O empate por 1 a 1 com a Austrália, conquistado pelo Brasil no último minuto do jogo desta sexta-feira, em Townsville, diminuiu o tamanho do vexame, mas não apagou as evidências de que a seleção brasileira atravessa um momento de instabilidade e declínio técnico que já começa a comprometer sua história e a manchar seu prestígio internacional. O novo ciclo de preparação para a próxima Copa começou da mesma maneira melancólica como terminou o anterior, com a eliminação diante da Noruega nas oitavas do Mundial. E isso aumenta a responsabilidade de Carlo Ancelotti.

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O italiano teve tempo para observar, convocar novos jogadores e pensar na reconstrução da equipe, mas a primeira impressão é de que alguns dos problemas que acompanharam o Brasil durante o ano de preparação para a Copa continuam presentes. O mais preocupante deles está no meio-campo. Socorro! O Brasil precisa encontrar urgentemente um camisa 10. Um jogador capaz de organizar a equipe, dar cadência e ritmo à transição da defesa para o ataque, enxergar o jogo antes dos outros e alimentar os jogadores que estão na frente. Não adianta colocar quatro atacantes em campo se não existe alguém capaz de levar a bola até eles.

Carlo Ancelotti, com cara de poucos amigos após empate com a Austrália, diz que o processo continua no Brasil / CBF

Ancelotti insiste em uma proposta que privilegia o 4-2-4, mas a partida contra a Austrália mostrou o preço dessa escolha. O time fica com quatro jogadores na linha de frente e dois volantes tentando fazer todo o trabalho de construção. Quando Bruno Guimarães e Danilo Santos não conseguem fazer a bola circular com qualidade, desaparece o meio-campo e, com ele, boa parte da capacidade de criação da seleção. Foi o que aconteceu em Townsville.

Austrália melhor

O gramado irregular, com vários buracos, evidentemente não ajudou a troca de passes. Mas seria cômodo colocar nele a responsabilidade pelo futebol ruim apresentado pelo Brasil. Principalmente nos primeiros 20 minutos, a Austrália ocupou mais o campo de ataque e mostrou algumas das virtudes que se esperavam da equipe de Ancelotti: organização, saída objetiva, marcação alta, ocupação dos espaços e agressividade no terço final. O Brasil apresentou muito pouco disso.

A performance até melhorou quando o Brasil passou a recorrer aos lançamentos e encontrou em Estêvão uma possibilidade de desequilíbrio individual. No fim do primeiro tempo, o garoto marcou depois de uma jogada de pura individualidade, mas o gol foi corretamente anulado pelo VAR por uma falta de Bruno Guimarães em Souttar na origem do lance. E foi melhor assim. Se o gol tivesse sido validado, seria uma injustiça diante do que a Austrália havia produzido até aquele momento.

Trocas e mais trocas

O segundo tempo começou com Ancelotti mantendo a formação, sinal de que ainda acreditava na ideia inicial. Mas a própria ineficiência do sistema acabou obrigando o treinador a mexer onde estava o problema. Aos 26 minutos, Bruno Guimarães saiu para a entrada de Douglas Luiz. Pouco depois, Pedro e Samuel Lino substituíram Endrick e Vinícius Júnior. Não eram duas trocas de atacantes por atacantes. Com Pedro como referência dentro da área, Estêvão aberto pela direita e Samuel Lino pela esquerda, Raphinha recuou um pouco para tentar participar mais da construção. Finalmente havia alguma ocupação diferente daquele enorme vazio existente entre a defesa e o ataque.

O que fazer com Raphinha?

Raphinha, aliás, merece uma atenção especial da comissão técnica. No Barcelona, vem sendo utilizado como centroavante e, na seleção, ainda parece não ter encontrado exatamente o lugar em que pode oferecer seu melhor futebol. É mais um daqueles problemas que precisam ser resolvidos durante esse novo ciclo, e não quando chegar a hora de disputar outra Copa do Mundo. Aos 23 minutos, porém, veio uma ficha de água fria. Irankunda cobrou falta pela esquerda, encobriu a barreira e contou com a falta de reação de Hugo Souza. A Austrália fazia 1 a 0 e colocava o Brasil diante de uma situação que, pela produção das duas equipes, não era uma surpresa.

A partir daí, Ancelotti transformou o amistoso em laboratório. Mauro Júnior, Rayan e Jair entraram nas vagas de Vitor Reis, Douglas Santos e Estêvão, enquanto o Brasil abandonava qualquer preocupação com equilíbrio e passava a procurar o empate de maneira cada vez mais desesperada. Bolas altas cruzadas para a área, o velho recurso das horas de desespero do futebol brasileiro.

Ancelotti deve fazer algumas mudanças no Brasil para o segundo jogo contra a Austrália nessa série de amistosos / CBF

E foi por esse caminho que a seleção escapou de uma derrota ainda mais incômoda. No último minuto, Raphinha cobrou escanteio da esquerda e Rayan subiu para cabecear. A bola ainda bateu no travessão antes de entrar.

Gol evita o vexame

O gol evitou o vexame, mas não resolve o problema. Ao contrário. O empate em Townsville serve como um alerta para Ancelotti e para a própria CBF de que reconstruir a seleção brasileira exigirá muito mais do que trocar alguns nomes, apostar em jovens e esperar que o talento individual resolva tudo. O Brasil precisa voltar a ter uma ideia de jogo, uma organização coletiva e jogadores capazes de fazer o meio-campo funcionar.

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A história da seleção foi construída por grandes atacantes, mas por grandes homens de meio-campo. Gérson, Rivellino, Zico, Sócrates, Falcão, Rivaldo, Ronaldinho e tantos outros não eram apenas jogadores talentosos. Eram protagonistas que pensavam o jogo e faziam a bola chegar onde precisava chegar. Hoje, a seleção tem atacantes de enorme potencial, mas ainda procura quem seja capaz de comandá-los. O primeiro jogo do novo ciclo, portanto, terminou empatado. Mas a sensação deixada por ele é a de que o trabalho de reconstrução apenas começou — e que será muito mais difícil do que escolher os próximos convocados.

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