A torcida do Santos já não se ilude. No íntimo, sabe que o segundo semestre reserva uma batalha muito mais próxima da luta contra o rebaixamento do que de qualquer sonho de título ou mesmo de classificação para a Libertadores. A esperança virou um artigo de luxo na Vila Belmiro. O que resta é uma certeza desconfortável: por pior que seja o cenário, tudo ainda poderia ser muito mais dramático se Neymar não estivesse ali.
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Essa novela de dor, agonia e sofrimento ganhou mais um capítulo na noite deste sábado. O empate por 2 a 2 com a Chapecoense, dentro da Vila, deixou um gosto amargo para todos. Até os 42 minutos do segundo tempo, o Santos caminhava para uma derrota que seria histórica pela dimensão do vexame. A Chapecoense, que conquistara sua única vitória no campeonato justamente sobre o próprio Santos, na rodada de abertura, estava prestes a repetir a dose. Foi então que Neymar apareceu mais uma vez. Cobrou um pênalti com a categoria habitual, marcou seu segundo gol na partida e evitou um desastre ainda maior.

O empate, porém, não resolve absolutamente nada. Apenas impede que a crise ganhe contornos ainda mais dramáticos. A reação tímida no fim do jogo não apagou as vaias que ecoaram das arquibancadas. Pelo contrário. Elas traduziram o sentimento de uma torcida que já não consegue enxergar um horizonte diferente.
O que esperar do Santos?
A pergunta continua sendo inevitável: o que esperar desse time? A tabela oferece uma resposta cruel. O Santos inicia o segundo turno com apenas 22 pontos, outra vez flertando perigosamente com a zona de rebaixamento. O filme parece o mesmo dos últimos anos. Muda o elenco, muda o contexto, mas a sensação permanente é a de um clube vivendo à beira de um novo naufrágio.
Neymar, por sua vez, voltou a representar todas as contradições que cercam sua reta final de carreira. Dentro de campo, foi decisivo mais uma vez. Sem ele, provavelmente o Santos teria saído derrotado. Fora dele, porém, voltou a alimentar polêmicas absolutamente desnecessárias. Ao marcar o primeiro gol, comemorou simulando distribuir cartas de baralho, numa resposta evidente às críticas recebidas por ter participado de um torneio de pôquer na mesma noite em que seus companheiros enfrentavam a Universidad Central, na Venezuela. Como se não bastasse, as câmeras ainda flagraram o camisa 10 dizendo um sonoro “chupa” em direção às arquibancadas.
Um ‘chupa’ no ar
Talvez não tenha sido um recado para alguém específico. Mas foi um gesto inadequado, desnecessário e revelador. O episódio expõe um Neymar cada vez mais ressentido, incapaz de conviver naturalmente com críticas e disposto a responder a qualquer contestação como se estivesse permanentemente em guerra com o mundo. Continua sendo um jogador extraordinariamente importante para um Santos fragilizado, mas também um profissional que parece carregar um peso emocional cada vez maior.

O primeiro tempo até alimentou uma ilusão de ótica. Sem encantar, o Santos controlava a partida e não sofria defensivamente. Escalado de maneira ofensiva por Cuca, o time demorou alguns minutos para encaixar seu jogo, mas passou a dominar as ações à medida que Neymar assumia o protagonismo. Depois de desperdiçar três finalizações, o camisa 10 abriu o placar com um toque de enorme categoria após boa tabela com Barreal. A comemoração, porém, acabou chamando tanta atenção quanto o próprio gol.
Chape fez bom segundo tempo
Tudo desmoronou depois do intervalo. O técnico da Chapecoense voltou ousado, promovendo três alterações de uma só vez. A resposta foi imediata. Aos cinco minutos, Giovanni Augusto encontrou espaço pela direita, entrou na área sem ser incomodado e cruzou para Marcinho empatar. Onze minutos depois veio a virada, num lance infeliz. João Ananias tentou cortar o cruzamento rasteiro de Bolasie e acabou desviando contra o próprio patrimônio, sem qualquer chance para Gabriel Brazão.
Era impressionante a incapacidade do Santos de marcar. Se a equipe já apresentava dificuldades defensivas na primeira etapa, conseguiu ser ainda pior na segunda. Um apagão coletivo que recolocou o time diante de mais uma derrota humilhante dentro da Vila Belmiro. Cuca tentou reagir com três mudanças simultâneas. Mas, no fim das contas, quem salvou o Santos foi a combinação entre um pênalti de interpretação bastante discutível e a frieza de Neymar na cobrança. O camisa 10 bateu com extrema categoria e confirmou aquilo que hoje parece incontestável: ele ainda é a principal razão para o torcedor acreditar que o clube pode escapar de um novo rebaixamento.
Neymar recebe amarelo
A ironia é que nem ele estará presente na próxima rodada. Advertido com o terceiro cartão amarelo, Neymar desfalcará o Santos diante do Athletico-PR. Não seria correto afirmar que forçou deliberadamente a suspensão. Faltam provas para uma conclusão tão grave. Mas também não deixa de chamar atenção a maneira como passou boa parte da partida reclamando da arbitragem e se envolvendo em discussões e empurrões desnecessários. De um jogador com sua experiência, espera-se mais equilíbrio quando a equipe mais precisa de serenidade.
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No fim das contas, a sensação que fica é perturbadora. O Santos continua dependendo quase exclusivamente de Neymar para sobreviver. E Neymar continua oferecendo ao Santos o pacote completo: gols decisivos, talento raro, polêmicas intermináveis e atitudes difíceis de justificar. Hoje, ele segue sendo a bóia de salvação de um clube que insiste em navegar perto do abismo. O medo do torcedor não é apenas o de um novo rebaixamento. É também o de que, um dia, Neymar resolva abandonar de vez a Vila para dedicar mais tempo ao carteado do que ao futebol. Nesse dia, talvez nem milagres sejam suficientes para impedir que o naufrágio finalmente aconteça.





