Na carta de renúncia apresentada na tarde desta quarta-feira, horas antes do jogo no Morumbis, o agora ex-presidente Júlio Casares listou, em sua defesa, fez uma série de argumentos com os quais tenta demonstrar que é inocente das acusações que enfrenta, além de dizer que fez tudo para entregar um clube melhor do que encontrou. Sobre as negativas em relação aos malfeitos administrativos dos quais é acusado, só a investigação dirá o que é verdade e o que é mentira, intriga da oposição.
Já no trecho em que exalta seu desempenho no campo esportivo, não é difícil constatar que Casares se apoia em meias verdades — para não dizer que mente para a torcida. “Faço questão de afirmar que deixei um clube esportivamente estruturado, com um time competitivo, que voltou a disputar decisões e conquistou títulos de grande relevância, como a Copa do Brasil de 2023”, diz a carta.

Ainda que o argumento seja legítimo sob determinado ponto de vista, o campo mostra que Casares está descolado da realidade. Tirando a taça da Copa do Brasil — uma glória pontual em mais de cinco anos de governança —, o São Paulo ficou longe, na maior parte do tempo, de suas melhores tradições. E este início de temporada, com o departamento de futebol contaminado por intensa turbulência política, só agrava o cenário. O Tricolor não tem muito do que se orgulhar.
Time exposto contra a Lusa
O duelo com a Portuguesa — que está longe de ser a Lusa poderosa do passado — expôs todas as fragilidades do São Paulo e, mais uma vez, lança um facho de suspeita sobre a qualidade do trabalho do técnico Hernán Crespo. É preciso reconhecer que o argentino busca alternativas, mesmo contrariando convicções táticas antigas.

Mas as coisas simplesmente não estão acontecendo. Na prática, o São Paulo é um time limitado, ainda desorganizado, incapaz de ser apontado como favorito à conquista de qualquer competição em 2026. Nem Casares, em seu delírio de autopreservação, apostaria alguma ficha neste Tricolor.
Em campo, o São Paulo sabia que precisava se impor desde o início, mas criou pouco. Mesmo contando com Calleri e Lucas desde o apito inicial, produziu menos do que se esperava. A bem da verdade, foi a Portuguesa quem comandou o ritmo da partida. As duas melhores chances do primeiro tempo foram da Lusa, ambas em chutes de fora da área: Gabriel Pires, aos 41 minutos, e João Victor, no minuto seguinte, exigiram duas grandes defesas de Rafael.
Falhas e reação tardia
No embalo desse domínio psicológico sobre o gigante, a brava Portuguesa percebeu que podia vencer. E foi premiada logo no início da etapa final. Renê abriu o placar ao aproveitar mais uma falha do sistema defensivo tricolor — especialmente do zagueiro Rafael Tolói — em cruzamento vindo da direita. A partir daí, a estratégia do São Paulo em busca de escapar de uma derrota anunciada passou a se parecer muito com o desespero de Casares em tentar provar sua inocência.
E aos 31 minutos, num raro lance de lucidez, Calleri recebeu uma bola enfiada num buraco do miolo de zaga da Lusa, entrou na área e chutou forte para empatar o duelo. Não demorou muito, no entanto, para a Portuguesa fazer mais um, numa cobrança de pênalti perfeita de Renê – bola para um lado, goleiro para o outro. Como desgraça pouca é bobagem, ainda cabia mais. E Maceió marcou o terceiro gol lusitano, num chute que passou no meio das pernas de Rafael. No abafa, o São Paulo ainda chegou ao segundo gol, de novo com Calleri, já nos acréscimos. Mas era tarde para uma reação.
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São Paulo preso ao passado
No final, apesar de todo o esforço, o resultado carrega melancolia, desalento e verdades que a bola não consegue dissimular. Este São Paulo que está aí não é o time da propaganda de Casares em seu manifesto de salvação. Com muita condescendência, talvez seja apenas um time capaz de atravessar o ano sem oferecer à torcida o desgosto de um rebaixamento. Não ter experimentado o inferno da segunda divisão talvez seja a única façanha que ainda mantém o atual São Paulo ligado ao verso do hino que diz que suas glórias vêm do passado.





