Há jogos que parecem escritos para negar finais simples. Holanda e Marrocos entregaram, em Monterrey, no México, uma dessas partidas em que cada detalhe parecia empurrar a história para um lado diferente. Durante quase toda a noite, o Marrocos foi o time que quis mais a bola, ocupou melhor o campo, empurrou a Holanda para trás e jogou com a urgência de quem não queria apenas sobreviver. Mas, por muito tempo, esbarrou no goleiro Bart Verbruggen. Neste roteiro com tantas idas e vindas, os “deuses” do futebol premiaram a equipe que teve mais apetite de vencer. Os marroquinos saíram atrás, buscaram o empate, por 1 a 1, repetiram o mesmo nas penalidades, mas conseguiram o triunfo, por 3 a 2, e a vaga nas oitavas de final.

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O goleiro Verbruggen fez de tudo para transformar a classificação em milagre laranja. No tempo normal, já havia sustentado a Holanda quando o Marrocos cresceu no jogo. Na prorrogação, quando os Leões do Atlas cercavam a área adversária, Verbruggen apareceu de novo, com uma defesa enorme diante de Rahimi, usando mão, perna, reflexo e instinto para evitar o gol que parecia maduro. Foi a atuação de um arqueiro que, por muitos minutos, jogou contra o roteiro.

Marrocos Saibari faz o gol na última penalidade e parte para a festa marroquina da classificação às oitavas
Saibari anota o gol na última cobrança de penalidade e parte para a festa marroquina da classificação às oitavas / Fifa

É muito mais que futebol

Do outro lado, o drama tinha nome e sobrenome: Cody Gakpo. Dias depois de viver a dor da perda do filho durante a gestação, o atacante entrou em campo carregando algo muito maior do que uma camisa. E, aos 27 minutos do segundo tempo, teve tudo para virar o herói absoluto da noite. Quando marcou o gol da Holanda, a partida ganhou uma camada humana que ultrapassava qualquer análise tática. Era impossível olhar para aquele lance apenas como futebol.

Só que o futebol, quase sempre, se recusa a respeitar roteiros prontos. A Holanda recuou demais. Tentou administrar um placar frágil contra um adversário que ainda tinha pernas, arquibancada e fé. O Marrocos seguiu tentando. Circulou a bola, buscou os lados, insistiu pelo alto e, já nos acréscimos, encontrou o gol que merecia. Aos 46 minutos do segundo tempo, Issa Diop apareceu na área e cabeceou para empatar. O que parecia eliminação virou sobrevida.

Marrocos em casa

Na prorrogação, a sensação ficou ainda mais clara: o Marrocos estava mais perto da vitória. A Holanda, que havia chegado ao mata-mata embalada por uma sequência histórica sem derrotas no tempo de jogo em Copas, parecia jogar contra o relógio. Os marroquinos, empurrados por uma torcida que fez de Monterrey um pedaço de Casablanca, davam a impressão de que entendiam melhor o tamanho emocional da partida.

Ainda assim, vieram os pênaltis. E aí a história voltou a brincar com Verbruggen. Na cobrança de Rahimi, o goleiro holandês chegou na bola, tocou nela e parecia ter feito a defesa. Mas o destino escolheu a crueldade: a bola escapou, bateu no próprio corpo do goleiro e cruzou a linha. Era o retrato perfeito da noite holandesa. Até quando acertava, algo saía errado.

A Holanda, que já havia sido eliminada nos pênaltis nas Copas de 2014 e 2022, voltou a cair da maneira mais amarga possível. Tecnicamente, a sequência sem derrota no tempo de jogo segue de pé, porque derrotas em disputas de pênaltis entram como empate para esse tipo de estatística. Mas isso não consola ninguém. A Holanda foi eliminada sem perder no tempo de jogo e ampliou para 16 partidas sua sequência invicta em Copas do Mundo, na soma das edições de 2014, 2022 e 2026. A marca, porém, tem um detalhe cruel: três dessas partidas terminaram em quedas nos pênaltis — contra Argentina, Argentina de novo, e agora Marrocos.

Marrocos Diop comemora o gol de empate no final do segundo tempo
Com Rahimi às suas costas, Issa Diop comemora o gol de empate de Marrocos no final do segundo tempo / Equipedumaroc

Justiça a quem jogou mais

Para o Marrocos, a vitória teve sabor de justiça. Não foi acaso. Foi insistência, posse de bola transformada em pressão, presença ofensiva convertida em esperança e maturidade nos pênaltis quando o jogo já parecia decidido por nervos. Bounou também fez a sua parte, parando Summerville no momento mais importante da série, antes de Saibari bater o pênalti que colocou os Leões do Atlas nas oitavas. No próximo sábado, os marroquinos encaram, como favoritos, o Canadá. O duelo por vaga às quartas de final acontece em Houston, nos Estados Unidos, às 14h (horário de Brasília).

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No fim, a classificação marroquina teve tudo o que uma Copa costuma guardar para suas noites inesquecíveis: um goleiro gigantesco derrotado pelo próprio azar, um atacante tentando transformar dor em redenção, um zagueiro improvável salvando um país no último suspiro e uma torcida que nunca deixou o time cair. O Marrocos avançou porque jogou mais. Mas, sobretudo, porque acreditou até quando a Holanda já achava que tinha sobrevivido.

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