A rivalidade entre Palmeiras e Vasco ganhou uma dimensão incomum nos últimos meses, e até conflitiva no futebol brasileiro. O que antes se limitava às disputas dentro de campo de dois times co-irmãos, cujas torcidas caminham juntas, passou a envolver negócios, relações familiares, dinheiro emprestado, SAF e até a discussão sobre possíveis conflitos de interesse financeiro e esportivo. No centro da questão estão Leila Pereira, presidente do Palmeiras, e seu enteado, Marcos Faria Lamacchia, principal interessado na compra de 90% da SAF do Vasco. A operação, ainda não concluída, mas em marcha, colocou os dois clubes no centro de um debate que ultrapassa o futebol. Marcos Lamacchia já acompanha o Vasco em algumas partidas.

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A aproximação ganhou força porque a família Lamacchia já possui uma história conhecida no Palmeiras. José Roberto Lamacchia, pai de Marcos e marido de Leila, construiu durante anos uma relação empresarial com o clube por meio da Crefisa, que foi patrocinadora do Palmeiras durante dez anos e conduziu Leila à presidência por dois mandatos. Agora, o filho conduz uma negociação para assumir o controle do futebol vascaíno, enquanto Leila permanece no comando do Palmeiras. É a mesma família em dois clubes na mesma divisão. O artigo 1595 do Código Civil diz que enteado é considerado parente.

CBF está de olho

Portanto, a situação criou uma circunstância inédita: integrantes da mesma família podem passar a ocupar posições de influência em dois clubes que disputam as mesmas competições. A condição é, no mínino, conflituosa. E já começa a ser também aos olhos da CBF.

Leila Pereira e José Roberto Lamacchia, donos da Crefisa/FAM: família Lamacchia negocia com o Vasco / Agência Palmeiras

Leila, por sua vez, insiste que não participa da negociação envolvendo o Vasco. Em declarações públicas, a presidente palmeirense afirma que o negócio é de Marcos Lamacchia e que ela não tem relação com a operação. Em junho, chegou a dizer que não tinha “nada com isso” e que seu enteado estava negociando diretamente com o clube carioca. A posição é jurídica e politicamente relevante, porque a discussão central passou a ser se a relação familiar pode produzir algum tipo de conflito de interesses. Clubes rivais já entendem que sim.

Marcos e Leila juntos

O problema ganhou ainda mais visibilidade no dia 23 de agosto, quando Palmeiras e Vasco se enfrentaram no Nubank Parque pelo Brasileirão. Antes da partida, Marcos Lamacchia apareceu no gramado ao lado de Leila e vestindo a camisa do Vasco. Os dois chegaram a trocar camisas, numa cena que, embora pudesse ser interpretada como gesto familiar, provocou repercussão negativa. Por mais separados que possam ser, trata-se da mesma família, embora Leila não use o sobrenome Lamacchia.

A fotografia ganhou peso porque, além da relação familiar, já existiam vínculos empresariais entre os universos dos dois clubes. A Crefisa, empresa associada a Leila e à família Lamacchia, deu aval para viabilizar a contratação do argentino Santiago Sosa pelo Vasco. A operação foi fechada em US$ 7,5 milhões, segundo reportagem publicada nesta semana. Assim, mesmo com a afirmação de independência entre os negócios de Marcos e os interesses de Leila no Palmeiras, a fronteira entre as duas estruturas passou a ser questionada publicamente. Mas o Vasco agora está proibido de fazer novos negócios com a Crefisa.

R$ 80 milhões da Crefisa ao Vasco

A Crefisa já havia emprestado R$ 80 milhões ao Vasco, de Pedrinho, para pagar as contas do clube. O dinheiro deve ser pago em dois anos ou revertido em ações da SAF do clube. Como o empréstimo saiu da Crefisa, de Leila, ele também pertence a Marcos, herdeiro de Roberto Lamacchia.

Jogo do Palmeiras com o Vasco pelo Brasileirão: Leila ao lado de Marcos Lamacchia, filho do seu marido / Atenção vascaínos

O debate chegou às instituições que regulam o futebol. A Anresf, agência ligada à CBF responsável pela fiscalização das regras de Fair Play Financeiro, abriu um procedimento para analisar a possibilidade de conflito de propriedade na operação envolvendo Marcos Lamacchia. Como medida cautelar, o Vasco foi impedido temporariamente de manter relações comerciais com o Palmeiras e com empresas ligadas a Leila Pereira, incluindo a Crefisa. A decisão é preliminar e não representa uma conclusão definitiva sobre a legalidade da venda da SAF.

A discussão jurídica não é simples. O ponto central é saber se a condição de enteado de Leila caracteriza, para fins das regras esportivas, um vínculo familiar capaz de impedir ou limitar a presença simultânea de pessoas relacionadas em estruturas de controle de clubes que disputam as mesmas competições. Especialistas divergem sobre a interpretação, já que a legislação e os regulamentos esportivos precisam ser analisados em conjunto com as regras de parentesco previstas no Direito brasileiro. As brechas podem existir na lei. Leila trabalha muito bem isso. O caso vai chegar em instâncias superiores. Tanto Palmeiras quanto Vasco são próximos do presidente da CBF, Samir Xaud.

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O que está em jogo, portanto, é maior do que uma eventual rivalidade entre Palmeiras e Vasco neste momento. A possível chegada de Marcos Lamacchia ao comando da SAF cruzmaltina coloca em discussão os limites entre família, negócios e competição esportiva no novo futebol brasileiro. Leila afirma não ter participação na operação do Vasco; Marcos sustenta sua independência empresarial; e os órgãos reguladores terão de determinar se essa separação é suficiente do ponto de vista das regras do futebol.

Mandato de Leila acaba em 2027

Até lá, cada encontro entre Palmeiras e Vasco carregará uma história paralela: a de dois clubes adversários que passaram a estar ligados por uma mesma família — e por uma negociação capaz de mudar o equilíbrio de poder no futebol brasileiro. Os rivais estão de olho e prometem reagir. Vale lembrar que em dezembro de 2027, portanto, em mais um ano e meio, Leila Pereira termina o seu mandato no Palmeiras e estará livre para tocar os seus negócios da maneira que quiser.

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