bobagem

E existe um detalhe que João Martins talvez devesse considerar antes de transformar a punição em uma discussão sociológica e condenar o Brasil, onde vive há mais de cinco anos e ganha o seu sustento. Abel é reincidente. O treinador já acumulava outras suspensões neste ano, e a própria defesa do Palmeiras reconheceu no julgamento que o comportamento explosivo do português é uma questão conhecida. E condenada pelos próprios palmeirenses. O tribunal, portanto, não analisou um episódio isolado sem contexto.

Ninguém está dizendo que Abel é um monstro, como bem lembrou o seu advogado, André Sica. Nem que ele matou alguém. Pelo contrário. Abel é um treinador competente, multicampeão e talvez o profissional mais importante da história recente do Palmeiras. Mas uma coisa não elimina a outra. Ele também é desequilibrado em alguns momentos, como já admitiu. Ser um grande treinador não dá a ele licença para ultrapassar limites. O Brasil e o futebol têm regras. E a grandeza de um comandante deveria ser medida pela capacidade de reconhecer quando erra.

Abel é a cara da sociedade?

Mas João Martins tem razão quando diz que ninguém no Palmeiras gosta de ficar sem seu líder. A ausência de Abel prejudica o time, especialmente em uma temporada em que o clube disputa três competições. Ele precisa saber que suas atitudes têm consequências para todo o grupo. O Palmeiras não perde apenas a presença de Abel no banco; perde também porque o próprio Abel criou a situação que levou à suspensão.

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O futebol pode, sim, ser a cara da sociedade. Mas não precisa ser a cara de seus piores comportamentos. Se jogadores, treinadores e dirigentes sabem que milhões de pessoas acompanham suas atitudes, também precisam entender que são referências. Chutar um microfone pode parecer um ato pequeno quando comparado a uma agressão física. Mas normalizar pequenos atos de descontrole é o caminho para transformar o mau comportamento em algo aceitável. O STJD não aceita isso. Abel tomou uma decisão errada, foi julgado por ela e, desta vez, terá de pagar a conta.

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