Nas últimas semanas, o noticiário esportivo repercutiu a transação que envolve o controle acionário da SAF do Vasco e que tem como ator principal o enteado da atual presidente do Palmeiras. Isso ocorreu por diversos motivos: a investigação instaurada pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), o inconformismo natural do presidente do Flamengo, Bap, e a insatisfação de alguns conselheiros aliados, manifestada em grupos de WhatsApp. Leila, com o pedantismo de costume, responde a todos com a fotografia da troca das camisas em família, feita no campo antes da última partida, naquela linha do “estão mais calmos” que costuma endereçar à própria torcida.
Sua chegada ao ambiente futebolístico conta pouco mais de uma década. Foi uma inserção meteórica, desenvolvida dentro do Palmeiras em um relacionamento de cooptação e vassalagem, num longo período primeiro de influência e, depois, de exercício efetivo do poder, sempre marcado por egocentrismo e beligerância. Assim, rapidamente se afeiçoou ao futebol e a todo o fascínio que envolve o seu entorno, declarando, de forma reiterada e crescente, ter encontrado ali o seu lugar.

Contudo, para seu infortúnio, tudo que é bom dura pouco e o fim de seu mandato se avizinha (dezembro de 2027). Como a Sociedade Esportiva Palmeiras (SEP) é uma associação, é impossível se perpetuar no comando sem, pelo menos, ter de pedir votos — algo que ela própria revelou, em entrevista recente, ser “insuportável”. Transformar o clube em SAF para assumir o controle esbarra na vedação prevista no Estatuto do clube há mais de vinte anos, que permite apenas a alienação para uma SAF com venda de até 25%.
Como permanecer no futebol?
Foi nesse contexto que, há cerca de dois anos, conforme manifestou seu advogado nestes tempos, o enteado da presidente e filho de seu cônjuge, Roberto Lamacchia, também conselheiro do Palmeiras, teria se deparado com a oportunidade surgida a partir do imbróglio que se tornou a SAF do Vasco. O cenário levou ao mercado a possibilidade de aquisição da propriedade e do controle acionário de um clube tradicional, vencedor, de enorme torcida e com ativos a serem otimizados — entre eles, um patrimônio imobiliário relevante.

Pena que, para a inata arrivista, o negócio tenha se apresentado antecipadamente. O ideal seria “casar” com o fim de 2027, de forma coincidente com o término do mandato de Leila no Palmeiras. Assim, não haveria tempo para gerar toda essa movimentação e a comoção de tantos agentes, sem falar da própria torcida vascaína, já ávida pelo desfecho da negociação e que até música de arquibancada criou para o seu novo mecenas.
Afinal, enteado pode ou não pode?
Quem está certo? Por incrível que pareça, a questão é discutível, pois o normativo alude expressamente apenas às condições de pai, irmão ou filho. Mas filho e enteado não são a mesma coisa? Depende. E, se cabe explicação, pode ser que sim, pode ser que não. Quem vai dizer se é ou não correto? No caso de Leila, seu casamento ocorreu quando seu enteado já vivia de maneira independente, na fase adulta. Ela própria sempre alardeou o fato de ter adotado com seu cônjuge, “a bem da relação”, o modelo de residências distintas. Daí pode-se concluir que não existiria uma ascensão ou interferência comum decorrente da condição de madrasta, salvo, é claro, os laços afetivos que a unem ao filho de seu esposo.
Mas não confundamos as coisas: filho é filho, enquanto enteado é enteado. Mais controverso, nessa hipótese, é o aval que a holding patrimonial do casal ofereceu como garantia na operação realizada com o Vasco. Esse, sim, é um ponto sensível sob o aspecto jurídico dos impedimentos previstos nos regimentos.
Quais são as saídas?
O procedimento no âmbito da recém-criada agência reguladora objetiva analisar o potencial conflito de interesses provocado pela influência cruzada nas gestões. Por força dos regulamentos aplicáveis, poderá levar à celebração formal de acordos de ajustamento de conduta ou de planos de remediação, conforme o andamento do processo. A renúncia de Leila ao cargo no Palmeiras seria uma medida possível, eficaz e definitiva e tem sido cogitada ultimamente. Porém, traduz uma opção com chance zero de acontecer na prática, dado que essa palavra não integra o dicionário do ególatra. Assim, qualquer conjugação nesse sentido é apenas perda de tempo de quem fala.
Vai deixar rolar
Uma mudança de planos, com o retorno do foco ao ambiente doméstico, na tentativa de uma perenização institucional ao estilo “Real Madrid” — algo que ela mesma já suscitou anteriormente por meio de alteração estatutária —, sem dúvida seria um caminho de fácil acomodação interna no clube, entre conselheiros e associados. Todavia, esbarra em aspectos sobre os quais ela não tem controle, como o desejo e a expectativa de um de seus vice-presidentes, a falta de adesão da imprensa que a transformou em celebridade e tanto a bajula e a clara discordância de significativa parte da coletividade palestrina, que não aceitaria esse novo embuste.
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Portanto, o cenário que se revela mais propício para esse dilema é beneficiar-se do próprio ineditismo da atuação da agência e da aplicação das normas previstas no regulamento, valendo-se dos relacionamentos que costurou nos altos escalões com dirigentes e ministros. Dessa maneira, ganharia tempo por meio da prestação de informações, da discussão de possíveis acordos e, futuramente, da proposição de planos de remediação, até expirar o prazo de seu mandato e a situação alcançar alguma regularidade. E tudo isso considerando, a seu favor, a inexistência de quaisquer vacinas ou quarentenas capazes de limitar a movimentação dos executivos na administração do nosso futebol.





