ESTAMOS NUMA PRIMAVERA DO INÍCIO DOS ANOS 2000
Professoras fixam nas agendas escolares uma quantidade de bilhetinhos acima do suportável por mentes voláteis como a minha. Já constrangi meus filhos a tardes com merendeiras vazias, nas quais só não desmaiaram de inanição pela generosidade dos coleguinhas com pais mais atentos. Se minha mulher me cassou o direito de mexer nas mochilas dos meninos, o Conselho Tutelar bateria à porta a qualquer momento, ameaçando me tirar a guarda dos moleques.
Certo amanhecer, numa crise de abstinência das agendas, transgredi a norma familiar e deparei com um bilhetinho capaz de sugar qualquer atenção. No tom solene das diretoras de escola, dizia: “Senhores pais, pedimos que não sejam mais enviadas camisas de clubes de futebol para a prática de Educação Física. Confusões recentes entre os alunos nos levaram à medida. Cientes da compreensão dos senhores, agradecemos.”

Aos cinco anos, meu primogênito nutre pelo futebol uma indiferença retumbante, a ponto de mal saber quando é gol. Trata-se de um comportamento incomum: na escola já há pais sonhando com aposentadoria, impondo aos filhos uma competitividade precoce para ver se algum vinga. Fiquei impressionado com aquele relato de animosidade entre quem mal saiu das fraldas.
ESTAMOS AGORA NO VERÃO DE 2026
As memórias da agenda infantil me ressurgem cobertas pela pátina do tempo. Lembro de ter respeitado o apelo da diretora com disciplina germânica. Havia cometido a transgressão de um combinado matrimonial, lera escondido a agenda escolar do meu filho, logo deveria me comportar como se fosse segunda-feira e eu estivesse começando uma dieta, ou se fosse novembro e eu me matriculasse numa academia. Respeitei tudo integralmente. Nenhuma camisa de time foi parar na mochila do guri.
JÁ ESTAMOS NO OUTUNO DE 2026
Um vento gelado sopra da janela aqui na Luz e preciso, de forma humilhante para um gaúcho, me cobrir com uma manta para terminar a escrita desse texto. Mas não é só o clima que me gela o corpo.
Meu filho de 25 anos está sofrendo. Mandou um aúdio em quase desatino; a voz vacilante, a respiração curta. Estava inconformado com a vitória do Celtic sobre o Rangers, resultado que deixa os católicos de verde a um ponto do Hearts. A glória de vencer o Escocesão, depois de 66 anos, nunca esteve tão ameaçada para os lados de Midlothian. Até porque, na última rodada, os dois se enfrentam… em Glasgow.
Tentei consolar o guri com palavras vazias; pais sempre se atrapalham nesse esforço inútil de livrar os filhos do sofrimento. Também estou pressentindo que vão nos tirar o Tunnock’s da nossa boca, quando o doce parecia já derreter.
Estivemos juntos, eu e ele, no Tynecastle, umas duas temporadas atrás. Gorgie é um bairro vívido, sombrio, úmido, dessa beleza que só acontece na Escócia. Na saída do estádio, passamos na loja e comprei-lhe uma camisa do Hearts, comemorativa dos 150 anos do clube. Algo ali houve, no coração dele.
Agora, quando o vejo sofrer, fico pensando na diretora da escola e me penitencio. Poderia ter mantido aquela disciplina inicial, tão bem-intencionada quanto insustentável, mas fraquejei. Segui dando camisas para o guri. Espero que o resultado deste sábado me absolva de mais essa irresponsabilidade paterna.





